Para despistar ou para superdimensionar o “Jantar da Vingança”, comercial produzido para comemorar os 15 anos do site Reclame Aqui, cliente e agência disseram que ele foi gravado com nove executivos em três restaurantes diferentes durante uma semana. Não foi bem assim. O vídeo foi gravado numa única noite e (surpresa?) um dos três “executivos” que aparece no filme era um ator. O Blog do Curioso conversou com duas pessoas que participaram da gravação, que aconteceu na noite de 1º de março, uma terça-feira, e conseguiu reconstituir boa parte dos bastidores. O blog revelou há duas semanas que a gravação tinha sido realizada no badalado restaurante Più, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
O primeiro casal chegou às 19h40, dez minutos depois do horário agendado, logo que o restaurante abriu. O casal recebeu um convite para conhecer “o novo cardápio” da casa. O garçom que atendia esta mesa era um ator. Todas as outras mesas estavam ocupadas por clientes de verdade e eram servidas por garçons do próprio restaurante. Para irritar o cliente, o garçom fake tirou o pedido várias vezes. Serviu a sobremesa em vez do prato principal. Serviu também bebidas erradas. Quando o cliente pediu a troca, o garçom avisou que iria cobrá-las mesmo assim. Se o cliente quisesse o ressarcimento teria que entrar com um pedido de reembolso no SAC do restaurante.
A segunda vítima da pegadinha chegou às 21 horas. Um dos entrevistados contou ao blog que a acompanhante dele sabia da ação. Embora o rapaz tenha ameaçado ir embora várias vezes, a moça insistia em ficar, o que só aumentou a tensão. Ao lado deles, havia uma mesa com dois figurantes.  A mesa dos figurantes era melhor tratada – couvert mais generoso, atendimento eficiente, tudo era trazido de forma correta – e isso foi enfurecendo a vítima. O pão do couvert dele veio todo esturricado e a salada foi servida propositadamente carregada de pimenta calabresa. Irritado, o cliente chegou a pegar o atrapalhado garçom pelo colarinho em determinado momento.
Por volta das 22 horas, entrou em cena o terceiro “executivo”, na verdade, um ator que deveria repetir situações parecidas com as dos dois personagens anteriores. Mas que tinha na cabeça frases imaginadas pelos redatores da campanha, como “Já não estou gostando desse atendimento”, “Uma sacanagem tratar o cliente desse jeito” ou “Reclame Aqui é o c***lho!”. Ao ator, foi servida uma taça de vinho misturada com vinagre.

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O ator tinha na cabeça frases imaginadas pelos redatores da campanha


A presença de um ator na hipotética pegadinha, não revelada pela agência e pelo cliente, tira a graça do trabalho. Afinal, a apresentação do vídeo diz que estão ali  o “diretor de marketing de uma empresa de telecom, o diretor de operações de uma empresa de logística e o diretor de vendas de uma empresa de e-commerce”. Outra pulga ficou atrás da orelha. Se a acompanhante do segundo convidado tinha conhecimento da ação, quem garante que as duas vítimas da pegadinha não eram amigos da produção, que passaram por um trote, e depois tiveram seus rostos borrados?
Logo que o vídeo foi publicado, o Jantar da Vingança recebeu muitos elogios e uma certa desconfiança em muitos comentários escritos nas redes sociais. Um deles foi publicado pelo jornalista Alexandre Orrico, do BuzzFeed Brasil. Sobre isso, Rodrigo Jatene, CCO da agência Grey Brasil, declarou para a repórter Gabrielli Menezes: “Como gravamos em diversos restaurantes, podia dar a entender que foi uma ação montada. Mas a gente está muito tranquilo com relação a isso. Estávamos lá, vimos as pessoas. Montamos a campanha durante vários meses. Não tem como fazer as pessoas acreditarem nas coisas, mas estamos tranquilos e felizes por termos conseguido levantar uma discussão em torno desse tema [mau atendimento]. Quem acreditou se deu bem porque tudo ali é a mais pura verdade. E, para os que não acreditaram, paciência! A gente não pode fazer nada. O que não faremos de jeito nenhum é identificar quem estava ali”. Procurada pelo Blog do Curioso,  a direção do Reclame Aqui mandou apenas uma nota lacônica: “O Reclame Aqui tem plena confiança no trabalho realizado pela Agência Grey”.
Nessa mesma entrevista ao blog, logo que a campanha foi veiculada, Rodrigo Jatene disse:
“A gente combinou com os executivos via carta e contato telefônico. Não era no mesmo dia e nem no mesmo horário. Chamamos durante uma semana em três restaurantes diferentes. O que a gente fez foi, sim, usar as três pessoas que foram no mesmo restaurante durante essa semana”.
E também sobre a liberação do uso de imagens:
“Três deles concederam a imagem desde que usássemos o borrão no rosto deles e não revelássemos onde trabalham e quem são eles…  E fizemos isso, justamente porque não é um ataque pessoal a ninguém”.
A informação que a gravação no Più aconteceu numa única noite foi confirmada pelo sócio e chef Marcelo Laskani. Ele fechou o aluguel do espaço por um jantar com um produtor chamado Daniel. Ao agendar três personagens em espaço tão curto de tempo, a Grey contava mesmo que as vítimas da pegadinha seriam bem pontuais e que não iriam ficar muito tempo na mesa. Mais que isso: como se lê acima, Jatene  garante que os três que passaram lá naquela noite aceitaram assinar a autorização de uso de imagem. Deram uma sorte tremenda em conseguir tanta gente com fair play.
“A ficção cabe perfeitamente no storytelling, contanto que seja declarada e assumida”, afirma o empresário Joni Galvão, autor do livro “Super-Histórias no Mundo Corporativo”, que trata da construção de histórias em campanhas publicitárias. “Maquiá-la como verdade decididamente não é uma boa estratégia”.
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