A gripe espanhola, pandemia mais letal da história, completará 100 anos em 2018. Ela surgiu em plena Primeira Guerra Mundial (1914-18) e estima-se que tenha matado entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas, número que correspondia a 5% da população mundial na época. O vírus responsável, H1N1, já reapareceu em outras ocasiões, mas em nenhuma delas causou tantas mortes.

Hospital próximo a Fort Riley, no Kansas: local em que a gripe apareceu em março de 1918

Alguns fatos e números sobre a pandemia de 1918 que comprovam a sua excentricidade:

1 – A gripe foi observada pela primeira vez em Fort Riley, Kansas, nos Estados Unidos. De acordo com um documentário da emissora de televisão americana PBS, tudo começou quando um soldado reportou febre pela manhã do dia 11 de março de 1918. No período de tempo entre aquela consulta e o meio-dia, cerca de 100 homens também relataram sintomas.

2 – Se nasceu nos Estados Unidos, por que ganhou o nome de “gripe espanhola”?  Tudo foi consequência do grande número de casos registrados na Espanha. No entanto, essa percepção se deveu aos esforços dos governos de outros países europeus — como França, Alemanha e Itália — de conter os dados reais da epidemia, de modo a “manter a moral elevada” durante o período de guerra. A Espanha não seguiu o mesmo caminho por se tratar de um país neutro no conflito.

3 – O vírus não era muito diferente daqueles que provocaram outras doenças. No entanto, a gripe foi especialmente letal por ter provocado muitos efeitos secundários, como pneumonia e septicemia, por causa das condições sanitárias e nutricionais do período de guerra no qual se alastrou. Muitos morreram, inclusive, por estarem fracos demais para buscar tratamento, devido à má nutrição.

4 – Os soldados foram essenciais para espalhar o vírus, que foi carregado pelas mais diversas rotas, alcançando a Rússia e a Groenlândia em pouco tempo.

5 – Em um período de dez semanas, a gripe espanhola matou 20.000 pessoas em Nova York e deixou 31.000 crianças órfãs.

Enfermeiras da Cruz Vermelha carregam corpo nos Estados Unidos: 50% da população mundial contraiu a doença

6 – Calcula-se que 50% da população mundial tenha contraído a doença. Ao contrário do que se pode esperar, a maior parte (80%) dos afetados sobreviveu. Mesmo assim, a taxa de mortos é muito superior à média de uma gripe comum, que mata apenas 1% dos infectados. No seu auge, a gripe vitimou 600 pessoas por dia na África do Sul.

7 – O surto de gripe foi dividido em três ondas: a primeira foi de março a setembro de 1918, a segunda englobou o período de outubro a dezembro do mesmo ano, e a terceira ocorreu no final do ano seguinte, durante a primavera do hemisfério norte. Nas últimas duas, mais da metade das vítimas estavam na faixa etária dos 20 aos 40 anos, um recorte incomum para uma gripe, que geralmente toma como vítimas segmentos mais vulneráveis da população, como idosos e crianças. Uma das teorias que se propõe a explicar essa peculiaridade estima que os sistemas imunes dessa camada jovem reagiram exageradamente ao vírus.

8 – A doença chegou ao Brasil em setembro de 1918 e causou cerca de 35 mil mortes, entre elas a do presidente da República, Rodrigues Alves, em janeiro de 1919. Os primeiros casos ocorreram no Nordeste do país, depois da passagem do navio inglês Demerara por Recife e Salvador. No final de outubro, a gripe já atingia todas as grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. O Rio registrou o maior número de mortes: em dois meses, 12.700 pessoas faleceram.

9 – O medo da transmissão fez com que muitos empregadores em Nova York estabelecessem expedientes alternados para seus funcionários, de modo a ter grupos menores partilhando o espaço de trabalho.

10 – Especula-se que muitas mortes do período possam ser atribuídas a overdoses de aspirina: muitos médicos prescreveram até 30 gramas diários, enquanto hoje se sabe que as doses não devem passar de 4 gramas.

Os Estados Unidos enfrentam atualmente sua pior epidemia de gripe desde 2009, quando a gripe aviária, também causada pelo vírus Influenza, se espalhou pelo mundo. Fragilizado pelas baixas temperaturas do inverno, o país já conta com o dobro de casos registrados no mesmo período do ano passado. O vírus da vez, H3N2, é mais resistente a vacinas por sofrer muitas mutações, o que tem alarmado autoridades. Apesar de algumas reportagens da imprensa estrangeira terem estabelecido paralelos com a gripe espanhola, a epidemia tem atingido majoritariamente crianças e idosos, grupos de risco da doença.

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