Em um passeio casual pela praia, um casal australiano acabou encontrando a mensagem de garrafa mais antiga da qual se tem registro. Enviada por um comandante alemão em 12 de junho de 1886, ela passou quase 132 anos no mar. O casal foi capaz de identificar a origem e a data do bilhete depois de secá-lo no forno: apesar da tinta estar fraca, as informações ainda eram legíveis.

O casal australiano Tonya e Kym Illman pensou que a mensagem fosse um cigarro enrolado.

Incrédulos que um papel tão antigo poderia ter resistido por tanto tempo, Tonya e Kym Illman levaram a mensagem aos especialistas do Western Australian Museum, que confirmaram a autenticidade do papel com a ajuda de colegas da Alemanha e da Holanda. O diário meteorológico do navio, encontrado por arquivistas alemães, foi usado para comparar a caligrafia da carta e verificar se havia algum registro de que uma garrafa havia sido lançada ao mar naquela data.

Mensagens em garrafas já foram um meio de comunicação extremamente popular, apesar da imprevisibilidade de realmente alcançarem seu destino (estima-se que apenas 3% é de fato recuperada). Entre os séculos XV e XVIII, centenas de navios tripulados navegavam pelo oceano com ímpetos comerciais e imperialistas. Métodos mais confiáveis de comunicação, como o telégrafo sem fio, só surgiriam no início do século XX, o que significa que as tripulações que vieram antes disso não tinham muita escolha. Reza a lenda que o influxo de mensagens era tão intenso que a Rainha Elizabeth I se viu obrigada a criar um cargo oficial de “abridor de garrafas do oceano” no século XVI e decretar que qualquer outra pessoa que as abrisse seria condenada à morte. Durante o século XIX, era comum que grandes jornais como o londrino Times e o famoso The New York Times publicassem o conteúdo das cartas encontradas.

Apesar de ser associada principalmente à comunicação entre marinheiros e aqueles que ficaram em terra, as mensagens de garrafa têm um grande histórico de uso científico. Acredita-se que a primeira tenha sido enviada pelo filósofo grego Theophrastus, aluno de Aristóteles, em 310 a.C, com o objetivo de provar que o Oceano Atlântico desembocava no Mar Mediterrâneo. Em 1846, a United States Coast & Geodetic Survey faria algo similar ao lançar diversas garrafas no mar com o fim de coletar informações sobre correntes marítimas.

Ao longo dos séculos, diversas cartas seriam engarrafadas e jogadas no oceano. Estima-se que, só entre 2009 e a metade do século XIX, 6 milhões de mensagens engarrafadas foram lançadas, sendo que cerca de 500 mil foram provenientes de oceanógrafos que desejavam estudar a movimentação das águas. A tradição esteve presente nos cenários mais diversos: durante a Primeira Guerra Mundial, soldados à beira da morte usavam o método para se despedir de parentes queridos. O episódio considerado como “a maior história de amor envolvendo mensagens engarrafadas” envolve uma carta de 1914 que foi lançada no Canal da Mancha por um soldado e encontrada na costa inglesa em 1999. Sua destinatária, a esposa do soldado, havia morrido em 1979. A mensagem foi entregue à filha do casal, que já tinha 86 anos na época.

O escocês Craig Sullivan com uma de suas mensagens engarrafadas. Ele quis inovar na hora de buscar seu novo par.

Mesmo com o advento de diversos meios de comunicação mais velozes e simples, ainda há quem envie mensagens em garrafas nos dias atuais. Em julho do ano passado, um viúvo escocês de 49 anos soltou 2 mil garrafas em diversos pontos da costa britânica e, em troca, recebeu cerca de 50 respostas de senhoras interessadas e muitas reclamações de pessoas que consideraram a prática extremamente danosa ao meio ambiente. Ele teria sido inspirado pela música “Message in a Bottle”, da banda inglesa The Police, e disse que escolheu procurar uma nova parceira assim por acreditar que mensagens em sites de relacionamento seriam clichês demais.

Cliff com algumas das 83 garrafas que já encontrou.

Clint Buffington, um entusiasta americano de mensagens de garrafa que já encontrou 84 delas, mantém um site dedicado à tradição desde 2011, e o alimenta com pesquisas a respeito da atividade e histórias interessantes de cartas encontradas ao redor do mundo. Ele dedica grande parte de seu tempo a viagens em busca de garrafas e então tenta traçar as suas origens com base nas correntes marítimas. Quando a carta é recente, ele também se esforça para encontrar quem a enviou. Seu destino mais frequente são as ilhas de Turks and Caicos, no Caribe, onde grande parte das garrafas lançadas na costa leste dos Estados Unidos e na Europa acaba indo parar. Ele também se coloca à disposição de pessoas que queiram investigar as origens de alguma garrafa encontrada.

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