Como os pichadores conseguem rabiscar um prédio inteiro?

Osvaldo Júnior, o Juneca, foi um dos primeiros pichadores da cidade de São Paulo. Começou na década de 1980 e, depois de alguns poucos anos, trocou a adrenalina do picho pelas cores do grafite. Ainda assim, coleciona memórias e contatos que lhe dão experiência para falar sobre o assunto. “O pichador jamais tem a ajuda de ninguém que não seja da tribo”, revela. “No caso de um prédio, ele tem que tentar achar uma entrada de serviço ou ir escalando mesmo. Dependendo do local, dá para subir em algum muro um pouco mais baixo que esteja próximo e usar um cabo para chegar ao prédio”.

“A pichação mais difícil é também mais prazerosa”, confirma um pichador que prefere não se identificar. “Cada um trabalha de um jeito, não há uma regra. Cada um tem os seus artifícios. Escalar, encontrar uma entrada… Isso varia”, diz. Há 12 anos fazendo pichações, ele diz que é preciso ter muito cuidado para alcançar locais tão inacessíveis: “Qualquer erro pode ser fatal e te fazer perder a vida. Tem que calcular tudo muito bem. Por isso mesmo alguns gostam de observar o local que vão pichar antes de entrar em ação”, explica. Ele conta que já se machucou em menor gravidade enquanto pichava e que, nesses casos, é preciso saber criar histórias: “No hospital, tem que inventar alguma coisa. Dizer que caiu no trabalho ou em casa”, pontua.

O pichador revela que conhece amigos que passaram por maus bocados enquanto tentavam imprimir sua marca em prédios: “Às vezes, você está lá e um morador abre a janela. É preciso tentar explicar tudo porque a primeira reação da pessoa é achar que você quer roubá-la. Então você fala que só quer pichar. Alguns se acalmam, outros não. Conheço casos de moradores que pegaram uma vassoura para tentar derrubar o pichador de uma altura da qual ele certamente morreria”, relata. Quando tudo dá certo, é melhor registrar o feito, já que ele não deve durar muito tempo: “Alguém vai vir apagar algum tempo depois, então é melhor levar uma câmera para ter uma recordação”, sugere.