O número de pássaros mortos anualmente devido a colisões com janelas varia entre 365 milhões e 988 milhões (os dados são de 2014). Colisões com edificações são consideradas, depois da destruição dos ambientes naturais, a maior causa de mortalidade de aves causada pelo ser humano. A Prefeitura de Toronto, no Canadá, foi uma das que decidiu lutar contra o problema. Em 2010, ela estabeleceu diretrizes para a construção de prédios “bird friendly” e, de lá para cá, também pressionou prédios já existentes a tomar medidas para impedir a morte de aves. Desde então, medidas têm sido adotadas também por cidades americanas na costa leste, como Nova York e Filadélfia.

A maior cidade canadense fica em meio a uma intensa corrente migratória de pássaros. Eles tendem a pousar em lagos para recuperar a energia durante a jornada. Repleta de prédios de vidro modernos, Toronto é extremamente perigosa para aves, que facilmente confundem os reflexos de árvores nas janelas com a verdadeira vegetação. Mas o que é preciso fazer para evitar que esses acidentes aconteçam?

Exemplo de janela segura para pássaros no Museu Nacional de História Judaico-Americana na Filadélfia

Em primeiro lugar, as diretrizes pedem que seja colocada algum tipo de marcação no vidro, como adesivos de bolinha ou texturas diferentes. Depois que um prédio antigo no centro de Toronto adotou a primeira estratégia, o número de pássaros mortos encontrados em frente a ele diminuiu de 100 para dois por ano. Também é recomendável que as janelas sejam protegidas com persianas para evitar a exposição do vidro. Até algo simples – como apagar as luzes de um estabelecimento com paredes de vidro – pode ajudar: como a luz é um fator de atração para os animais, um quarto escuro se torna mais seguro.

Para os novos investimentos arquitetônicos, há um método ainda mais ousado que consiste em construir janelas que fiquem “escondidas”, emolduradas por estruturas capazes de fazer sombra nas janelas e diminuir sua refletividade. O resultado são edifícios feitos com menos vidro – fator que também ajuda no isolamento térmico do prédio. O estilo, um tanto inusitado, foge à mesmice dos arranha-céus usuais e ainda garante o bem-estar dos pássaros. Também é possível usar vidros foscos, coloridos ou feitos de material capaz de refletir a luz ultravioleta (visível para pássaros).

Fachada da Aqua Tower, em Chicago, que faz uso de “orelhas” para isolar as janelas

Grande parte do movimento migratório que passa pelos países também engloba a América do Sul. “Pode-se dizer que nossos continentes estão conectados por aves migratórias”, conta Carlos Candia Gallardo, doutor em Ecologia pela USP. “Muitas das espécies que se reproduzem na América do Norte durante o verão boreal vêm até a América do Sul, incluindo aí o Brasil, para passar o inverno no verão austral.” Alguns exemplos são a  águia-pescadora (Pandion haelietus), o falcão-peregrino (Falco peregrinus) e a andorinha-azul (Progne subis). Além delas, existem aves que transitam exclusivamente pelo continente sulamericano.

Apesar da movimentação intensa, a legislação brasileira sobre o assunto deixa a desejar. “Salvo exceções pontuais no nível municipal, não há leis que visem reduzir o risco de colisão”, explica Gallardo. A única menção está na legislação federal, que prevê que obras e empreendimentos devem se pautar por princípios de proteção à fauna. “É muito provável que tenhamos uma quantidade de colisões de magnitude semelhante ou superior à observada nos EUA. Qualquer pessoa que transite pelo entorno de estruturas espelhadas ou de vidro pode encontrar aves vitimadas por colisão.”

Simulação virtual do resultado final das obras que estão sendo feitas na Raia Olímpica da USP, em São Paulo

O biólogo menciona a construção controversa do muro de vidro entre a Raia Olímpica da USP e a Marginal Pinheiros, projeto do prefeito João Doria que começou a ser executado no fim de fevereiro. O muro tem 4 metros de altura e 2,2 km de extensão. “A raia do remo da USP é uma área de grande concentração de aves, tanto espécies aquáticas quanto espécies terrestres, que circulam também pelos bairros do entorno, incluindo o Parque Villa-Lobos”, conta Carlos. As regiões da USP e do Instituto Butantan servem como área de descanso e reprodução para espécies residentes e migratórias, o que faz do fluxo por ali especialmente intenso. Até o momento, não foram divulgadas informações claras sobre se o projeto adotou ou não medidas para minimizar os riscos de colisão.

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