Mais uma homenagem aos 75 anos do Rei do Futebol. Em fevereiro de 1989, a Revista Placar biografou os primeiros companheiros de Pelé, que fizeram história pelo infanto-juvenil do Bauru Atlético Clube, carinhosamente chamado de “Baquinho”. Passados 26 anos da reportagem de Kátia Perin, o Blog do Curioso voltou a procurar os jogadores bicampeões bauruenses ao lado do Rei em 1954 e 1955. “Demorei dois meses para encontrar todos”, conta Kátia. “Era como um novelo de lã: achava um que me indicava mais dois e assim acontecia”. A reportagem “O Primeiro Time de Pelé” rendeu a Kátia o Prêmio Esso de Informação Esportiva de 1989. “O que mais me encantou foi bater na porta dos jogadores e encontrá-los já com 50 anos, sendo que a única imagem que eu tinha deles na cabeça era de quando eram crianças”, lembra.

pele_bauru

O primeiro time de Pelé: Osmar, Grillo, Paçoca, Zoel, Aniel e Esquerdinha; Maninho, Pelé, Miro, Pérsio e Leleco


Edson Arantes do Nascimento desembarcou no interior paulista em setembro de 1945, quando seu pai, Dondinho, foi contratado para defender o Bauru Atlético Clube. A casa onde morou com a família, na Rua Rubens Arruda, não existe mais. Depois de ganhar a Copa do Mundo de 1958, Pelé presenteou os pais com uma nova residência, na Rua Sete de Setembro. Em abril de 2014, a última casa onde viveram Dondinho e Dona Celeste em Bauru foi incendiada – antes,  esta residência hospedava mendigos e usuários de droga. O terreno do Estádio Lusitana, onde o Baquinho sediava seus jogos, foi vendido à rede de hipermercados Carrefour em 2006 para sanar as dívidas do clube. Dos amigos, poucos ainda vivem em Bauru.
casa-pele-rua-setre-setembro1_95

A última residência de Pelé em Bauru, localizada na Rua Sete de Setembro


Passados 60 anos do último título conquistado por Pelé, em 1955, com a camisa azul e branca, a vida de seus primeiros companheiros seguiu um rumo totalmente diferente das conquistas futebolísticas do Rei do Futebol.
osmar
OSMAR
A liderança sempre acompanhou Osmar Luís Guedes (Piratininga, 23/4/1937). Nos tempos de Baquinho, carregava a faixa de capitão e botava ordem no brincalhão Pelé. Desde 1998, Osmar é diácono na Diocese de Jundiaí, função que permite realizar batismos, matrimônios e outras funções na igreja. “Sempre fui católico, mas passei a frequentar a diocese depois que casei”, conta o ex-zagueiro, marido de Ana Maria de Santa Eulália Guedes, que se aposentou como engenheiro em 1992.
Dos tempos de Baquinho, recorda-se dos estragos que Pelé fazia dentro de campo. Em uma partida contra o Santa Maria, time do bairro Bela Vista, Pelé, sem pudor, foi pra cima do lateral-esquerdo Faísca, famoso na região pelas pernadas que distribuía. Quando o arisco garoto tentou o drible, tomou um chute que o fez voar longe. Osmar estava próximo do lance e retratou o destemor de Pelé. “O Faísca perguntou se sabia quem ele era, o Pelé, estirado ao chão, virou e disse: “Eu sou Pelé, e daí?”. O ex-zagueiro do Baquinho, por morar próximo ao campo do time, recebia o franzino garoto muitas vezes em sua casa. “Ele sempre vinha pegar água e uma balinha”, lembra o pai de Fábio, Ana Luiza, Maria Paula, Marina e João Paulo. Da família Guedes, porém, Osmar garante que não surgirá um novo Pelé: “Tenho doze netos, e grande parte deles trocou a bola pela música”.
 
grillo
GRILLO
Quem encontrar pôsteres do Baquinho espalhados por bares do Rio de Janeiro pode ter certeza que foram colados por Antônio Grillo Novo Filho (Rio de Janeiro, 12/12/1936). “Gosto de divulgar aquele timaço pelo lado saudoso e fotográfico”, diz o advogado de 78 anos. Antes de conhecer Pelé, Grillo conheceu Dondinho, o pai do Rei. Vindo do Rio de Janeiro, Grillo chegou à Bauru com 16 anos, por causa de seu pai, um mestre-de-obras constantemente transferido. Sua primeira moradia foi em uma pensão, administrada por Alberto, amigo de Dondinho. “Meu pai disse que eu jogava bola e queria jogar no time da cidade”, lembra. No primeiro teste de Grillo no Baquinho, viu um “negrinho com a camisa até o joelho, parecendo um pinto molhado”. O carioca caiu na risada. “No treino, ele mostrou um potencial extraordinário”, recorda. “Confesso que já tomei caneta do Pelé, mas isso é uma honra”.
Desde 2010, o principal passatempo de Grillo é escrever crônicas. O primeiro texto surgiu a partir de uma visita à praia com a família. Desde então, já foram 450 crônicas. “Gosto de salpicar minhas palavras com humor”, define o ex-zagueiro, que leva Chico Anysio como grande inspiração. Casado há 54 anos com Maria Aparecida, Grillo teve duas filhas: Maria Cristina, jornalista de O Globo, e Maria Cláudia, bióloga da Petrobrás. Sobre a época de Baquinho, o grande orgulho dele é ver como todos os companheiros se deram bem na vida. “Uns viraram médicos, engenheiros, bancários”, diz. “Éramos um time inteligente que acabou conquistando muito também fora de campo”. Um dos orgulhos de Grillo é a vista de seu apartamento, no bairro do Maracanã. “Quando abro a janela e vejo o estádio, não tenho como esquecer o Pelé”.
 
paçoca
PAÇOCA
Sérgio Gonzáles, conhecido como “Paçoca” por vender amendoim na infância, faleceu. A família do melhor amigo de Pelé não foi encontrada, porém amigos dos tempos de Baquinho afirmam que ele viveu até o fim no Bar Vitória, apesar da Doença de Alzheimer. Um dos jogadores, que pediu para não ser identificado, revelou que Pelé o chamou para perguntar quem não estava bem financeiramente. O indicado foi Paçoca. Pelé, então, ajudou na construção do bar que era a grande fonte de renda do melhor amigo de infância.
 
zoel
ZOEL
Os únicos membros do corpo que Zoel ainda movimenta são os mesmos que o consagraram como goleiro titular do Baquinho. “Quando alguém chega, ele só mexe os braços e raramente fala”, conta a professora de educação infantil Cibele Costa, filha única de Zoel. O ex-goleiro começou a perceber os primeiros sintomas de esquecimento em 2006, quando descobriu que estava sendo, pouco a pouco, atacado pelo Alzheimer. A doença agravou-se assim como os problemas nas pernas. Zoel Campanelli da Costa (Bauru, 13/10/1937) está encamado há dois anos. “Ele divide a vida entre nossa casa e o Hospital Beneficência Portuguesa de Bauru”, conta Cibele. Como administrador financeiro, Zoel aposentou-se aos 56 anos na Mappel, empresa de embalagens. Nos tempos de lucidez, não cansava de contar aos amigos que sua mãe Isaura havia alimentado o Pelé muitas vezes. “A matéria na Placar era o grande orgulho dele, mostrava pra todo mundo”, completou a filha do ex-goleiro, hoje com 77 anos.
 
aniel
ANIEL
“Será coisa rápida?”, perguntou Aniel Chaves (Bauru, 21/8/1936) ao atender o telefonema, enquanto arrumava as malas. “Estou partindo pra Europa, vou cumprir este sonho”. Após 78 anos de espera, o ex-jogador do Baquinho conheceria Veneza. Aposentado em 1991 como delegado seccional de polícia, cargo que exerceu por dois anos, enche a boca para falar que construiu, ao lado do próprio Rei, o primeiro campo que Pelé jogou bola. “Cortamos o mato, limpamos o terreno e pegamos uns pedaços de madeira no Moinho Santista para fazer as traves”, lembra, sobre o terreno hoje às margens do Rio Bauru, ao lado da Avenida Duque de Caxias. “O campo era inclinado, tínhamos que colocar terra embaixo da bola pra não correr.”
O primeiro clube de Pelé em Bauru foi o Ameriquinha, que tinha como vestiário a casa de Aniel. “Ele ficava sentado na minha cômoda de madeira”, recorda. No ano passado, a sala da atual residência de Aniel em Bauru ganhou um novo e exclusivo adereço. Pelé pediu cem exemplares do seu livro “1283” para presentear amigos. O único bauruense agraciado foi o ex-delegado, com o número “008/100”. “Tem duas fotos minhas no livro: uma no vestiário do Baquinho e outra quando ele estava fazendo um documentário para um canal francês, saiu da piscina – todo molhado – e veio me abraçar”, conta. Aniel teve dois filhos, Eliana e Aniel Junior, e seis netos. Dentre eles, garante que há dois craques: Pedro e Felipe. “Levava-os para treinar na escolinha do São Paulo em Campinhas”, diz. Além de paparicar os netos, Aniel canta em um conjunto de música sacra na 1ª Igreja Batista de Bauru.
 
esquerdinha
ESQUERDINHA
João Correia das Neves Junior foi apelidado de “Esquerdinha” por causa da canhota que articulava algumas jogadas pelo meio-de-campo do Baquinho. Afetado pela Doença de Alzheimer, morreu em 11 de abril de 2013 e foi enterrado no Cemitério Jardim do Ypê, em Bauru, onde viveu sua vida. Engenheiro eletricista aposentado na Companhia Paulista de Força e Luz, teve dois filhos: Rogério e Rodrigo. “Nós ouvimos muitas histórias contadas pelos amigos do nosso pai. Uma delas é a que ele dava carona para o Pelé de bicicleta, carregando o rei no guidão”, conta Rogério.
 
maninho
MANINHO
Em comparação às rápidas arrancadas pela ponta-esquerda do Estádio Lusitana, hoje o que mais aproxima Maninho da bola é correr pelos 110m² de seu apartamento no bairro do Morro dos Ingleses, em São Paulo, atrás da neta Maria Eduarda, de nove anos. “Ela adora jogar”, confia o ex-ponta-esquerda do Baquinho. A mãe de Duda é Adriana Bruno de Oliveira Geraldo, filha única de Maninho com a esposa Dora.
O corpo de Maurice Carlos de Oliveira (Jundiaí, 06/11/1937) ainda está em forma porque frequenta a academia todos dias da semana, depois que teve obstrução nas artérias e colocou duas pontes de safena em 2004. “Intensifiquei os exercícios para poder contar as histórias por muito tempo”, diz. “Famoso depois de velho”, como se descreve, a matéria feita pela Placar tirou Maninho do anonimato – inclusive foi usado para propaganda política dentro do Banco do Brasil, onde se aposentou em 1995. Um candidato ao cargo de representante de funcionários do banco fez todo discurso em cima de Maninho: “Eu sou filho do ex-presidente do BAC e vi o Maninho jogar durante toda a infância, não perdia um jogo dele, era a alegria de meus olhos”. No final da fala, os colegas de trabalho passaram a perguntar: “Ele veio fazer propaganda do Maninho ou falar dele mesmo?”
Em 1954, enquanto os meninos do Baquinho brincavam na arquibancada do Estádio Lusitana, chegou a notícia de que a Alemanha havia se tornado campeã mundial. Maninho virou-se para Pelé e fez uma profecia: “Só ganharemos uma Copa quando você for pra Seleção”. A última vez que o ex-ponta-esquerda encontrou o Rei do Futebol foi no lançamento do filme “Pelé Eterno”, em 2004. Pelé caminhava pelos corredores do Palácio dos Bandeirantes ao lado de José Serra e Aloísio Mercadante quando viu Maninho. “Que bom que você veio”, disse o Rei, junto a um forte abraço. Na despedida, gritou: “Maninho, você faz parte dessa história”. Naquele dia, o avô de Maria Eduarda, hoje com 77 anos, também viu Pepe, mas não o tietou. “A melhor dupla foi Maninho e Pelé, éramos infernais juntos”, garante.
 
miro
MIRO
Waldemir Arruda Campos (Bauru, 22/3/1937), 78 anos, continua morando na Vila Rita, em Sorocaba. Após se aposentar em 2007 no Departamento de Estradas e Rodagem (DER), o principal passatempo de Miro é assistir televisão. “Não vejo só futebol, porque hoje está muito devagar, ganham muito e jogam pouco”, analisa. “Torço pro São Paulo, infelizmente, porque nos últimos tempos está difícil.” Além do esporte que o consagrou ao lado de Pelé, Miro gosta de ficar ao lado da esposa Rute do Nascimento Campos. “Já faz 54 anos que ela está me aturando”, diz. A comemoração do 78º aniversário de Miro foi regada à feijoada no quintal de sua casa, acompanhado dos três filhos (Ana Lucia, Walmir e Marco Aurélio), dos sete netos e dos dois bisnetos. “Bola mesmo só na televisão, porque nenhum deles gosta”, conclui.
 
leleco
LELECO
O tempo passou, mas o bom-humor de Leleco continua o mesmo, apesar de ter ficado uma semana internado com suspeita de dengue. “Pô, o Pelé fala pra todo mundo que jogou comigo”, afirmou logo quando perguntado sobre o craque do Baquinho. Hoje, aos 76 anos, Armando Henrique Laranjeira (Araraquara, 19/9/1939), o Leleco, ainda mora em Bauru. Sua carreira profissional terminou em 2009, quando era representante comercial na Everest, uma fabricante de biscoitos.
Dos tempos que foi atuante no PMDB de Bauru, só restam as memórias. “Me afastei da política, uma hora cansa”, garante. Entre Paulo César, Ana Paula e Adriana, os três filhos que teve com Maria Aparecida, o único que se tornou um esportista profissional foi o menino, que adotou o nome de  “Paulinho Laranjeira”. “Ele se aposentou no Guarani depois que um treinador safado chegou exigindo que tivesse empresários para jogar”, lembra Leleco. Atualmente, o ex-jogador de futebol Paulinho possui uma empresa que fabrica camisas de times locais, chamada Pau-Brasil. “Ele até chegou a fazer umas camisas do Baquinho, mas depois esqueceu do pai”, afirma o ex-ponta-esquerda Leleco, único jogador do Baquinho que não guardou um exemplar daquela Revista Placar.
 
pérsio
PÉRSIO
“O Pelé era corintiano”, garante Pérsio Antônio Cardoso (Quintana, 11/02/1938), meia-de-ligação do Baquinho entre 1954 e 1955. “Quando jogávamos entre amigos, sempre dividíamos os times entre corintianos e o resto, e ele sempre ficava no lado alvinegro”. Famoso pelas boas infiltrações na área adversária, Pérsio jura que fazia mais gols que Pelé: “Tenho as medalhas de artilheiro dadas pela Federação Bauruense guardadas em casa”. Dono da camisa 10 naquela época, enquanto Pelé era o dono da 8, Pérsio recorda-se bem das gozações feitas por Pelé com os amigos. “Sentávamos na bancada do bar, tirávamos os sapatos e os jogávamos no chão”, conta. “O Pelé colocava pedrinha ou dava o nó-cego mais impossível de tirar na região”. Na reportagem de Placar, ele afirmou que “havia conhecido o lado mais sujo do futebol na Esportiva Sanjoanense”, por isso decidiu abandonar o esporte.
Depois de 26 anos, decidiu revelar o que o fez se aposentar dos campos. “Quando cheguei lá, vi jogadores usando maconha e lança-perfume no vestiário, gente caída bêbada no gramado”, diz. Depois disso, após tentativa frustrada como dentista, tornou-se bancário, função que exerceu até se retirar em 1993, no Banco do Brasil. Aposentado, buscou um local sossegado para viver com a esposa Aparecida do Prado Cardoso. “Viajava muito a trabalho, e o melhor estado que conheci foi Santa Catarina”, explica. “Por isso vim pra Joinville”. Em 1989, acreditava que um dos seus seis netos, o canhoto Carlos Alberto, se tornaria um grande jogador, mas trocou ao crescer, acabou trocando a bola pelo Direito. “Ele está com 32 anos e se tornou um advogado fabuloso”, conta o pai de Sandra Lúcia, Silvia e Sheila Pérsia.
 
(com reportagem de Lucas Strabko)