“Carsharing” ainda é um termo estranho para a maioria dos brasileiros.  A dupla Diego Lira e Daniel Prado é responsável pela criação do Turbi, aplicativo lançado no último dia 31 de agosto com a proposta de oferecer carros para quem não quer tirar o próprio da garagem – ou não tem um, como era o caso de Daniel, mineiro de Belo Horizonte radicado em São Paulo e companheiro de trabalho de Diego no mercado financeiro. Soube da existência do serviço ao ver uma placa deles no portão de um estacionamento terceirizado na frente da Igreja do Calvário, na zona Oeste de São Paulo.

O Turbi lembra uma locadora de veículos. Pelo aplicativo, o cliente seleciona um dos carros e precisa ir até o local. Eles ficam em pontos determinados, como estacionamentos, postos de gasolina ou garagens de prédios corporativos. Chegando lá, abre o veículo com o próprio smartphone e vai para onde quiser. Só não pode sair do território nacional. Devolve a hora que bem entender no mesmo local no qual retirou e paga pelo tempo que usou e pela quilometragem que rodou – a cobrança é automática via cartão de crédito. Cada quilômetro custa 50 centavos, enquanto o custo pelo tempo depende do modelo: o HB20 custa 8 reais por hora; o Nissan Kicks, 15 reais por hora; o Mini Cooper S,  35 reais. “Se dá certo em Manhattan, que é bem menor e tem um transporte público mais desenvolvido, por que não daria certo aqui?”, pergunta-se Diego.

“Procuramos tropicalizar o modelo. A maior peculiaridade do mercado brasileiro é a burocracia para se alugar um carro. Além disso, o brasileiro é muito apegado ao carro”, conta Diego. A ideia começou a ser desenvolvida no primeiro semestre de 2016 e hoje conta com seis funcionários fixos e mais dois consultores. O investimento total foi, até o momento, de 875 mil reais. Tudo isso para instalar o Turbi na região central de São Paulo, com foco nos bairros de Pinheiros, Vila Olímpia e Itaim Bibi – em breve, também a Vila Madalena. A ideia é aos poucos atingir todas as áreas da cidade e, depois, começar a desbravar o país: “Não é algo que vamos fazer em seis meses, mas também não vai levar cinco anos”, calcula Lira.

Diego Lira é um dos criadores do Turbi, aplicativo

Com pouco mais de dois meses de vida, o Turbi tem quatro mil downloads. Diego conta que a frota atual, de 17 carros, já deve aumentar – a meta é chegar a 50 em seis meses. “As montadoras nos olham como um futuro, então estão nos olhando. Enquanto eles vão olhando a gente vem fazendo”, explica Lira ao falar sobre o processo de aquisição dos carros: “Não compramos carro porque é muito caro. Fazemos um contrato de leasing operacional, que vale por dois anos”, acrescenta. Quem baixar o aplicativo não precisa se preocupar com gasolina, IPVA ou coisas do tipo: tudo está embutido no pacote. Se precisar encher o tanque durante a viagem, o cliente usa o cartão de abastecimento disponível no porta-luvas, ou, caso o posto não aceite, abastece e envia a nota pelo app para ser ressarcido.

Casos de acidente, porém, são mais complicados: “Tentamos fazer o melhor para o cliente. Você pode reportar os danos que encontrar no carro logo que retira e depois também. Tivemos um caso onde o seguro cobriu, mas em outro o cliente precisou pagar. Fizemos três orçamentos para ele”, recorda Diego. Multas são enviadas diretamente para o responsável, o que gerou uma reclamação de um usuário do Turbi no Facebook. Os termos de uso preveem que será cobrado um acréscimo de 10% no valor da multa. Caso o motorista infrator não seja informado, o valor da multa também dobra.

Mesmo tendo nascido para quebrar um pouco do sentimento possessivo pelo carro, o Turbi já tem os seus clientes fiéis e com apreço pelos veículos: “Temos um cliente aqui que pega o carro e manda para lavar porque só anda em carro limpo. E ainda manda mensagem dizendo para o usuário anterior não sujar mais o banco. Esse aí vai ganhar voucher sempre”, diverte-se Diego. Em todo caso, os carros são lavados periodicamente: “Fizemos acordos com serviços de lavagem rápida, então o carro fica parado só por meia hora”, explica Lira. “Alguns veículos vão para a lavagem uma vez por semana, mas isso depende. Se o cliente foi para a praia a gente sabe que vai precisar lavar”. Segundo Diego, ninguém saiu do estado de São Paulo com o carro ainda: “Mas já chegamos quase na divisa com Minas Gerais. Nas férias de fim de ano provavelmente iremos mais longe”, projeta ele, que acompanha em tempo real onde está cada carro.

Mapa mostra um dos pontos onde está disponível o Turbi

Ainda desenvolvendo o aplicativo, os sócios, agora dedicados integralmente à ideia, já pensam em novos serviços: “Hoje o cliente entra, vê se tem um carro, pega e devolve quando quiser. Já adianto que em breve poderemos oferecer um serviço onde ele marcará o horário da retirada e o horário da devolução”, planeja. As necessidades dos usuários do Turbi são variadas: “Nós temos clientes que pegam o carro na quarta-feira de um feriado prolongado e devolvem na segunda-feira e temos aqueles que usam por uma hora porque pode acabar saindo mais barato que um Uber”, diz Diego. E quando alguém esquece alguma coisa dentro do carro? “Já perderam uns 15 objetos e só não conseguimos devolver um. Já aconteceu de um motorista achar um agasalho quando entrou no veículo e ligar para nós. Como o dono do agasalho morava a 20 minutos dali, ele mesmo resolveu ir lá e devolveu. Essa sinergia entre os usuários é o que queremos alcançar”, finaliza.

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