Marco Aurélio Nedel aguardava ansiosamente pela final da Copa Sul-Americana de 2016. Não apenas por ser um torcedor da Chapecoense, mas também porque aqueles 180 minutos marcariam o capítulo final de uma extensa biografia que seria publicada logo em seguida: “Chapecoense 2006-2016 – O Triunfo da Ética” mostraria como um modesto time do interior de Santa Catarina saiu da falência para se tornar a maior força do Estado, chegar à elite do futebol brasileiro e disputar a primeira final – para conquistar, quem sabe, o primeiro título – internacional. No dia 29 de novembro de 2016, há exatamente um ano, o Brasil acordava em choque: 71 pessoas morreram na queda do avião que levava a Chape até Medellín, onde seria disputada a primeira partida da decisão contra o Atlético Nacional.

Nedel escreveu com tristeza o último capítulo do livro. O trágico e inesperado desfecho para a história tirou do autor qualquer interesse comercial na obra. Ele lançou uma “edição doméstica”, de tiragem curta, e doou 250 exemplares para a família de Anderson Paixão, preparador físico que morreu no acidente. Os familiares de Paixão atravessam dificuldades financeiras e Nedel resolveu ajudar doando os livros para que fossem vendidos.

Passado o susto com a notícia e o luto que se estendeu por todo o Brasil nos dias que sucederam o desastre, restaram as histórias de quem conseguiu sobreviver para contar o que aconteceu naquela noite. Dos seis sobreviventes, quatro eram brasileiros: Rafael Henzel, narrador da Rádio Oeste Capital FM, de Chapecó; e os jogadores Jackson Follmann, Neto e Alan Ruschel; além deles, os bolivianos Erwin Tumiri, técnico da aeronave, e a aeromoça Ximena Suarez Otterburg também escaparam da morte. Ao longo dos últimos 12 meses eles receberam incontáveis pedidos de entrevistas. Alguns deles optaram também por compartilhar suas experiências em livros.

Rafael Henzel publicou “Viva Como se Estivesse de Partida” pela Principium Editorial. Definido como “um relato otimista e emocionante do jornalista que sobreviveu à tragédia da Chapecoense”, o livro relata não só o 28 de novembro, mas também os dias que antecederam a tragédia. A começar pelo jogo do dia 23, quando a Chapecoense eliminou o San Lorenzo na semifinal e emocionou Henzel: “O jogo que alçaria uma equipe, uma cidade e uma região a um patamar jamais imaginado”, narra a obra. Henzel revela ainda bastidores dos momentos em que aguardou pelo resgate e da recuperação física, bem como a solidariedade recebida do povo colombiano e os primeiros passos para reconstruir a vida nesses primeiros meses após o acidente.

O zagueiro Hélio Zampier Neto também resolveu compartilhar suas memórias sobre a tragédia em um livro: “Posso Crer no Amanhã” foi lançado pela Editora Vida, especializada em publicações de temática religiosa. O livro não é apenas um testemunho do horror vivido na montanha em Cerro Gordo, mas sim uma autobiografia narrando os passos percorridos por Neto para se tornar jogador profissional – profissional desde 2006, ele atuou por clubes como Guarani-SP, onde foi vice-campeão paulista em 2012, e Santos antes de chegar à Chapecó. O prefácio da obra foi escrito pelo também zagueiro Leandro Castán, zagueiro campeão da Libertadores de 2012 pelo Corinthians e atualmente na Roma, equipe italiana que recebeu a Chape em um amistoso no mês de setembro. Castán superou em 2015 um câncer no cérebro.

A mais nova publicação dentre os sobreviventes do voo vem lá da Bolívia: a aeromoça Ximena Suárez Otterburg lançou na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra o livro Volver a Los Cielos (“Voltar aos Céus”). O lançamento foi ontem, exatamente um ano depois do acidente. Ximena dedicou a publicação, escrita pelo poeta boliviano Homero Carvalho, aos familiares, amigos, demais sobreviventes (a quem chama de “irmãos”) e também aos colegas de trabalho na LaMia que faleceram na tragédia. A empresa é acusada de operar frequentemente com carga de combustível abaixo do que exigem as regulamentações para economizar. A narrativa mostra ainda detalhes sobre a recuperação de Ximena e os problemas psicológicos agravados pela crítica da opinião pública e da imprensa à LaMia. Erwin Tumiri, compatriota que também resistiu ao acidente, marcou presença no lançamento. Uma das revelações do livro é a de que o piloto Manuel Quiroga não deixou Thiago, filho de Ximena, viajar, já que a aeronave estava lotada.

Aeromoça que sobreviveu ao acidente lançou livro ontem (Foto: Uniminuto Radio/Bogotá)

A literatura da tragédia não se resume aos sobreviventes. Isabella Fernandez Ibargoyen era casada com Giovane Klein, repórter da RBS TV, afiliada da Globo em Santa Catarina. Ela reuniu oito crônicas publicadas em sua conta pessoal no Facebook e escreveu outras 14 para o livro “Cartas de Isabella”, lançado pela Editora Verso, onde fala sobre a reconstrução de sua vida depois de perder o marido.

Outro lançamento recente mostrou outro ângulo sobre a tragédia. A colombiana Yaneth Molina, controladora de voo a serviço naquela noite, publicou no último dia 15 o livro Yo También Sobreviví. A obra foi escrita por Carlos Acosta Garcia, também controlador de voo e marido de Yaneth. Revela detalhes sobre o voo e rejeita, na versão dos autores, a hipótese de que eles tenham alguma responsabilidade sobre o acidente ou tampouco tenham colaborado para os supostos métodos escusos da LaMia.

A impressionante história de ascensão interrompida pela tragédia – mas já reiniciada com um excelente ano de 2017 em termos esportivos – ainda ganhará muitas outras publicações daqui em diante. Ivan Carlos Agnoletto, por exemplo, é um personagem emblemático nessa história: acompanhando o time desde 1980, ele já havia narrado 990 jogos da Chapecoense quando se preparava para viajar para Medellín. Quando chegasse ao número de 1 mil, já depois da final da Sul-Americana, pretendia publicar uma extensa biografia a respeito de toda a história da Chape, desde a sua fundação, em 1973. De última hora, resolveu atender a um pedido do amigo Gelson Galiotto. Gelson nunca havia feito uma final internacional e queria a oportunidade. Agnoletto permitiu que Galiotto fosse no seu lugar fazer o jogo pela Super Condá AM. Gelson Galiotto foi um dos 71 mortos na tragédia. Agora, Ivan Carlos Agnoletto aguarda a reconstrução definitiva do clube para publicar essa história.

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