A Acadêmicos do Tucuruvi, escola do Grupo Especial de São Paulo, sofreu na madrugada de hoje um incêndio em seu ateliê, localizado na Vila Mazzei, zona norte da cidade. Praticamente todas as fantasias que a escola levaria para a avenida no desfile do dia 9 de fevereiro estavam sendo feitas no galpão. De acordo com a nota oficial divulgada pela escola, cerca de 90% do trabalho foi perdido. O acidente não afetou as alegorias, que foram confeccionadas em outo local, a Fábrica do Samba – o espaço, ao lado da Ponte da Casa Verde, irá abrigar as 14 escolas do Grupo Especial e a Tucuruvi é uma das agremiações que já se mudaram para lá. O caso aconteceu apenas três dias depois que um funcionário vindo de Parintins foi encontrado morto em decorrência de uma parada cardíaca no barracão da escola, no último dia 31.

Faltando 36 dias para o desfile, a Tucuruvi deverá correr agora contra o tempo e contra as perdas financeiras e estruturais para reduzir ao máximo os prejuízos trazidos pelo incêndio. Fundada em 1976 e presente no Grupo Especial de maneira ininterrupta desde 1998 (apenas o trio Mocidade Alegre, Vai-Vai e Rosas de Ouro está há mais tempo na elite sem ter sofrido um rebaixamento), a Tucuruvi terminou em oitavo lugar no último desfile e contratou o carnavalesco Flávio Campello, campeão em 2017 com a Acadêmicos do Tatuapé, para tentar conquistar o título inédito. Ele desenvolve o enredo “Uma Noite no Museu”, que contará a história dos principais museus do Brasil e do mundo desde a Grécia Antiga até os dias atuais. Triste ironia: o final do desfile irá tratar da reabertura do Museu da Língua Portuguesa, fechado desde 2015 por causa de um incêndio.

Incêndio destruiu o ateliê da Acadêmicos do Tucuruvi (Foto: Reprodução/Band)

O acidente que afetou a Tucuruvi é mais uma página na extensa história de incêndios envolvendo escolas de samba. O caso mais famoso aconteceu em 2011, quando três escolas foram afetadas pelo fogo na Cidade do Samba, o espaço que abriga os barracões das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a cerca de um mês dos desfiles. A Grande Rio perdeu praticamente tudo, enquanto a União da Ilha sofreu danos graves em alegorias e a Portela se viu sem algumas de suas fantasias. Como consequência, as três agremiações desfilaram como hors-concours e não houve rebaixamento para o Grupo de Acesso.

Em 1988, a União da Ilha, que já havia sofrido um assalto com prejuízo de 1,7 milhão de cruzeiros (cerca de 90 mil reais em valores atuais), perdeu cerca de 30% das fantasias e adereços de mão em função de um incêndio no seu barracão. Em janeiro de 1997, o barracão da Estação Primeira de Mangueira foi abalado por um incêndio em uma alegoria que representava os deuses do Olimpo. A escola falou sobre as Olimpíadas, num momento em que a cidade era candidata a sediar os Jogos de 2004. Como os extintores não estavam presentes no galpão, os funcionários tiveram trabalho para conter as chamas. A explicação é que todos tinham sido enviados para a recarga. No dia seguinte, a Mocidade Independente de Padre Miguel perdeu praticamente uma alegoria inteira em função do fogo no barracão.

A União da Ilha – olha ela aí de novo – teve seis alegorias danificadas em 1999 por causa de um incêndio no barracão. Como era comum que as escolas trabalhassem próximas umas das outras, funcionários da Viradouro e da Imperatriz impediram um estrago maior. A Portela viu parte do seu abre-alas ser consumida pelo fogo dois dias antes do desfile em 2005. O carro precisou ser adaptado às pressas para o desfile e sofreu novo princípio de incêndio na concentração. A estrutura da alegoria foi abalada e a tradicional águia da escola perdeu as asas. Era apenas o início do calvário da tradicional agremiação naquele que seria o pior desfile de sua história – o último carro, onde viria a Velha Guarda, não entrou na pista e os baluartes foram impedidos de desfilar. Beija-Flor, em 2002, Porto da Pedra, em 2003, e Viradouro, em 2010, sofreram abalos menores e já depois dos desfiles.

Incêndio devastou a Cidade do Samba em 2011 (Foto: UOL)

Acidentes como esse se tornaram menos frequentes a partir de 2006, depois da inauguração da Cidade do Samba. Antes, cada escola era responsável pelo seu próprio espaço e muitas vezes usava áreas sem as condições de segurança necessárias. Nem tudo foi perfeitamente resolvido com a unificação dos barracões. Do incêndio de 2011 para cá, não houve nenhuma grande ocorrência do tipo, mas em 2017 um funcionário da São Clemente morreu em decorrência de um choque elétrico enquanto trabalhava no local. A Cidade do Samba foi interditada pelo Ministério do Trabalho em outubro. As agremiações realizaram obras e os barracões acabaram liberados em novembro. Como as escolas da Série A (a segunda divisão) ainda não possuem um espaço como a Cidade do Samba, os acidentes permanecem como uma realidade: em junho de 2017, a Renascer de Jacarepaguá perdeu esculturas em um incêndio. Desde então, foram outras dois grandes incêndios em galpões vizinhos à escola.

Além de incêndios em barracões, a própria Marquês de Sapucaí já foi palco de incidentes semelhantes. Em 1992, a Viradouro, então em seu segundo desfile pelo Grupo Especial, apresentou o enredo “E a Magia da Sorte Chegou”, que falava sobre os ciganos, e protagonizou um dos episódios mais macabros da história dos desfiles. Dias antes do Carnaval, a escola convidou um grupo de ciganos para conhecer as alegorias. Eles ficaram satisfeitos, mas pediram para que fosse incluída uma fogueira em alguma parte do desfile (“Toda festa cigana tem uma fogueira”, alegaram). A escola optou por não alterar o seu projeto. No final de um desfile bastante aclamado pelo público, o último carro alegórico teve um problema em seu gerador e foi completamente consumido pelo fogo ainda na pista de desfiles. A apresentação, que credenciava a escola a brigar pelo título, acabou fazendo a vermelho-e-branca de Niterói estourar em 13 minutos o tempo máximo de desfile. Além dos 13 pontos perdidos pelo estouro do tempo, o incidente comprometeu seriamente o quesito evolução. A Viradouro terminou em nono lugar.

Desfile da Viradouro em 1992: incêndio na Sapucaí

Em 2007, outras duas ocorrências: no desfile oficial, um carro alegórico da Grande Rio pegou fogo na dispersão ao se chocar com os fios de um poste em uma rua próxima à Sapucaí, forçando os moradores a deixarem o local por algumas horas. No mesmo ano, no desfile das campeãs, o abre-alas da Unidos da Tijuca pegou fogo durante o desfile. O enredo falava sobre a história da fotografia e o carro mostrava a crença primitiva de que as fotos eram na verdade o Diabo roubando as almas dos humanos. Havia uma escultura representando o Diabo segurando um equipamento que disparava chamas ao longo do desfile. Foi um problema neste equipamento que gerou o incêndio.

O caso mais grave aconteceu no Carnaval de Santos-SP, em 2013. Quatro pessoas morreram e cinco ficaram feridas depois que uma alegoria da escola Sangue Jovem tocou um fio e foi consumida pelo fogo durante o desfile. Em São Paulo, a ocorrência mais impressionante se deu de maneira intencional: em 2012, torcedores da Gaviões da Fiel colocaram fogo em uma alegoria da Pérola Negra depois do tumulto iniciado pela invasão de um homem que rasgou as últimas notas da apuração.

Fábrica do Samba melhorou estrutura das escolas de samba de São Paulo

A situação nos barracões e ateliês em São Paulo também melhorou nos últimos anos, especialmente com a inauguração da Fábrica do Samba (já são sete das 14 escolas do Grupo Especial no local). Há pouco tempo, boa parte das escolas de samba atuava em barracões e ateliês improvisados sob viadutos. Era o caso da Mocidade Alegre, que em 2012 foi abalada por um incêndio faltando um mês para o desfile, mas conseguiu se recuperar e foi campeã do carnaval. O fogo atingiu proporções tão grandes que o Viaduto Pompeia, que ficava sobre o galpão, foi interditado e só pôde ser reaberto novamente sete meses depois, em julho.

A Unidos do Peruche também havia passado por um grave incêndio em seu barracão em 2003, faltando poucos dias para o seu desfile. A própria Acadêmicos do Tucuruvi sofreu acidente semelhante no antigo barracão, em 2015. Em 2011, o problema que afetou a Pérola Negra foi outro: as enchentes. Uma escultura do profeta Abraão, homenageado do enredo, foi perdida pela força das águas. A Fábrica do Samba, no entanto, não escapa da lista de acidentes mesmo tendo pouco mais de um ano de vida: pouco antes do desfile de 2017, um escultor (também vindo de Parintins-AM) caiu do alto de uma alegoria e faleceu justamente enquanto trabalhava para a Tucuruvi.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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