Sabe aqueles jingles que grudam na cabeça e não saem da memória 20, 30, 40 anos depois de irem ao ar? Pensando na memória afetiva das gerações que cantaram músicas feitas para vender refrigerantes, brinquedos, cafés, chocolates, balas e tantos outros produtos, Fábio Barbosa Dias está lançando o livro “Jingle é a Alma do Negócio – A história e as histórias dos jingles e seus criadores”, publicado pela Panda Books. “Levei 13 anos recolhendo material e fazendo as pesquisas. Procurei abranger toda a história do formato, das empresas que produzem, dos 37 principais compositores e das músicas mais famosas. Dos mais de 5 mil jingles que eu tenho catalogados, 190 estão no livro contextualizados, com curiosidades e com a letra”, explica o autor. O livro vem acompanhado de um CD com 150 jingles. Fábio também é criador da página “Clube do Jingle”.

A palavra inglesa “jingle”, diz Fábio, representa o tilintar, ou seja, o choque entre dois objetos de metal que fica ressoando por mais tempo. A ideia é justamente essa: jingle bom é aquele que para de tocar, mas fica preso por mais tempo na cabeça de quem ouve. “O jingle tem como essência ser uma música de melodia cativante, curta, com letra simples de cantar e fácil de memorizar, que tem como objetivo principal promover uma marca, um produto, um serviço ou até mesmo uma pessoa como no caso dos políticos”, ensina Dias em seu livro. “Um refrão forte com rimas fáceis, embora não seja obrigatório, é muito bem-vindo e, na maioria das ocasiões, é a parte que gruda no ouvido”.

“No Brasil, os jingles começaram já nos anos 1930 quando se permitiram propagandas no rádio. Eram muito primários, embora tenham sido interpretados por grandes nomes, como Carmen Miranda. Era tudo ao vivo, então cada emissora exibia de um jeito. Em 1955 começaram a distribuir fitas para ficar igual em todas as emissoras. A partir dos anos 1960 e 1970 chegaram ao auge no rádio e na TV”, conta Fábio.

Confira curiosidades de 20 jingles inesquecíveis que fazem parte do livro:

1) Grapette
“Quem bebe Grapette, repete” foi a frase que marcou os refrigerantes que foram sucesso sobretudo nos anos 1960 e 1970. Grande parte desse sucesso se deve ao jingle de Heitor Carillo. A ideia dele era fixar bem a frase “Quem bebe Grapette, repete” porque na época não havia nenhum outro refrigerante de uva no mercado. Em 10 versos a frase era repetida quatro vezes.

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2) Nescau
Em 1961, a Nescau havia apostado em um jingle com o lema “Nescau: gostoso como uma tarde no circo”. A ideia perdeu o sentido no mesmo ano, quando o incêndio no Gran Circo Norte-Americano, de Niterói (RJ), vitimou mais de 500 pessoas. Heitor Carillo e Maugeri Neto precisaram bolar alguma coisa nova. Acabaram criando “Nescau tem gosto de festa”, sucesso absoluto da época.

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3) Casas Pernambucanas
Em 1962, Heitor Carillo (de novo ele!) recebeu a missão de compor um jingle onde mostrasse que as Casas Pernambucanas eram o lugar certo para a compra de utensílios domésticos para o inverno. Ele criou um jingle que fez tanto sucesso que extrapolou as fronteiras do rádio e chegou à televisão ilustrado por um desenho animado.

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4) Varig
Encomendado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni” (ainda antes deste se tornar o todo-poderoso da TV Globo), o jingle foi encomendado para Caetano Zamma. Uma exigência: deveria conter a palavra “jato”, como desejava Rubem Berta, dono da companhia aérea. Zamma cumpriu a missão e criou o jingle que foi a mensagem de natal da empresa por 46 anos. Usou “jato” no verso “Papai Noel voando a jato pelo céu”. Detalhe: o nome da companhia não aparece na letra. Ano a ano surgiram novas versões com os mais diversos corais e até artistas famosos como a cantora Xuxa dando voz à composição. A Varig, por obra de Archimedes Messina, ainda teria grandes jingles em homenagem a estados e países para os quais voava.

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5) Bala Kid’s
“Roda, roda, roda, baleiro, atenção! Quando o baleiro parar põe a mão. Pegue a bala mais gostosa do planeta, não deixe que a sorte se intrometa”. Renato Teixeira enviou o jingle apenas com voz e violão como é de praxe nesses casos. A produtora achou tão bonito que resolveu que a versão final seria exatamente assim: voz de Renato e violão e nada mais. “Ele foi tão cuidadoso na composição que a melodia começa lenta e vai acelerando quando o baleiro ganha velocidade”, observa o autor Fábio Barbosa Dias.

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6) Banco Nacional
“Quero ver você não chorar, não olhar para trás, não se arrepender do que faz”. O jingle da propaganda de Natal do Banco Nacional virou uma marca do final do ano no Brasil. A letra foi escrita por Lula Vieira e a melodia composta por Cido Bianchi. O comercial foi ao ar pela primeira vez em 1971. O coral das crianças era regido por Mauro Gonçalves, que tempos mais tarde ficaria eternizado como o Zacarias de “Os Trapalhões”. Mais recentemente a canção passou a ser usada como trilha de Natal das Lojas Marabraz.

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7) Café Seleto
Outro grande sucesso na galeria dos grandes jingles da história, a composição de Archimedes Messina tem uma peculiaridade: não teve nenhum briefing, ou seja, nenhuma orientação por parte de quem a encomendou. Archimedes compôs a letra de acordo com as suas impressões sobre o que o café representa no dia-a-dia. O CD que acompanha o livro traz esse jingle em diferentes versões.

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8) Cornetto
Milton Mastrocesario teve uma ideia bastante ousada: para vender o sorvete, criou uma letra em italiano. Ele buscou, no entanto, palavras próximas do português para popularizar a obra. A melodia era baseada no clássico italiano “O Sole Mio”.

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9) Duchas Corona
A peça foi reprovada pela agência de publicidade contratante. O motivo da implicância foram as citações consideradas exageradas a outros artigos presentes no banho que não a ducha. Convencido de que a música era muito boa, o autor Luiz Nammur, conhecido como “Zelão”, resolveu levar a composição diretamente para a direção da Corona, que aprovou na hora.

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10) Fanta Limão
Sim, a Fanta Limão já existiu. E teve um jingle bastante famoso, de autoria dos irmãos Olavo e Diógenes Budney. Eles receberam a incumbência de repetir o sucesso do jingle “Coca-Cola dá mais vida” e apostaram em uma melodia que se aproximasse do pop. “Havia também pitadas de ragtime percebidas a partir da harmonia ao piano e vocais típicos dos grupos de doo-wop dos anos 1950, perfeitos para explorar bastante a voz de baixo profundo de Diógenes”, descreve o livro “Jingle é a Alma do Negócio”.

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11) Jumbo Eletro Radiobraz
Outra criação dos irmãos Olavo e Diógenes Budney. Eles misturaram sucessos como “Disparada” e “Ponteio” para aproximar a canção dos festivais de MPB que eram verdadeiras febres nacionais. A rede Eletroradiobraz havia sido comprada em 1976 pelo Grupo Pão de Açúcar que a incorporou à sua rede de hipermercados chamada Jumbo. Com maior aporte financeiro, o grupo catapultou a Eletroradiobraz com uma massiva campanha de publicidade que consagrou o jingle dos Budney.

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12) Pepsi
“Até ali, jingle era jingle e música era música. Essa composição de Sá e Guarabyra quebrou isso. Era muito cantada na rua e foi gravada depois. Tinha sido pensada como música”, conta Fábio Barbosa Dias. O jingle da Pepsi foi um sucesso em 1972. A Pepsi havia aberto um concurso para escolher o seu jingle e a vitória da dupla Sá e Guarabyra veio graças a uma funcionária da limpeza do prédio da agência de publicidade. Ela passou a cantarolar a música pelos corredores enquanto trabalhava e foi aí que os diretores perceberam que aquele jingle tinha tudo para ser muito popular.

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13) Pullman
Em 1977, a Pullman passou a investir não só nos pães de forma como também nos rocamboles. Para divulgar a novidade encomendou um jingle a Archimedes Messina. O compositor percebeu a sonoridade das sílabas “bole” de “rocambole” e fez um jingle baseado nessa sonoridade.

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14) U.S. Top
A U.S. Top ficou marcada por uma frase de um comercial: “bonita camisa, Fernandinho”. Não foi, no entanto, a única marca deixada pela empresa de camisas e calças. Nos anos 1970, buscando captar o espírito de liberdade dos jovens da época, a companhia apresentou o jingle que entrou para a história: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada”. Duas curiosidades: a música de Sérgio Mineiro e Beto Ruschel  havia sido feita para a concorrente Levi’s anos antes, mas fora reprovada e os autores, ao receberem e encomenda, resolveram aproveitar a letra e trocar apenas o nome da marca; o verso “desbote e perca o vinco” faz referência a uma famosa campanha da concorrente Nycron, que dizia que suas calças “não amarrotam nem perdem o vinco”.

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15) Vasp
“Viaje bem, viaje Vasp”. O mais famoso jingle da Vasp já havia sido usado em 1972 por um curto período. Voltou no final dos anos 1970 quando seu autor, Theo de Barros, reescreveu a primeira parte. O resultado final foi mostrar todas as etapas de um passageiro durante uma viagem aérea para fixar a ideia do “viaje bem, viaje Vasp”.

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16) Danoninho
Luiz Orquestra tinha um desafio complicado ao compor a música do Danoninho: a letra precisava conter termos como lipídeos, glicídeos, protídios. Ele conseguiu, apostando em uma melodia mais acelerada. “Era muito rápido e não caberia “fósforo” na métrica. Então ele pediu para que metade do coral cantasse “fosfre” e a outra metade cantasse “fosfro”. Assim no resultado final você teria “fósforo”. “Ouvindo o jingle nem dá para perceber”, elogia Fábio Barbosa Dias.

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17) Estrela
A missão de Luiz Orquestra era mais uma vez complicada: divulgar toda a linha de brinquedos da Estrela para o público. Os mais de dois anos em que o comercial ficou no ar e a lembrança das crianças da época até hoje já indicam que houve sucesso nessa missão. Orquestra conduziu o comercial de modo que a gravação remetesse ao sucesso “We Are The World”.

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18) Mappin
O briefing da mais tradicional loja de departamentos do país pedia ao compositor Fernando Vieira de Mello que frisasse três características básicas: o fato de as lojas só fecharem à meia-noite; a variedade de produtos; e a possibilidade desses produtos se esgotarem rápido graças às liquidações. Assim foi feito e o jingle de melodia alegre virou um “chiclete” na cabeça das pessoas.

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19) Guaraná Antarctica
“Na época, o Guaraná tinha um perfil pediátrico ou geriátrico. Quem tomava era criança ou idoso”, brinca Fábio Barbosa Dias. “A empresa queria se aproximar do público jovem, adulto”, acrescenta. Parte fundamental nessa empreitada foi o jingle composto por Sérgio Mineiro, César Brunetti, Maurício Novaes e Sérgio Campanelli. Primeiro uma versão associando a bebida à pizza, já muito bem recebida. Depois, o estrondoso sucesso “Pipoca na panela começa a arrebentar. Pipoca com sal, que sede que dá. Pipoca e guaraná, que programa legal, só eu e você…”. O quarteto ainda fez uma terceira música tendo o sanduíche como tema.

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20) Primavera
Vender papel higiênico não é tarefa das mais fáceis. Ainda assim, este jingle, de autoria indefinida, conseguiu popularizar a marca Primavera ainda nos anos 1970. Duas décadas mais tarde ele voltou com um novo arranjo, mas mantendo a mesma estética e o mesmo clipe de desenho animado da época.

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