Amanhã, 2 de setembro, é dia de festa para os 22 habitantes do Principado de Sealand. O “menor país do mundo”, como os seus poucos moradores o intitulam, não é um país de fato. Não é reconhecido pela ONU nem por nenhuma outra instituição ou nação. Ainda assim, tem bandeira, moeda (Dólar de Sealand), constituição e até um lema: “Do mar, liberdade”. Esse é o nome também do hino, composto em 2001 pelo londrino Basil Simonenko. Ele já foi gravado pela Slovak Radio Symphony Orchestra em 2005 e faz parte de uma série de CDs com hinos nacionais.

A história de Sealand começa na Segunda Guerra Mundial, como uma plataforma para proteger a costa britânica. Passado o conflito, um excêntrico major inglês se instalou por lá com a família e resolveu declarar um país independente. Nos últimos anos, para sustentar a utopia e manter o país-plataforma de pé, Sealand passou a vender suvenires e títulos de nobreza. Um deles foi parar nas mãos de Ari Ferreira de Abreu, professor universitário de 52 anos que mora em São Paulo. Com um valor que hoje seria equivalente a 120 reais, ele se tornou um Barão de Sealand e ostenta o título com orgulho: “Para onde eu vou eu me apresento como Barão de Sealand. Esse era o nome da minha página no Facebook, mas aí eles tiraram do ar e eu mudei para Barão Ariabreu”, diverte-se. Um título de duque ou duquesa está avaliado hoje em quase 2.500 reais.

Paulistano Ari Abreu é Barão de Sealand, o menor país do mundo

Nessa entrevista, Ari Abreu conta mais curiosidades sobre o “país que não existe”:

Sealand completa 50 anos amanhã. O que a história do país já conta nesse meio século de vida?
Sealand era uma plataforma na foz do Rio Tâmisa construída para defender Londres dos aviões inimigos durante a Segunda Guerra. Quando o conflito acabou, Príncipe Roy [Paddy Roy Bates, que morreu em 2012] invadiu uma das plataformas abandonadas para fazer uma rádio pirata. A Marinha Britânica o colocou para fora. Então ele invadiu outra, antes chamada de Rough Towers, que já estava fora do território britânico, e constituiu ali um país independente, que até hoje é o menor do mundo.

E esse país é reconhecido por algum outro?
Não. Somos chamados de micronação. Um maluco pega uma área que não é de ninguém, diz que é dele e que é um país. Uma vez um alemão tentou tomar aquela plataforma de Príncipe Roy e foi chamado um embaixador alemão para solucionar a questão. Por isso, diz-se que Sealand já foi reconhecida pela Alemanha, mas oficialmente, não.

Todo o território de Sealand corresponde à esta plataforma

Como começou sua história com o país?
Sou professor universitário e estava fazendo uma pesquisa sobre o que eu precisava fazer para me transformar em um nobre. Foi aí que acabei descobrindo Sealand. Em 2006, a plataforma foi atingida por um incêndio e o Príncipe Roy percebeu a necessidade de angariar recursos. Primeiro ele tentou vender o país todo, mas o único interessado [o site The Pirate Bay] não tinha 1 milhão de libras para oferecer. Então Roy passou a vender títulos de nobreza por 30 libras esterlinas mais os custos com o correio. Descobri essa história em 2014. Desde então me apresento como “Barão de Sealand” e pelo menos até hoje nunca encontrei outro brasileiro com o mesmo título.

Como é a vida em Sealand?
A população é de 22 pessoas, já que só a Família Real vai lá com alguma regularidade. O próprio Príncipe Michael Bates, que não liga tanto para Sealand, mora no continente. Eu, por exemplo, nunca fui até lá [o acesso é apenas por barco ou helicóptero]. Mas é uma plataforma que pode abrigar 200 pessoas, então eventualmente temos alguns eventos de grandes empresas lá. Nossa bandeira também foi fincada no topo do Monte Everest por um dos nobres. Em 2012, vencemos um torneio de futebol entre países não reconhecidos pela Fifa. Nossa seleção foi formada por um jornalista britânico que reuniu alguns companheiros da imprensa e da música. O filho do Príncipe jogou também [a loja online do país vende a camisa da Seleção].

A bandeira de Sealand

O país tem uma constituição. O que ela diz?
A constituição de Sealand é inspirada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e prevê ser dever de seus governantes trabalhar em favor da dignidade do ser humano.

Haverá alguma festa para comemorar o cinquentenário?
Eu e todos os outros nobres fomos convidados para um jantar na cidade inglesa de Essex, a mais próxima de Sealand. Quem puder ir até lá terá essa celebração no sábado.

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