Embora fique a  7.498 quilômetros de Charlottesville, no Estado americano da Virgínia, a cidade de Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo, entrou na discussão que tomou conta do noticiário internacional nos últimos dias. Tudo por causa da tensão racial provocada por manifestações de grupos nazistas e supremacistas brancos, que gerou conflitos e até uma morte. Uma festa tradicional da cidade paulista foi parar no The New York Times como mais uma peça em um recorrente debate sobre as homenagens aos Confederados norte-americanos.

Roupas típicas, música e comida: festa no interior de São Paulo recorda o movimento dos Confederados (Foto: Divulgação)

Esse debate sempre existiu, mas voltou com mais força depois do final de semana de racismo explícito e conflitos em Charlottesville. Estátuas e monumentos em lembrança ao movimento dos Confederados (são pelo menos 1.500 delas espalhadas pelo país, um número que vem diminuindo progressivamente desde 2015) são apenas uma referência à guerra civil que dividiu os americanos no século XIX ou são, na verdade,  uma homenagem aos líderes de um movimento que chegou a se separar do país por discordar veementemente da abolição da escravatura? Na segunda-feira, movimentos anti-racismo derrubaram uma estátua em homenagem aos soldados confederados na cidade de Durham, na Carolina do Norte.

A partir de 1860, os Estados Unidos passaram a discutir com mais intensidade o fim da escravidão no país. Os Estados do norte do país levantavam essa bandeira, enquanto os do Sul não admitiam a ideia de conceder a liberdade aos negros. Já em 1861, com uma guerra civil entre as duas metades do país estabelecida, os sulistas separaram-se dos nortistas e criaram os Estados Confederados da América. A abolição se tornou oficial em 1863, mas a Guerra e consequentemente os Confederados existiram até 1865. De lá para cá, monumentos que remetem a líderes desse movimento e reuniões que revivem essa mobilização são frequentes nos Estados Unidos e opõem os que enxergam esse tipo de manifestação como uma forma de racismo.

A bandeira do Movimento Confederado: reverências são interpretadas como racistas

Como Santa Bárbara d’Oeste entra nessa história? Desde 1986, a cidade promove a Festa Confederada. Esse ano, a 29ª edição foi realizada no dia 30 de abril. O site oficial já mostra de cara um dos versos do hino dos Estados Confederados da América: “Old times there are not forgotten” (“Velhos tempos não são esquecidos”) . Mais abaixo na página vê-se outro verso: “To live and die in Dixie” (“Para nascer e morrer em Dixie”), como é chamada a região sul dos Estados Unidos. Além da bandeira confederada, da bandeira do Brasil e da bandeira atual dos Estados Unidos, encontra-se dentre os símbolos da festa um triângulo com as palavras “fraternidade”, “descendência” e “americana”.

Com pratos tipicamente americanos, como frango frito e hambúrgueres, e atrações musicais com bandas de jazz e rock, a Festa Confederada de Santa Bárbara D’Oeste celebra a imigração norte-americana para o Brasil. Esse movimento imigratório está nas origens da cidade, uma vez que, durante a Guerra de Secessão, muitos sulistas acabaram desembarcando na cidade a 119 quilômetros da capital. Uma vez por mês, esses americanos se reuniam no Cemitério do Campo para fazer leituras do Evangelho e prestar homenagens aos companheiros já falecidos. Por isso mesmo, o Cemitério do Campo é o palco da festa até hoje.

“Nós não somos racistas. Nós apenas reverenciamos os nossos ancestrais que se firmaram aqui no Brasil”, declarou o engenheiro Cícero Carr ao The New York Times. Carr tem em sua árvore genealógica um norte-americano vindo do Texas durante a guerra civil. “Eu estou aqui apenas porque amo os Estados Unidos”, explicou também ao jornal americano o operário Sergio Porto, sem parentesco com os “Dixies”. Já o presidente da comissão organizadora, Marcelo Sans Dodson, resumiu o ideal da festa para o jornal americano: “Para nós, o símbolo dos Confederados representa família, união, fraternidade e amizade”.

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