Paralimpíadas

1. A origem do esporte paralímpico está associada ao tratamento dos portadores de deficiência. Durante a década de 1920, o neurologista alemão Ludwig Guttmann, então chefe do Centro Nacional de Traumatismos da Inglaterra, revolucionou o modo de se tratar os deficientes físicos com uma técnica inovadora: o esporte. Com a ajuda de modalidades como tiro com arco, basquete e sinuca, ele aumentou a eficiência nesse campo da Medicina.

2. O sucesso de suas iniciativas foi tão grande que, em 28 de julho de 1948, mesmo dia da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, aconteceram as primeiras competições paralímpicas da história, com atletas do tiro com arco. Apenas competidores britânicos participaram.

3. O evento passou a ser anual e, já em 1952, ganhou 130 competidores estrangeiros. A partir daí, ganhou o nome de  Jogos Internacionais de Stoke Mandeville, cidade inglesa onde estava situado o Centro Nacional de Traumatismos.

4. Em 1959, já consolidado e com várias modalidades em disputa, os Jogos Internacionais tomaram novos rumos. Ficou decidido que, no ano seguinte, as disputas seriam, pela primeira vez, fora de Stoke Mandeville. Os atletas desembarcariam em Roma, sede dos Jogos Olímpicos.

5. Os Jogos Internacionais de 1960 são considerados, então, os primeiros Jogos Paralímpicos da história. Foram 400 atletas cadeirantes de 23 países diferentes. A partir daí, a ideia era de que as Paralimpíadas passassem a seguir o calendário e as sedes olímpicas.  Assim foi feito em Tóquio no ano de 1964.

6. Quatro anos depois, no entanto, a Cidade do México alegou não ter estrutura para abrigar atletas paralímpicos e a competição passou  para Tel-Aviv, em Israel. Em 1972, Munique, na Alemanha, abriu mão da competição que não deixou o país e foi realizada em Heidelberg. Em 1976, no Canadá, quem abrigou a disputa foi Toronto, e não Montreal. Em 1980, enquanto as Olimpíadas foram em Moscou, na União Soviética, os Jogos Paralímpicos desembarcaram em Arnhem, na Holanda.

7. Em 1984, ano dos Jogos de Los Angeles, foram duas sedes. Em Nova York, também nos Estados Unidos, se disputaram as categorias para deficientes visuais, portadores de paralisias e amputados. Já os cadeirantes voltaram à Stoke Mandeville. a “Atenas Paralímpica”. A partir de 1988, em Seul, os paratletas voltaram a desembarcar na mesma sede dos Jogos Olímpicos.

8. A expansão das Paralimpíadas para outras categorias de deficiência se deu um pouco antes, em 1976. Até 1972, os Jogos eram restritos aos paraplégicos. Naqueles Jogos de 1976, amputados e deficientes visuais passaram a fazer parte do programa.  A inclusão dos portadores de paralisia cerebral só aconteceu quatro anos mais tarde, enquanto “les autres” (os outros, em tradução livre, são os atletas que não se enquadram especificamente em outras categorias) começaram a participar em 1988. A partir dos Jogos Paralímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996, foram incluídos os deficientes intelectuais. Eles foram tirados do programa paralímpico em Atenas (2004) e Pequim (2008), mas voltaram em Londres (2012).

9. A história brasileira nos Jogos começa em 1972. Com uma delegação pequena, de apenas 14 atletas em três esportes, o Brasil não se destacou.

10. Quatro anos depois, veio a primeira medalha: uma prata para a dupla Robson Almeida e Luiz Carlos Costa em uma variação da bocha chamada “lawn bowls”.

11. Depois de passar novamente em branco em 1980, o Brasil deslanchou em 1984: foram sete ouros, 17 pratas e quatro bronzes. O primeiro ouro foi no atletismo (onde o Brasil faturou seis das sete medalhas douradas), com Márcia Lasmar nos 200m rasos.

10 curiosidades sobre as Paralimpíadas

1. O médico Ludwig Guttman havia fugido da Alemanha nazista e vivia na Inglaterra, onde se dedicava aos cuidados de soldados ingleses feridos na Segunda Guerra Mundial. Trabalhando no Hospital de Stoke Mandeville, Guttman aproveitou a experiência com o esporte para deficientes, que já existia na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha (onde havia clubes para surdos desde o século 19), para criar os Jogos de Stoke Mandeville, que aconteceram simultaneamente às Olimpíadas de Londres (1948), e tiveram a participação de 16 atletas, todos com problemas decorridos de ferimentos na coluna.

2. Quatro anos depois, vieram atletas da Holanda. Mas o sonho de Guttman, de um evento realmente olímpico para os deficientes, só virou realidade em 1960. Um colega italiano sugeriu a Guttmann que realizasse seus Jogos em Roma, imediatamente depois das Olimpíadas. Foi assim que surgiram os primeiros Jogos Paralímpicos, com o nome de Olimpíadas dos Portadores de Deficiência.

3. O formato atual dos Jogos Paralímpicos surgiu em 1988, nas Olimpíadas de Seul. Foi também a primeira vez que o evento foi chamado com esse nome.

4. Na primeira edição oficial do evento, em Roma, participaram 400 atletas. Nos Jogos de Londres, em 2012, houve mais de 4 mil participantes.

5. O esporte paralímpico no Brasil só começou na década de 1950, graças ao paraplégico Róbson de Almeida Sampaio, que havia retornado dos Estados Unidos. Ele fundou um clube no Rio de Janeiro, enquanto outro paraplégico, Sérgio Delgrande, fazia o mesmo em São Paulo. Em 1959, as equipes dos dois clubes se enfrentaram em um jogo de basquete em cadeira de rodas. As associações de atletas deficientes começaram a aparecer, e o Brasil enviou uma delegação aos Jogos Paralímpicos pela primeira vez em 1972.

6. A velocista mineira Ádria Rocha dos Santos tornou-se a maior velocista cega do mundo ao conquistar seu quarto ouro em paralimpíadas, nos Jogos de Atenas (2004). O primeiro veio em 1992, e os outros dois, em 2000. Ádria possui 10 medalhas paralímpicas. Ela começou no atletismo aos 13 anos, quando frequentava a escola para deficientes visuais Instituto São Rafael, em Belo Horizonte (MG). Foi perdendo gradativamente a visão por causa de uma doença chamada retinose pigmentar (degeneração da retina) e do astigmatismo de nascença.

7. Nas Paralimpíadas de Sidney (2000), a seleção espanhola de basquete cometeu uma grande fraude: montou um time com pelo menos 10 jogadores que forjaram ser deficientes intelectuais. A seleção ainda levou a medalha de ouro! É claro que, quando descobertos, eles foram obrigados a devolver todas as medalhas. E ainda acabaram prejudicando os legítimos deficientes intelectuais: depois da fraude, o Comitê Paralímpico Internacional baniu esses atletas da competição. O castigo perdurou até 2012, quando, nos Jogos de Londres, os deficientes intelectuais voltaram a competir em algumas modalidades. No basquete, eles continuam banidos.

8. Os atletas paralímpicos também são pegos no doping. Em 2000 e 2004, a incidência de doping nos Jogos Paralímpicos foi ainda maior que nas Olimpíadas. O curioso é que a maioria dos casos não tem relação com a ingestão de substâncias proibidas. Os atletas paraplégicos inventaram um tipo de "doping biológico", que foi proibido pelo Comitê Paralímpico em 1994. Como não sentem dor nas pernas, eles tiveram a ideia de provocar o estímulo da dor nesses membros, causando um aumento do trabalho dos músculos do coração. Essa condição melhora em até 10% o desempenho do atleta. Para causar o efeito, eles espetavam tachinhas nos membros ou quebravam pequenos ossos do pé.

9. Os atletas paralímpicos não gostam de ser vistos como diferentes. Alguns até cogitam a possibilidade de unir as duas Olimpíadas. E isso não está longe de se tornar realidade. Nos Jogos de Londres (2012), o velocista sul-africano Oscar Pistorius e a mesa-tenista polonesa Natalia Partyka participaram tanto das Olimpíadas como das Paralimpíadas. Ambos são amputados e usaram próteses para participar dos Jogos Olímpicos.

10. Paraolimpíadas ou Paralimpíadas? Até 2011, a palavra portuguesa para designar o evento era "Paraolimpíadas". Nesse ano, o Comitê Brasileiro adotou a grafia "Paralimpíadas", para se assemelhar ao Comitê Paralímpico Internacional, que é chamado desse jeito desde 1989, quando foi fundado. O nome, no entanto, não faz sentido morfológico. Segundo a gramática da língua portuguesa, se tivesse de contrair uma das vogais, seria a pertencente ao prefixo "para", e não à palavra adjacente. Portanto, pode-se usar "Paraolimpíadas" ou "Parolimpíadas", mas nunca "Paralimpíadas". Apesar de a regra ser clara, as entidades não abriram mão de utilizar o termo equivocado.