A participação efetiva do Brasil na Primeira Guerra Mundial durou pouco menos de um ano, entre 1917 e 1918. Optando inicialmente pela neutralidade, o governo de Venceslau Brás viu as circunstâncias levarem a uma atitude mais enérgica no combate depois que navios brasileiros foram afundados pelos alemães. O historiador militar Carlos Daróz está lançando o livro “O Brasil na Primeira Guerra Mundial – A Longa Travessia” (Editora Contexto). Dedicado a estudar os conflitos que marcaram a história do Brasil e do mundo, Carlos se dedica, neste livro, a desvendar os fatos acerca de um dos episódios mais marcantes do Século XX, embora não tenha, aqui, uma grande importância nos livros de História. Leia aqui textos da entrevista de Daróz ao “Você é Curioso?”:

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Como o Brasil entrou na Primeira Guerra Mundial?
O número de brasileiros envolvidos foi razoavelmente pequeno. A guerra estourou em 1914 e, inicialmente, a América do Sul entendeu como um problema distante. O Brasil, por exemplo, ficou neutro. No entanto, a nossa economia estava atrelada à Europa, que importava o café, e os principais parceiros eram justamente a Alemanha, líder de um dos blocos, e Inglaterra e França, líderes do outro. Os navios brasileiros navegavam bastante pelo Oceano Atlântico europeu levando o café. Depois que a Inglaterra bloqueou o litoral alemão, a Alemanha revidou e começou a atacar não só os navios dos aliados, como também de países neutros. Inclusive quatro brasileiros. Foi a partir do afundamento desses navios que o Brasil entrou na guerra a favor dos aliados e contra a Alemanha.

Qual foi a contribuição brasileira na guerra?
Depois de declarar guerra à Alemanha, o Brasil precisou definir como iria contribuir, o que acabou acontecendo de quatro maneiras. A primeira apareceu no fim de 1917, quando houve a Conferência Interaliada em Paris. Lá, foi definido que o Brasil entraria no ponto de maior demanda: a saúde. O número de mortos nas batalhas era extremamente elevado e havia uma carência muito grande de médicos, enfermeiros e farmacêuticos. Além disso, houve um surto de gripe espanhola na Europa e que chegou ao Brasil. Então, os brasileiros mandaram uma Missão Militar Médica para abrir um hospital em Paris, que tratou dos feridos e das vítimas da gripe, que foram maioria. Além da saúde, um grupo de soldados estagiou e observou a guerra junto dos franceses, entrando inclusive nas batalhas. Em terceiro, um grupo de oficiais da Marinha participou de treinamentos na Inglaterra, na Itália e nos Estados Unidos. Os que foram para a Inglaterra operaram no Canal da Mancha para destruir os submarinos e as minas que fossem encontradas. Por fim, a Marinha organizou um Divisão Naval de Operações de Guerra para patrulhar a costa africana, já que ali havia uma carência de navios para combater os submarinos rivais. Essa divisão teve altíssima mortalidade porque foi acometida pela gripe espanhola.

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Quantos brasileiros participaram do combate e quantos acabaram mortos?
Os números não são redondos, mas se considerarmos essas quatro frentes, mais os navios mercantes que foram afundados, aproximadamente 2 mil brasileiros participaram efetivamente da Primeira Guerra e cerca de 550 perderam a vida. A maioria foi vítima da gripe espanhola. O primeiro brasileiro a morrer foi fuzilado por ingleses em Londres. Ele nasceu na França, mas havia participado de uma rede alemã de espionagem que foi facilmente descoberta pela polícia inglesa. Por isso, foi condenado à morte.

Como a população brasileira reagiu à participação do país na Guerra?
Com o aumento da proporção da guerra, os intelectuais e a imprensa passaram a debater o assunto. Um grupo chamado de “germanófilos” defendia que o Brasil se aliasse à Alemanha, enquanto outro, os “aliadófilos”, entendia o oposto. Nesse segundo grupo estavam personagens importantes como Ruy Barbosa. Foi criada uma Liga de Defesa Nacional e a Liga Brasileira pelos Aliados que percorriam o Brasil divulgando a ideia de que o país deveria se alinhar aos aliados. Na verdade, a causa desse desejo era cultural, uma vez que a cultura militarista alemã era vista como um choque à cultura francesa. A população em si só tomou partido quando os navios brasileiros foram afundados. Nesse momento, com a morte dos brasileiros, o povo começou a se posicionar, incentivado pelos “aliadófilos”. Houve até manifestações de rua e depredações de imóveis de imigrantes alemães.

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Por que a Batalha das Toninhas entrou para a história?
Foi um caso que ficou no imaginário popular. Fruto do espírito brincalhão do brasileiro. Como eu disse, os navios brasileiros foram para o mar combater os submarinos. No entanto, os navios não tinham estrutura de detecção. Não havia nenhum sonar, nada. Era um vigia que ficava observando. Um dia, esse vigia identificou o que imaginou ser um submarino. Como a tecnologia era precária e o tempo para ação era pequeno, a ordem era atacar e depois ver se algo foi afundado ou não. E assim foi feito. Porém, tratava-se de um cardume de toninhas, um animal semelhante ao golfinho. Foi uma coisa horrível, que fez a Marinha ser muito questionada, mas que era comum para a época. Até a Marinha Real Inglesa, já possuindo toda a tecnologia, cometeu esse erro em 1982, na Guerra das Malvinas. Duas baleias foram confundidas com submarinos argentinos.

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