Na década de 1970, a cidade de Chicago era conhecida nos Estados Unidos como um dos maiores centros de corrupção do país. Calculava-se na época que a corrupção endêmica por parte de agentes municipais para burlar a fiscalização e afrouxar a cobrança de impostos causava um prejuízo aos cofres públicos de 16 milhões de dólares por ano. Em contrapartida, viver em uma cidade como essa não deixava de ser um prato cheio para jornalistas investigativos. Pamela Zekman, repórter do Chicago Tribune, aproveitou tanto essa oportunidade que ganhou, junto com sua equipe, dois prêmios Pulitzer, o mais importante do jornalismo mundial.

Direto da fonte: na foto, a inauguração do bar que fez parte de uma investigação jornalística

Corria o ano de 1976. Já fazia um bom tempo que Pam apurava esquemas de pagamentos de propina por parte de donos de bares para funcionários públicos, com o intuito de afrouxar a fiscalização sobre os estabelecimentos. Faltavam, no entanto, provas concretas, daquelas que sustentam o furo jornalístico e dão força à reportagem. Para resolver o problema, Pam sugeriu que o jornal comprasse um bar na cidade. Dessa forma, seria possível ver com os próprios olhos como os esquemas funcionavam e então registrá-los. A ideia maluca foi aceita por um concorrente, o Chicago Sun-Times.  O jornal assinou uma parceria com a “Better Government Association”, uma organização não-governamental que investigava casos de corrupção em Chicago. No final daquele ano começaram as negociações para comprar um empreendimento.

Ajudantes trabalham na decoração do The Mirage em 1977

“Tínhamos conversas interessantes com os antigos proprietários, que diziam abertamente que nós iríamos pagar propina para funcionar”, recordou Bill Recktenwald, da “Better Government Association”, ao site norte-americano Topic. “Como repórter e investigador não ouvíamos nada de ninguém, mas como um casal interessado em abrir um bar, sim”, aponta. O local escolhido foi o The Firehouse, bastante próximo à redação do jornal: “As pessoas do jornal, principalmente os fotógrafos, precisavam estar próximos e acessíveis”, justificou Zekman também ao Topic.

A investigação começou a render frutos já nos primeiros contatos com o corretor de negócios que intermediou a compra: “Ele era uma daquelas pessoas das quais você aperta as mãos e depois precisa ir se lavar”, afirma Recktenwald. Segundo Pam Zekman, o corretor Phil Barash explanava com enorme tranquilidade todo um já consolidado esquema para acelerar laudos e liberações ou até mesmo driblar algumas regras com o pagamento de propina. Bastava aos donos entregarem envelopes com determinada quantia em dinheiro.

Agente público fiscaliza o bar comprado pelo jornal: pagamentos de propina eram constantes

O estabelecimento foi comprado dos antigos donos por 13 mil dólares – a oferta inicial dos proprietários era de 18 mil. Ao todo, o jornal gastou 25 mil dólares no projeto. “Tomamos como regra não falar ou propor nada e nem pressionar ninguém a agir de maneira diferente do que pretendia”, assinala Zekman. A ideia era aguardar as propostas indecentes sem antecipá-las. A reportagem correu em segredo quase absoluto. Apenas três editores, dois fotógrafos e dois repórteres participaram do processo: “Nem minha mulher sabia o que estava acontecendo”, conta Zay Smith, o outro repórter, ao Topic. “Foi um trabalho de 24 horas por dia, sete dias por semana. A todo momento algo poderia dar errado”, acrescenta a parceira Pam.

Epidemia de corrupção causava prejuízo de 16 milhões de dólares aos cofres de Chicago

O bar foi batizado como The Mirage (“A Miragem”). A casa abriu as portas com problemas intencionais na estrutura, como vazamentos de água e defeitos nos banheiros: “Sabíamos que os fiscais encontrariam problemas”, relembra Zekman. O único cuidado, dizem os envolvidos, foi garantir que esses problemas não colocassem em risco os frequentadores da casa. Para evitar que fossem reconhecidos, os envolvidos se disfarçaram: Zay Smith se tornou Nory; Bill Recktenwald passou a se chamar Ray (e ganhou um bigode); enquanto Pam Zekman andava o tempo todo com um lenço na cabeça para disfarçar seus chamativos cabelos vermelhos.

Funcionário do bar Mirage analisa problema na estrutura do local

Quando o bar foi inaugurado, em 17 de agosto de 1977, o “desfile de propina” como classifica Smith, já havia começado. Um inspetor sanitário aceitou “alguns dólares” para fazer vista grossa às lamentáveis condições do porão. “O que mais nos impressionou foi ver como esses agentes públicos vendem barato a segurança das pessoas. Não pagávamos grandes quantias. Foram 10 dólares para um inspetor e 25 para outro”, diz Pam Zekman. “Encanadores, engenheiros, eletricistas, bombeiros… Demos dinheiro a todos”, elencou Recktenwald.

Fotógrafos se esconderam para registrar o pagamento de propinas

The Mirage conseguiu licença para vender comida mesmo com várias falhas na estrutura e sem obedecer algumas regras básicas de higiene. As duas mais graves eram um toldo sobre um fogão sem exaustor e uma pia completamente enferrujada. Tudo foi documentado por repórteres e fotógrafos ao longo do tempo. “Fizemos, na prática, um diário”, sintetizou Pam Zekman. Segundo Zay Smith, os fotógrafos ficavam estrategicamente escondidos em grades de ventilação no alto, nos quais tinham visão completa do piso inferior.

Cozinha cheia de problemas foi aprovada pelos fiscais

Surgiu um problema sério logo de cara: ninguém ali sabia comandar um bar. Preparar margaritas, por exemplo, era quase um terror. Coube a Zay Smith fazer um curso de bartender. Momentos de tensão também fizeram parte da caminhada. Além das brigas entre clientes, teve um rapaz que pareceu ter descoberto o segredo por trás do negócio: “Um homem que frequentava o bar todos os dias começou a gritar ‘eu descobri! Finalmente eu descobri! Isso é uma fachada para alguma coisa!’ Eu apenas dei risada”, narra Recktenwald.

Da esquerda para a direita: Recktenwald, Pam Zekman, Jay Smith e Jeff Allen

O bar teve vida curta e fechou as portas, já com a apuração concluída e suficiente para sustentar a reportagem, no dia 30 de outubro. Nos meses seguintes, os repórteres passaram a reunir todo o material, que seria publicado em uma série de 25 reportagens, iniciada em 8 de janeiro de 1978. A vida dos envolvidos virou de cabeça para baixo. Toda a cidade de Chicago leu o extenso registro da cultura de corrupção do município. “Nós passamos a dar palestras em universidades, clubes, escolas, cursos de jornalismo…”, relembra Jim Frost, responsável pelas imagens ao lado de Gene Pesek.

Festa de inauguração lotou o The Mirage. Bar durou pouco mais de dois meses.

Choveram ainda críticas aos métodos pouco ortodoxos de apuração dos repórteres: “Nós apenas abrimos um bar e deixamos os inspetores agirem como agem sempre”, esquivou-se Pam Zekman. A defesa foi compartilhada até mesmo pelos concorrentes: “Não vemos outra forma de fazer o que eles fizeram”, escreveu o Chicago Tribune. The Columbia Journalism Review, revista especializada em jornalismo, amparou a grande reportagem no código de ética da Sociedade Profissional de Jornalistas, que dizia: “Evitar os métodos secretos e ilícitos de colher informações a menos que os métodos tradicionais não sejam suficientes para levar ao público informações de importância vital”.

A primeira das 25 capas do Sun-Times sobre a cultura da corrupção em Chicago

Pam Zekman trabalhou no Chicago Sun-Times até 1981, quando se transferiu para a afiliada local da rede de TV CBS, onde está até hoje. Ao lado de Zay Smith, ela escreveu em 1979 o livro “The Mirage”, onde narra os bastidores da reportagem. Smith trabalhou no jornal até 2008 e hoje escreve em uma página pessoal na internet. Bill Recktenwald deixou o posto na ONG logo depois da reportagem e passou a se dedicar a uma série onde relatava as histórias que viu como agente penitenciário. O trabalho provocou mudanças no sistema prisional norte-americano.

Fotos: Jim Frost/Chicago Sun-Times. As capas e um editorial do Sun-Times podem ser encontrados neste link.

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