Não são só humanos que querem namorar. Gorilas norte-americanos também estão encontrando seus novos parceiros por meio de um aplicativo que usa complexos algoritmos para determinar o par ideal, levando em consideração dados como idade, experiência, habilidades sociais, linhagem, genética e até mesmo química pessoal.

O aplicativo para primatas está em aprimoramento desde 1980 — sete anos antes da primeira versão para humanos — e foi desenvolvido pelo Projeto de Sobrevivência de Gorilas da Associação de Zoológicos e Aquários de Washington, nos Estados Unidos. A população de gorilas na natureza sofreu uma redução de 60% nas duas últimas décadas e continua a cair devido à caça, doenças e perda de seu habitat. As combinações específicas resultantes desse sistema virtual são uma tentativa de garantir estabilidade às futuras gerações de gorilas.

Funciona assim:  os parceiros em potencial — a base de dados conta com informações sobre todos os gorilas que residem em zoológicos americanos — recebem uma nota de 1 a 6, sendo “1” o melhor par. O melhor partido é sempre o gorila que possui os genes mais raros e tem, portanto, o potencial de aumentar a diversidade genética da população, tornando-a mais forte e resistente às pressões evolutivas. Quando as fêmeas já tiveram muitos filhotes ou possuem genes muito comuns, elas passam a tomar anticoncepcionais. O projeto é coordenado por um comitê formado por representantes de 50  zoológicos norte-americanos. Eles possuem os chamados “studbooks” (livros de garanhão, em tradução livre), que contém detalhes sobre a personalidade e genética de cada gorila.

A espécie, por natureza, não tende a formar núcleos familiares e possui uma estrutura social poligâmica na qual existem machos dominantes (cerca de ⅓ deles) que “monopolizam” as fêmeas. “O grupo é formado por um macho adulto”, explica o biólogo Guilherme Domenichelli. “Ele é denominado ‘dorso prateado’, por apresentar as costas com pelos brancos. Esse macho é o líder do grupo. Abaixo vêm os machos jovens, as fêmeas e os filhotes. Todos os filhotes são filhos desse macho dominante. Quando os machos jovens chegam a uma idade madura, eles saem e procuram formar um novo grupo.”

Os machos restantes acabam formando grupos de solteiros. “Eles não brigam, pois não ficam próximos de fêmeas”, afirma Domenichelli. “Não servem para reprodução e manutenção da espécie, mas são utilizados como programas de Educação Ambiental e como possíveis machos para liderar algum grupo de fêmeas”. Essas combinações de amizade masculinas também estão sendo aperfeiçoadas pelo aplicativo para garantir o bem-estar da espécie. No Brasil, a população de gorilas é pequena demais para que se tente algo parecido: existe apenas uma família, no Zoológico de Belo Horizonte, composta por cinco primatas. O gorila Virgulino, uma das grandes atrações do Zoológico de São Paulo, morreu em 2005.

Sobre o aplicativo, como os especialistas sabem que a combinação deu certo? Além dos descendentes saudáveis resultantes, há um jeito instantâneo de saber: os gorilas produzem sons guturais para expressar seu amor.

  • Share/Bookmark