O elevador do luxuoso Hotel Renaissance, localizado na Alameda Santos, a um quarteirão da Avenida Paulista, em São Paulo, marca o 18º andar. Às 12h08, a máquina chega ao hall e  um sinal sonoro indica a abertura da porta. De lá, sai um homem de 51 anos, vestido com uma camisa polo branca e calças jeans, e mais três Copas do Mundo e a honra de ser o melhor goleiro da história de seu país. Depois de um breve aperto de mãos, ele desabafa: “Aquilo não foi pênalti de maneira alguma.” A referência, claro, é à contestável infração sofrida pelo atacante Fred, na partida inaugural da Copa do Mundo de 2014, em 12 de junho, contra a Croácia. Afetuoso com os vizinhos do Leste Europeu, o búlgaro Borislav Mihaylov é o atual presidente da federação de futebol de seu país. Em breves segundos, evidenciou a paixão pelo esporte que regeu sua vida e que, com 102 partidas no currículo, o consagrou como o segundo búlgaro que mais vestiu a camisa do selecionado nacional.

Mihaylov segura a lembrança de um "pênalti absurdo".

Mihaylov, de peruca, guardará a lembrança do “pênalti absurdo”


Mihaylov entrou para o capítulo das curiosidades da Copa por causa de um adereço: “Sim, usei peruca na Copa de 1994 – e uso até hoje.” Além da espetacular campanha búlgara, aquele ano ficou marcado pela estreia da peça. “Quando eu jogava na França, tinha 30 anos e já estava totalmente calvo”, lembra. “Um amigo disse que eu era muito bonito para ficar assim e  me ofereceu uma peruca de graça para eu experimentar”. O goleiro gostou do resultado, mas os companheiros estranharam. “No outro dia, cheguei ao vestiário e o time começou a se perguntar se era um novo jogador. Depois todos aprovaram.” Por sorte, brinca ele, a peruca nunca caiu durante um jogo.
Diferença entre 1991 e 1994: excelente escolha ter colocado peruca

Diferença entre 1991 e 1994: colocar a peruca foi uma excelente escolha


Mihaylov, que começou sua carreira em 1981 no Levski Sofia, seu time de coração, guarda na memória oito jogos especiais. Para jogar a Copa de 1994, a seleção búlgara teria que ganhar da França, em pleno Parc des Princes, em uma fria noite de novembro de 1993. Mihaylov atuava desde 1992 pelo Mulhouse, equipe da segunda divisão francesa. Os torcedores da França estavam bastante confiantes com a classificação. Contaram até com uma ajuda extra. Bernard Genghini, treinador da equipe, chegou a jogar ao lado de Platini na Seleção. “Um mês antes do jogo contra a França, ele me rebaixou ao segundo time”, lembra o búlgaro. “O presidente não me deixou rescindir o contrato, então tive que jogar. Na minha estreia, viajei 10 horas de ônibus para jogar na terceira divisão. Esqueci minhas luvas e tive que pegar emprestado um par com o goleiro reserva. Joguei muito bem e não levei gols, estava dando 110% de mim. Depois de passar um mês fazendo longas viagens, o grande dia chegou”. O ex-goleiro, com os olhos cheios d’água, despeja um saquinho de açúcar em seu café expresso e aponta o braço. “Fico arrepiado toda vez que lembro do gol de empate de Kostadinov no fim do primeiro tempo”. A Bulgária venceu com um gol no último minuto de jogo. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida.” Depois da celebração, o goleiro percorreu os 485 km entre Paris e Milhouse para treinar no dia seguinte.

Até então, a Bulgária havia se classificado para cinco Copas do Mundo. Só que não tinha nenhuma vitória na competição e esse era o objetivo na Copa dos Estados Unidos. “Não esperava que chegaríamos tão longe. Se vencêssemos uma, seríamos grandes heróis.” Na estreia contra a Nigéria, uma derrota por 3×0. “O assessor de imprensa recebeu um fax do alto escalão búlgaro enviado para mim”, conta. “Nele, estava escrito que não éramos nada e não chegaríamos a lugar algum. Rasguei o papel e não contei a ninguém. Fui relaxar na piscina. Ganhamos da Grécia por 4×0 e nosso objetivo inicial estava conquistado. Só que queríamos mais.”
Celebração búlgara: "A melhor seleção da história de nosso país."

Com Mihaylov ao fundo, a celebração búlgara: “A melhor seleção da história de nosso país.”


A geração de ouro da Bulgária venceu a Argentina e se classificou para as oitavas. O México, do folclórico goleiro Jorge Campos, seria o adversário. A partida ficou no 1×1 e foi para os pênaltis. Mihaylov defendeu dois. “Estudei os batedores antes, mas tive sorte.” No jogo seguinte, o adversário seria a então atual campeã do mundo, a Alemanha. Stoichkov marcou um belo gol de falta que extasiou a capital Sófia e colocou a seleção como um das quatro melhores do mundo. “Quando ele batia, era quase certeza de gol. De duas, uma entrava e a outra batia na trave”, afirma o goleiro. As derrotas para Itália na semifinal e para a Suécia na disputa de 3º lugar entristeceram a equipe. Para a torcida búlgara, no entanto, o grupo já tinha entrado para a história.
(com reportagem de Lucas Strabko)