Sete torcedores que participaram de uma briga entre corintianos e palmeirenses na semana passada acabaram de ser incluídos numa lista de impedidos de entrar em estádios paulistas. Sim, esta lista existe!  A cada confusão entre torcedores de futebol, organizados ou comuns, a Federação Paulista de Futebol inclui os nomes dos brigões na “Relação de torcedores impedidos de comparecer em eventos esportivos”.  O palmeirense Cesar Augusto Pinheiro de Melo, envolvido nessa recente briga, que teve como saldo a morte de um torcedor alviverde,  já fazia parte da relação.  A lista – que tem atualmente 81 nomes e, quando informado, a torcida uniformizada a que pertence valentão – é um grande conto-da-carochinha.  Mesmo listados, torcedores paulistas continuam frequentando os estádios de futebol – alguns não têm receio de postar fotos em redes sociais. O repórter Lucas Strabko, do Blog do Curioso, conversou com alguns desses torcedores punidos, com a promessa de que seus nomes não seriam divulgados.

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De acordo com a lista da FPF, 81 torcedores estão proibidos de entrar em estádios de futebol


O corintiano “Torcedor X” entrou para a lista em fevereiro de 2014 e, mesmo assim, foi a 11 jogos, segundo suas próprias contas. “Estar nessa lista é a pior coisa do mundo”, diz. “Sei que estou fazendo algo desonesto, mas frequento estádios desde criança e não consigo ficar longe”. Na Arena Corinthians, o “Torcedor X” assiste aos jogos na Arquibancada Norte, exclusiva de torcedores organizados, que devem mostrar a carteirinha da FPF para entrar. O “Torcedor “X” relata que “ninguém nunca olhou a identidade ou a carteirinha”.
Torcedor X

Mesmo punido, o “Torcedor “X” assistiu à partida Corinthians x Internacional, na Arena Corinthians, em 17 de julho de 2014


Quem assina a “lista de torcedores proibidos” é o coronel Marcos Marinho, diretor do departamento de segurança e prevenção da FPF. “Os torcedores colocam a carteirinha no leitor, checamos as fotos e os dados, e não deixamos os banidos entrarem”, garante Marinho. “Estamos controlando o acesso das organizadas há 6 meses, e pretendemos descamisá-las”. Depoimentos de torcedores contradizem o coronel Marinho. Em fevereiro de 2012, a Avenida Prestes Maia, em Campinas (SP), tornou-se uma praça de guerra entre torcedores do Guarani e do São Paulo. Depois da confusão, 31 torcedores foram identificados e entraram na lista. Um deles foi o “Torcedor Y”, da torcida organizada Independente. “Já fui a uns 100 jogos do São Paulo depois daquela partida e nunca olharam um documento”, contabiliza ele, um dos 24 são-paulinos penalizados. Na relação, há somente duas mulheres – fichadas após a briga em Campinas. “Quando vi meu nome na lista, eu ri”, afirma a “Torcedora W”. “Causa um certo constrangimento, sim, mas só isso”.
Torcedor "Y" viu das arquibancadas o jogo entre São Paulo e Bragantino, no Morumbi, em 13 de agosto de 2014

“Torcedor Y” viu das arquibancadas o jogo São Paulo x Bragantino, no Morumbi, em 13 de agosto de 2014


Além dos 24 são-paulinos, a lista traz os nomes de 26 palmeirenses, nove bugrinos, oito corintianos, sete pontepretanos,  três santistas, três torcedores da Penapolense e um torcedor sem clube identificado. Não é somente no Brasil que ocorrem brigas de torcida, que posteriormente se transformam em punições restritivas para torcedores. Desde 2000, a polícia inglesa age contra os brigões dos estádios. Esses torcedores devem se apresentar em delegacias 2 horas antes dos jogos e só são liberados duas horas depois do fim das partidas de seus respectivos clubes. Neste ano, para impedir a vinda de hooligans para a Copa do Mundo do Brasil, a polícia inglesa reteve os passaportes de 1.452 torcedores banidos.
Antes do jogo Grêmio x Corinthians, domingo passado, em Porto Alegre, a Brigada Militar de Porto Alegre pediu para a FPF a lista de torcedores corintianos que estão impedidos de entrar em estádios. O que fez a polícia gaúcha com os dados enviados  para o Ministério Público do Rio Grande do Sul? “Olhamos as fotos e tentamos encontrar alguém”, discorre o tenente-coronel Alexandre Bortoluzzi, comandante do 1º Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar. “Quando suspeitávamos de alguém, pedíamos a carteira de identidade”. Só isso. Pois foi do Rio Grande do Sul que veio uma grande ideia para barrar a impunidade. O JECrim (Juizado Especial Criminal) colocou tornozeleiras eletrônicas em dois torcedores banidos (um colorado e um gremista). “Eles não podem entrar em um raio de 5 km do estádio em dias de jogo”, explica Cezar Eduardo Cordeiro Moreira, coordenador do Programa de Implementação do Monitoramento Eletrônico do Estado. “Se tentarem, policiais são avisados. Eles nunca apareciam na delegacia… Agora só podem ver o jogo em casa ou em um bar”.
Tornozeleiras eletrônicas foram implantadas no Rio Grande do Sul para evitar brigões nos estádios

Tornozeleiras eletrônicas foram implantadas no Rio Grande do Sul para evitar dois brigões nos estádios. Não é pouco?


O artigo 41 do Estatuto do Torcedor ajuda a dar essa aliviada na pena dos brigões:  “O juiz deverá converter a pena de reclusão em pena impeditiva aos estádios de 3 meses a 3 anos”. O inciso 4, dentro do mesmo artigo, propõe que banidos se encaminhem às delegacias – assim como ocorre na Inglaterra. Não é o que acontece. Para o torcedor sair da lista, depois do final do prazo de punição, os trâmites não são difíceis. “Ele precisa procurar um juiz na Vara Cívil ou ficará fichado por muito tempo”, explica o advogado Heraldo Panhoca, criador do Estatuto do Torcedor. O “Torcedor X”, que apareceu no início dessa reportagem, conseguiu tirar seu nome da lista, depois de 90 dias de punição. Na resolução oficial de sua exclusão da lista, em 27 de agosto, a FPF declarou: “Considerando o cumprimento total da pena restritiva de direitos (…)”.  O “Torcedor X” é aquele que foi a 11 jogos nos últimos meses.  As autoridades estão querendo enganar quem?