Filhotes de orangotango precisam ser carregados pelas mães durante os primeiros quatro meses de vida. É por isso que elas sentem dor nos braços. Mas surpreendente mesmo é o que elas fazem para melhorar a situação: cientistas observaram que os primatas têm o hábito de mastigar uma planta nativa da ilha de Bornéu (Dracaena cantleyi), na Ásia, até que ela vire uma pasta que pode ser passada na área dolorida. Especula-se que a tribo da região, que também faz uso da Dracaena, descobriu suas propriedades anti-inflamatórias observando o comportamento dos orangotangos.

Mães orangotango desenvolveram o próprio remédio para combater as dores de carregar o filhote nas costas

Esse é o caso mais explícito daquilo que zoólogos definiram como zoofarmacognosia, ou a habilidade que animais têm de se automedicar. Nem todos produzem pastas, mas a ingestão de certas plantas e substâncias com o propósito de aliviar desconforto corporal é um tanto comum no reino animal. Durante décadas, cientistas, como o antrópologo japonês Toshisada Nishida nos anos 1960, notaram que diversos grupos de macacos consumiam folhas que não possuíam valor nutricional.

Michael Huffman em 1996, no início de seus estudos: planta não pode fazer parte da dieta do animal

Em 1996, o biólogo americano Michael Huffman sugeriu que os animais estariam se automedicando depois de observar um episódio um tanto mágico no Instituto de Pesquisa Sobre Primatas da Universidade de Kyoto, no Japão: um chimpanzé – que estava com o estômago repleto de parasitas – melhorou em um dia ao ingerir uma planta venenosa que ele geralmente evitava. Assim, Huffman determinou que, para contar como automedicação, a planta ingerida não pode fazer parte da dieta usual do animal, nem ter valor nutricional. Pesquisadores já observaram a prática em 25 espécies diferentes, que utilizam cerca de 40 plantas diferentes para esse fim.

Os bonobos, primatas com hábitos sociais um tanto curiosos, foram uma das espécies que teve seus hábitos curandeiros registrados. Eles empilham folhas de M. Fulvum em suas línguas e então as transformam em uma bola com a ajuda de sua saliva, agilmente evitando que a substância toque seus lábios, pois ela causa irritação. Não se sabe exatamente o efeito que a M. Fulvum tem nos animais, mas os bonobos a ingerem durante períodos mais propícios a parasitas.

Filhotes de bonobo: espécie que teve seus hábitos curandeiros registrados

O biólogo Guilherme Domenichelli ressalta que a capacidade de aprendizado de primatas é enorme e foi comprovada por diversos estudos em laboratório e no campo. “São muitos os exemplos de animais que aprenderam e desenvolveram habilidades a partir dos ensinamentos transmitidos pelos pais e outros membros do grupo”, conta. “Grupos diferentes de chimpanzés, que vivem em territórios opostos e nunca tiveram contato, desenvolveram habilidades e o uso de equipamentos de formas diferentes. Alguns usam as pedras para pegar castanhas, outros usam os gravetos para capturar cupins. Alguns até já foram observados utilizando folhas com a função de papel higiênico”. A diversidade de hábitos sugere fortemente que o conhecimento seja resultado de descobertas feitas por cada uma dessas sociedades.

Fora do mundo dos macacos também existem outros exemplos: pardais colocam bitucas de cigarro em seus ninhos para evitar ácaros; abelhas e formigas revestem suas casas com resina para combater bactérias; borboletas Monarca botam ovos em uma planta que espanta parasitas; lagartos comem determinadas plantas para combater veneno de cobra; gatos e cachorros comem grama quando sentem indigestão. Domenichelli alerta, no entanto, que no caso dos animais domésticos a situação é um pouco mais complicada e não pode ser confundida com os hábitos de espécies selvagens. “Os bichos domésticos dependem da alimentação a oferecida pelo homem, e não têm a menor noção do que é oferecido pela natureza, pois não tiveram o aprendizado transmitido por seus descendentes”, afirma.

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