Padre declara Imposto de Renda?

Sim. Os padres recebem a côngrua, nome que se dá ao salário pago pelas paróquias, mas não têm carteira assinada. “Padres mantêm contas nos bancos para fazer o pé-de-meia”, conta o padre Francisco de Assis Wloch, sub-secretário pastoral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. “Usamos também com nossas despesas pessoais. “Toda terça-feira, os padres aqui de Joinville jogam futebol. Pagam o aluguel da quadra”.

Em média, as côngruas são de três salários mínimos, mas existem padres que ganham menos que isso. “Em algumas regiões do país, conheço religiosos que não recebem nem 500 reais por mês”, afirma Wloch. “Alguns tiram dinheiro da côngrua para ajudar os que não conseguem receber das comunidades locais.” O benefício é assegurado pelo Código de Direito Canônico, de 1917, que regula a organização da Igreja Católica. “Não há um valor padrão pago pelas paróquias”, explica Dom Pedro Brito, arcebispo de Palmas (TO). “O pagamento da côngrua varia de acordo com cada paróquia.” Na arquidiocese de São Paulo, os ganhos são baseados no tempo de ministério sacerdotal de cada religioso. Até o 5º ano, são pagos dois salários mínimos e meio mensais; do 5º ano até o 15º ano, três salários mínimos livres; do 15º até o 25º, quatro salários mínimos. Além do dinheiro eclesiástico, padres podem ter outras rendas, o que é permitido pela Igreja Católica. Há casos como o de padre Marcelo Rossi, que reverteu os gigantescos lucros da venda de CDs e livros para a construção do Santuário Mãe de Deus, em Santo Amaro, na cidade de São Paulo. Tudo isso precisa ser declarado.

A côngrua é o único benefício financeiro que os padres ganham. Não há adicionais para atuar em missas, casamentos, catequeses e batizados. “Em eventos especiais, apenas recebemos o ressarcimento de despesas, como deslocamento e alimentação”, pontua Wloch. Os religiosos não possuem carga horária diária. Trabalham de acordo com os eventos marcados para o dia. De acordo com as recomendações do Direito Canônico, um padre não deve realizar mais de duas missas em um mesmo dia – três celebrações são aceitas em raríssimos casos. “Em muitas comunidades carentes, há padres que fazem cinco missas em um domingo, apesar de a igreja desaconselhar o trabalho excessivo”, diz Wloch. Para os padres franciscanos, que fazem voto de pobreza, há um regime especial, como explica Fernando Altemeyer Júnior, professor de Teologia da PUC-SP: “Alguns não abdicam de todo dinheiro, só usam o mínimo necessário”.

Em outras igrejas, os representantes religiosos também são assalariados. Na Igreja Luterana, o salário de um pastor iniciante é de 2.554,52 reais. Em média, um pastor luterano ganha 4 mil reais por mês pela CLT. “Não há um valor máximo”, diz o pastor André Luís Bender. ” Cada congregação paga quanto quiser, desde que respeite o piso”. Já na Igreja Universal do Reino de Deus, o salário inicial é de um salário mínimo e meio, segundo o pastor Bruno Henrique, da unidade do Jardim Orion, em São Paulo. “Já me ligaram a 1 hora da manhã e eu tive que fazer uma oração para a pessoa”, afirma Bruno. “Trabalhamos por amor e louvor a Deus, não por dinheiro”. Os pastores da Igreja Universal não possuem carteira assinada.