Por que é tão difícil jogar futebol na altitude?

Sempre que é preciso subir os 3.640 metros que separam o Estádio Hernando Siles, na capital da Bolívia, do nível do mar, preparadores físicos e comissões técnicas quebram a cabeça para tentar amenizar os efeitos desse desafio. Por mais que não seja o único (e nem o mais alto) estádio sul-americano a oferecer um cenário de dificuldade para respirar, a casa da Seleção boliviana virou sinônimo do terror da altitude.

"O problema está na saturação do oxigênio, que é de 100% no nível do mar. Quando você vai subindo o ar disponível vai caindo. Quem nasce nesses lugares tem de 30 a 40% mais glóbulos vermelhos, que armazenam oxigênio, então suporta muito melhor", explica o doutor Nabil Ghorayeb, especialista em medicina do esporte. "Existem pesquisas de médicos que comprovam que em competições esportivas o rendimento de quem está ambientado é melhor", afirma.

Para enfrentar mais esse adversário, vale tudo. Tem quem chegue dias antes para ambientar o corpo, tem quem prefira chegar em cima da hora para sofrer menos. Segundo Ghorayeb, não existe um período fixo de ambientação, mas só vale a pena chegar antes da hora se for com muita antecedência. Caso contrário, quanto mais perto da hora do jogo, melhor: "O corpo leva cerca de seis dias, uma semana, para se aclimatar. Os primeiros efeitos surgem apenas seis ou sete horas depois de chegar ao local", calcula.

Para Ghorayeb, apesar de todos os efeitos negativos, atletas que competem em locais de grande altitude não correm risco de vida: "É muito raro. Pode acontecer em quem tem um tipo muito raro de anemia falciforme, mas a chance é quase zero", garante. Se tragédias são praticamente impossíveis, complicações de menor gravidade nem tanto: "Quem tem pequenos problemas cardíacos ou de anemia precisa tomar cuidado quando sobe mais de 3 mil metros. Atendi o caso de uma jogadora de basquete que tinha anemia, ou seja, possuía menos glóbulos vermelhos. Ela entrou em quadra na altitude e menos de um minuto depois ela desmaiou. É preciso ter sempre um tubo de oxigênio", sugere Nabil.

Ele explica ainda que os bolivianos saem em vantagem (menor, é claro) mesmo quando descem para jogar ao nível do mar: "Por possuírem mais glóbulos vermelhos, fica mais fácil para respirar. É por isso que muitos corredores treinam em altitudes mais altas durante uma semana ou até mais", compara.