“Acho que não conseguiria fotografar os bastidores de um time que não fosse o meu. Uma vez tive a chance de trabalhar para aquele time da Água Branca que eu não digo o nome e recusei”. É bem verdade que está muito difícil encontrar um corintiano mal-humorado depois da vitória por 3 x 1 sobre o Fluminense que consagrou o time como campeão brasileiro pela sétima vez, mas a forma carinhosamente debochada de se referir ao rival Palmeiras já indica que Daniel Augusto Junior, 67 anos (“e corintiano há 69”), certamente é um dos mais espirituosos membros do bando de loucos. Com 40 anos de carreira completados este ano, o fotógrafo paulistano celebrará no início do ano que vem uma década como responsável pelos registros fotográficos de seu time do coração. Do Heriberto Hülse, em Criciúma-SC, ao Estádio Nacional de Yokohama, no Japão, de Felipe, Douglas e Herrera até Cássio, Balbuena e Jô, passando por Ronaldo, Roberto Carlos e Dentinho, foi pelas lentes do cabeludo e experiente profissional que o corintiano se sentiu mais perto do time nos bons e nos maus momentos nos últimos 10 anos.

Desde janeiro de 2008, quando começou a trabalhar para o Corinthians, Daniel viu e fotografou incontáveis treinos, quase 700 jogos e 11 títulos.  Começou com a Série B, conquistada com uma vitória por 2 x 0 sobre o Criciúma fora de casa, e seguiu adiante com três Campeonatos Paulistas, três Brasileiros, uma Copa do Brasil, a tão sonhada Libertadores, o título Mundial no Japão e uma Recopa Sul-Americana. Nada mal para quem, quando criança, sonhou em vestir a camisa 10 do Timão: “Meu pai chegou a me levar para jogar, mas a verdade é que sou um perna-de-pau”, admite. Depois de trancar três faculdades, Daniel foi orientado a fazer cursos de fotografia. Com um dinheiro que tinha guardado comprou uma câmera. Começou a trabalhar em 1977, ano em que o Timão quebrou um jejum de 23 anos sem vencer o Campeonato Paulista. Logo no início da carreira, ele enveredou pelo caminho do jornalismo esportivo. Passou por publicações conceituadas como o jornal O Globo e a revista Placar, fez muitos trabalhos como freelancer e chegou ao site oficial do Corinthians para fotografar bastidores dos jogos, treinos, preleções e viagens: “Era algo pouco explorado na época”, recorda.

Daniel Augusto Junior em ação: há 10 anos ele registra as conquistas e o dia-a-dia do Corinthians (Foto: Alan Morici)

Em 2007, o Corinthians viveu o pior momento de sua história e foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. Foi aí que apareceu a oportunidade para Daniel iniciar uma jornada de sucesso como fotógrafo oficial do clube: “A ideia era lançar um livro contando em imagens a jornada do time no ano do retorno para a Série A”. De fato, as fotos dos 38 jogos na segunda divisão viraram livro: “Eu voltei” trazia mais de uma centena de fotos capturadas por Daniel. Mas não parou por aí. Dali em diante vieram outros oito livros nos nove títulos conquistados pelo Corinthians: “Chegamos a pensar em um livro sobre a Recopa, mas eram só dois jogos e não havia material suficiente”, explica. Por isso, o livro do heptacampeonato brasileiro, que começa a ser planejado hoje junto da editora, será o décimo assinado por Daniel Augusto Junior.

O trabalho é difícil: a cada jogo são cerca de 500 fotos; a cada treino, 400. “Em um jogo como o de quarta-feira eu tiro 1 mil fotos”, calcula. “Saí da Arena às 3 da manhã  e cheguei ao CT às 10 na quinta” – ele mora no bairro da Pompéia e, portanto, percorre 30 quilômetros na ida e outros 30 na volta. Depois, em caso de título, é preciso juntar tudo isso e escolher as melhores imagens para ilustrar as publicações: “Garanto que ninguém se mete no meu trabalho. Nem jogador, nem diretoria. A escolha das fotos é minha porque eu sou o profissional responsável por isso”, justifica. Daniel assegura também que não pensa no livro enquanto está trabalhando no dia-a-dia: “Faço os registros para os canais oficiais do clube. Se for campeão, planejo tudo depois”, diz.

A única parte do livro que o fotógrafo não comanda sozinho é a escolha do título: “Nós nos reunimos – eu, editora, comunicação e marketing do clube – e fazemos uma espécie de brainstorm. Alguns são muito óbvios como o Primeira Força”. No começo do ano muitos nomes da imprensa e muitos torcedores afirmavam que o Corinthians era a quarta força do futebol paulista em 2017. Campeão estadual, o time adotou a expressão “Primeira Força” como lema e resposta aos críticos. O que pouca gente sabe é que por pouco a publicação não saiu: “Esses projetos são caros e a editora não queria mais fazer. O Paulo Garcia, dono da Kalunga, foi fundamental porque imprimimos na gráfica dele. E ele já me ligou dizendo que quer fazer o livro do Brasileirão também”. Como não poderia deixar de ser, a galeria de publicações oficiais tem como campeão de vendas “Libertados”, o livro que narrou a inédita conquista da Libertadores em 2012: “O lançamento foi na FNAC de Pinheiros. A CET foi chamada para organizar o trânsito na região porque virou um caos”, relembra o autor. “Bicampeão Mundial”, o livro sobre a histórica conquista no Japão, também foi um sucesso entre a Fiel torcida.

Os nove livros já publicados pelo Corinthians: heptacampeonato brasileiro marcará a décima publicação

Para fazer os registros dos bastidores, Daniel tem acesso quase que total a todos os cantos do centro de treinamento: “Preciso ter bom senso. Não vou fotografar um jogador tomando injeção na bunda. Mas nunca sofri nenhum tipo de restrição por parte dos treinadores”, assinala. De dentro do vestiário, ele acaba tendo uma visão privilegiada do andamento dos trabalhos. Viu, por exemplo, o elenco heptacampeão brasileiro começar a temporada com desconfiança: “Eu acho que nem o próprio Fábio Carille imaginava que iria ser o treinador. No início do ano, todos estavam um pouco desconfiados”, diz.

Por mais vencedores que sejam os últimos 10 anos no Parque São Jorge, não faltaram também derrotas e momentos de tensão. Em 2014, a torcida, já irritada com o frustrante ano de 2013 do Corinthians, perdeu de vez a paciência no quarto jogo do ano. O time foi derrotado por 5 x 1 para o Santos pelo Campeonato Paulista na Vila Belmiro. No fim de semana seguinte torcedores invadiram o Centro de Treinamento Joaquim Grava, no Parque Ecológico, e ameaçaram os atletas: “Eu estava no CT e foi tenso. Minha primeira reação foi sacar a câmera e registrar, mas quando eu vi cada homem grande vindo pra cima da gente guardei tudo e falei que aquilo era pra ficar quietinho ali”, narra.

Nos braços dos jogadores, Fábio Carille chegou ao Corinthians em 2009: o fotógrafo já era Daniel (Foto: Daniel Augusto Junior/Agência Corinthians)

Mesmo quando a situação não chega a níveis tão extremos a má fase dentro do campo atrapalha o fotógrafo. Afinal, tratam-se de mídias oficiais e as fotos precisam passar uma imagem positiva do time. Como fazer isso quando os resultados são ruins e o elenco está desanimado? “Não posso fotografar um jogador de cabeça baixa. Se eu fizer isso vão dizer que o elenco está abatido”, confirma. No geral, porém, o astral é bom naturalmente e a boa relação com os jogadores cria boas histórias: “O Rodinei, hoje no Flamengo, passou por aqui em 2013 e adorava aparecer. Tiro foto de todos, mas a estrela do time era o Pato. Então o Rodinei chegava aqui e só via foto do Pato. O que ele fez? Começou a ficar atrás do Pato o tempo todo. Tirava foto do Pato, lá estava o Rodinei. A gente ria muito”, conta. Ronaldo Fenômeno, por outro lado, mal dava bola para os cliques: “Ele não ligava. Você tirava a foto e ele não estava nem aí”.

Quando ele começou no clube, nenhum dos jogadores do elenco atual e nem mesmo o técnico Fábio Carille, que estreou como auxiliar em 2009, estavam por lá. Muitos saíram, tantos outros chegaram. Do elenco heptacampeão, o mais “aparecido” é Giovanni Augusto, reserva fundamental nas vitórias fora de casa sobre o Fluminense, ainda no primeiro turno, e sobre o Atlético Paranaense na semana passada: “Não sou eu que estou dizendo! São os próprios jogadores que falam que ele adora uma câmera”, diverte-se o fotógrafo. Daniel garante que quase nunca combina nenhuma fotografia com os jogadores: “Não gosto desse tipo de montagem. O que eu faço são registros jornalísticos. Depois alguns atletas vêm pedir alguma fotografia”. Discreto, o profissional por vezes nem é notado pelos jogadores: “Alguns me perguntam depois como eu consegui fazer a imagem”.

Giovanni Augusto (à frente): “gosta das câmeras” (Foto: Daniel Augusto Junior/Agência Corinthians)

Nesse Campeonato, houve sim uma foto planejada e que fez sucesso. Autor do primeiro gol do Corinthians na vitória sobre o Palmeiras por 3 x 2, Romero pegou um celular das mãos de Daniel e fez uma selfie junto com outros seis jogadores. Na imprensa se falou que a comemoração estava preparada há meses,  esperando apenas o gol do paraguaio, que amargou um jejum de quase cinco meses sem marcar. O fotógrafo nega: “Isso foi uma brincadeira que surgiu durante o almoço no dia do jogo. Sempre fico do lado oposto ao banco de reservas e geralmente é em direção ao banco que os jogadores vão. Eu sempre reclamo disso. Nesse dia, brinquei com o Romero: ‘Nunca mais vai fazer um gol e comemorar do meu lado? Depois não sai no livro e reclama’. Foi aí  que ele me disse que era para eu guardar o celular dele porque, se fizesse um gol, ele comemoraria com a selfie. Acho que foi a única vez que fiz algo montado assim”, arrisca.

Daniel nunca vai para o estádio junto com a delegação. Chega mais cedo, junto com os roupeiros, para acertar todos os detalhes de posição das câmeras, mesa de trabalho e conexão de internet. O contato mais próximo com o time é dentro do avião, nas viagens. O roqueiro fã de Beatles por vezes apela para os fones de ouvido para escapar dos pagodes do elenco dentro do avião: “Mas se não der para escapar, na hora da festa vale tudo”, garante. “Em 2009 ganhamos a Copa do Brasil e fomos direto para Brasília porque o presidente Lula queria o time lá. Fui ouvindo os jogadores cantando pagode a viagem inteira”.

Camacho, Fagner, Balbuena, Gabriel, Jô e Pablo: a selfie de Angel Romero

Acabando a temporada, vem um tempo curto de folga e logo começa tudo de novo: dia 4 de janeiro o elenco se reapresenta no CT e lá estará ele. Na sequência tem viagem para a Flórida Cup e, a partir do dia 17, o Campeonato Paulista. É ano de Libertadores e viagens internacionais virão por aí. Uma rotina desgastante, intensa, mas, no caso dele, recompensada com o privilégio de ver de perto o melhor momento da história do clube e de certa forma fazer parte dele. Até por isso, ao contrário de muitos atletas, ele não pede por um calendário com menos jogos: “Não, de jeito nenhum. Deixa assim que está bom”. E para quem ainda duvida da filosofia do treinador Fábio Carille, fica o aviso: até o fotógrafo do clube trabalha no esquema “jogo a jogo”. “Não gosto de ficar pensando em livro, em título, porque dá azar”. Se em time que está ganhando não se mexe, eis aí um setor no qual o Corinthians não precisa se reforçar.

Corinthians confirmou o título brasileiro ao vencer o Fluminense em Itaquera (Foto: Daniel Augusto Junior/Agência Corinthians)

Os livros alvinegros de Daniel Augusto Júnior:

  • “Eu Voltei”: a conquista da Série B e a volta à primeira divisão do Campeonato Brasileiro (2008);
  • “Invicto e Fenomenal”: sob o comando de Ronaldo, Corinthians foi campeão invicto do Paulistão pela primeira vez desde 1938 (2009);
  • “Copa do Brasil: do Inferno ao Paraíso – Como o Timão superou a derrota de 2008 para ser tri em 2009”: a torcida do Internacional prometeu um “inferno” no Beira-Rio, mas o time de Mano Menezes conquistou o título após empatar em 2 x 2 (2009);
  • “Pentacampeão: o mais corinthiano de todos os Brasileiros”: no dia da morte de Sócrates e segurando um 0 x 0 com o Palmeiras, Corinthians voltou a ser campeão brasileiro após seis anos (2011);
  • “Libertados”: o fim da espera pelo título inédito da Libertadores veio com vitória sobre o Boca Juniors no Pacaembu (2012);
  • “Bicampeão Mundial”: com gol do peruano Paolo Guerrero, Corinthians bateu o Chelsea em Yokohama e faturou o título (2012);
  • “#GanhaMuito”: inspirado no “fala muito” que virou marca de Tite, livro celebrou mais um Campeonato Paulista vencido pelo Corinthians (2013);
  • “Hexa”: dando show, time de Tite recolocou o Corinthians no topo do país (2015);
  • “#PrimeiraForça”: da “quarta força” ao título paulista, o primeiro passo do vitorioso 2017 do Timão (2017).

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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