Tita dispara pela direita e encontra Zico livre de marcação na intermediária. O “Galinho de Quintino” lança para Cláudio Adão, centroavante recém-chegado do Santos, que apenas empurra para as redes, sem chances para o goleiro Geraldão. Foi assim o primeiro gol do Flamengo na Taça Guanabara (nome que se dá ao primeiro turno do Campeonato Carioca) de 1978 e o primeiro também da impiedosa goleada por 6 x 0 sobre o São Cristóvão. Para um dos 36.802 torcedores presentes no Maracanã, naquele dia 3 de setembro, esse gol foi histórico.  Rodrigo Santos, baixista da banda Barão Vermelho desde 1992, tinha 14 anos à época e já era um apaixonado rubro-negro. “Zico havia se recuperado de uma lesão e o time estava renovado com a chegada de jogadores como o goleiro Raul e o meia Paulo César Carpeggiani”, recorda. “Quando cheguei do Maracanã, resolvi desenhar os gols”.

Cadernos com gols do Flamengo, como os dois da vitória sobre o América, pelo Campeonato Carioca de 1980, foram reencontrados pelo músico

Começava ali um hábito que durou até o fim de 1983 e acompanhou o Flamengo naquele que certamente foi o momento mais vitorioso da história do clube. “No jogo seguinte, o Flamengo fez 5 x 0 no Campo Grande e eu desenhei os gols de novo. Deu sorte e não parei mais”, conta o músico. Aquele Campeonato Carioca – que marcou a estreia do esquadrão que mais tarde ganharia o Brasileirão, a Libertadores e o Mundial – terminou com o título rubro-negro: “Fomos campeões com um gol de cabeça do Rondinelli em um jogo contra o Vasco. Eu ia a todos os jogos, guardava os gols na cabeça e recortava o jornal do dia seguinte para lembrar a ordem”, explica Rodrigo, hoje com 53 anos.

Rodrigo entre Júlio César (esq.) e Adílio (dir.): craques do Flamengo inspiraram desenhos

Nas folhas brancas, ele fazia ainda anotações que complementavam os desenhos dos gols flamenguistas e registrava as escalações. Na semana passada, Rodrigo reencontrou os cadernos em uma sacola esquecida em um armário e comemorou a descoberta com seus fãs nas redes sociais. “Muitas coisas se perderam em algumas mudanças que eu fiz. Nem sei se tenho mais o desenho desse jogo contra o São Cristóvão”, lamenta. Rodrigo em breve terá um encontro com o seu ídolo Zico e pretende entregar ao craque um dos desenhos dos gols. Ter memória fotográfica era fundamental, afinal os gols passavam poucas vezes na televisão: “Guardava tudo na cabeça e nunca perdi nenhum gol”, garante o baixista. “Quando o jogo terminava 0 x 0 eu desenhava uma bola na trave ou alguma jogada mais bonita”.

O desenho de Rodrigo Santos para os gols da vitória do Flamengo sobre o Fluminense por 2 x 0 em jogo pelo Campeonato Carioca de 1980

Em 1983, depois de três títulos cariocas, três brasileiros, uma Libertadores e um Mundial de Clubes, Rodrigo resolveu dar um fim ao hobby. O motivo: ele ficou revoltado com a saída de Zico para a Udinese, da Itália, no final da temporada. “Ídolo é ídolo”, justifica o músico. A volta do Galinho e o título da Copa União de 1987 inspiraram alguns outros novos desenhos, mas bem esporádicos dessa vez.

Léo e Pedro acompanham o pai nos jogos no Maracanã

Rodrigo segue acompanhando o time. As idas ao Maracanã passaram a ter a companhia dos dois filhos, Leo e Pedro. No estádio, assistiu à última grande conquista nacional do clube: a Copa do Brasil de 2013, depois de uma vitória por 2 x 0 sobre o Atlético Paranaense. Já o último desenho de gol foi feito em 2001, quando o Flamengo foi tricampeão carioca, vencendo o Vasco nas três decisões – e marcando o gol do terceiro título aos 43 minutos do segundo tempo: “Fiz aquele gol de falta do Petkovic. Esse foi lindo!”, exalta.

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