Encerrada a partida final da Copa de 1970, mesmo derrotado por 4 x 1, o zagueiro italiano Roberto Rosato praticamente arrancou a camisa de Pelé para levá-la como lembrança.  Em 2002, ela seria vendida em um leilão por 157 mil libras. Já a camisa 10 que Pelé usou no primeiro tempo, que pertencia ao técnico Zagallo, foi arrematada em novembro de 2007 pelo cineasta e curador de arte João Moreira Salles. Ele pagou o equivalente a 220 mil reais. Desde 2008, ela está exposta na saída da “Sala das Copas do Mundo”, no segundo andar do Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

A camisa fica numa vitrine e é o único item têxtil do museu. Com uma curiosidade: ela só pode ser tocada por uma pessoa, a historiadora Teresa Cristina Toledo de Paula, especialista em conservação e restauro da Universidade de São Paulo desde 1989. Sua formação na área de tecidos começou em Londres, no Courtauld Institute of Art, onde estudou por um ano. Continuou sua especialização em têxteis na Escola de Comunicações e Artes da USP, obtendo o Mestrado em 1998 e o Doutorado em 2004. Dois anos depois, Teresa foi a responsável pela organização do primeiro evento científico do país na área de conservação e restauração de têxteis. Atualmente, ela é pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e restauradora residente do Museu Paulista da USP (Ipiranga).

Uma vez por ano, Teresa deixa seu posto e passa um dia inteiro no Museu do Futebol se dedicando à camisa de Pelé. Algo que seria anunciado assim nos alto-falantes do Pacaembu: “sai a Marquesa de Santos e entra o Rei do Santos”. O trabalho de conservação é realizado em etapas. Na primeira, a restauradora compara o estado atual da peça à documentação feita por ela, desde que a camisa foi incorporada ao acervo do museu. “Ela tem alguns problemas de distorção, alguns furos, e tudo isso precisa ser examinado para ver se houve alteração”, explica. Depois, começa a parte de higienização. A camisa é virada do avesso e tem a poeira superficial removida com o uso de um aspirador. O ideal é que, depois de higienizado, o “manto sagrado” fique quatro meses fora de exposição por causa dos danos causados pela exposição à luz e, principalmente, pela força da gravidade.  Ao longo dos quase 10 anos em que está no Museu do Futebol,  a camisa cresceu 3 centímetros. Por essa razão, a peça deve ser guardada na horizontal quando deixa a vitrine.

Teresa reconhece que é complicado, para o museu, deixar um de seus itens mais famosos fora de exposição por tanto tempo, mas explica que o processo é importante para garantir sua durabilidade. “A ação da luz é séria, irreversível e cumulativa, assim como na nossa pele”, diz ela. “As reações químicas, uma vez desencadeadas, não param de acontecer mesmo se retirarmos o tecido da luz”. A restauradora também ressalta que a preocupação da instituição com a conservação do tecido, apesar de essencial, é um tanto incomum em museus que não contam com uma equipe fixa destinada à tarefa.  “Quando deixadas na camiseta, a poeira e a sujeira vão penetrando na fibra e desencadeiam outra série de reações”.

A título de mais curiosidade: vale lembrar que há ainda uma terceira camisa, usada por Pelé na cerimônia de entrega em definitivo da Taça Jules Rimet, depois da partida contra a Itália, que ficou com Admildo Chirol, preparador físico da Seleção naquela Copa.

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