Archimedes Messina, que faleceu ontem aos 85 anos, fez parte do dia-a-dia dos brasileiros nos últimos 50 anos. Dentre os muitos jingles que Messina criou e que viraram clássicos na cabeça de várias gerações, o mais famoso deles ainda vai ao ar todas as semanas: “Silvio Santos vem aí”, a trilha sonora que acompanha o maior apresentador do país desde o início de sua carreira no rádio, foi composta por Archimedes e ajudou a torná-lo um dos maiores compositores de jingles brasileiros.

O paulistano de nascimento sempre sonhou em trabalhar com rádio. Quando menino, ouvia toda a programação de jornais, radionovelas e programas de auditório. Entrando na vida adulta, surgiu a primeira oportunidade de se tornar radioator na Rádio São Paulo, líder de audiência na época. A atuação como ator em pequenos papéis acompanhou trabalhos de locução na TV Record e os primeiros projetos como compositor, fazendo músicas para as novelas nas quais atuava. Mas foi com marchinhas carnavalescas que Messina começou a se projetar nacionalmente: “Faz um quatro aí”, de 1957, foi seu primeiro sucesso, gravado pelo humorista Chocolate.

O sucesso com essa e outras marchinhas chamou atenção do amigo Jorge Adib, que comandava uma agência de publicidade chamada Multi Propaganda. Uma proposta de aumento de salário, que era o dobro do que Messina ganhava na Rádio São Paulo, foi o suficiente para superar o receio do então radioator em mudar radicalmente de função. Ele fechou um contrato de três meses para compor jingles para os clientes da Multi. Deu tão certo que ao final dos três meses ele recebeu o dobro do que havia sido combinado e entrou de vez para o mercado publicitário.

Os anos trabalhando em rádio já haviam colocado Archimedes no caminho de Senor Abravanel, já Silvio Santos, que trabalhava para Manuel da Nóbrega na Rádio Nacional. Em 1964, o comunicador ganharia seu primeiro programa solo aos domingos e coube a Archimedes compor a trilha sonora do programa. O compositor encontrou Silvio em um corredor da Rádio Nacional e perguntou como ele queria que fosse a música: “Silvio pediu simplesmente uma música animada, bem alegre e simples, que pegasse rápido, afinal seria o tema de abertura do seu programa”, conta o especialista em jingles Fábio Barbosa Dias.

Segundo Fábio, o futuro Homem do Baú ainda sugeriu que a música começasse com um “lá, lá, lá” e que depois Messina poderia continuar como quisesse. Surgiram então os versos “Lá, lá, lá, lá / Lá, lá, lá, lá / Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá / Agora é hora / De alegria / Vamos sorrir e cantar / Do mundo não se leva nada / Vamos sorrir e cantar / Lá, lá, lá, lá / Lá, lá, lá, lá / Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá / Silvio Santos vem aí”. Silvio aprovou a música de cara e o sucesso com o público foi tão grande que ela o acompanhou no ano seguinte em sua chegada à televisão. Com ela, fez sucesso na TV Paulista, na TV Globo e finalmente na TVS, hoje SBT, que o próprio Silvio inaugurou em 1981.

Trilha de todos os domingos, a música foi até tema do jingle eleitoral de Abravanel em sua fracassada tentativa de se candidatar à presidência da República em 1989. Anos mais tarde, a música traria dores de cabeça ao “Patrão”. Em 2001, Messina moveu um processo contra Silvio reclamando os direitos autorais que a composição arrecadou ao longo de todos os anos em que foi executada. Os cálculos dos advogados levaram a um pedido de R$ 50 milhões. O SBT recorreu e o processo se arrastou até 2011, quando a Justiça determinou que fosse paga uma indenização de R$ 5 milhões para Archimedes e que a música não fosse mais executada. No ano seguinte, em condições mantidas em sigilo, Abravanel e Messina entraram em um acordo e em 2013 a música voltou a fazer parte dos domingos dos brasileiros.

Ainda que esse seja o seu maior sucesso, a carreira de Archimedes passa longe de se resumir a “Silvio Santos vem aí”. O fenômeno com o jingle do apresentador chamou a atenção de Carlos Ivan Siqueira, diretor de propaganda da Varig, que em 1967 encomendou uma música que vendesse viagens para Portugal: “Archimedes criou uma historinha que envolvia um tal de “Seu Cabral”, que vinha ao Brasil de caravela e voltava a Portugal em um avião da Varig”, conta Fábio Barbosa Dias, que se prepara para lançar um livro com as histórias dos principais criadores de jingles do país.

Foi só o primeiro dos muito jingles que Archimedes fez para a companhia aérea em 20 anos de parceria. Sempre que precisava “vender” algum novo destino da companhia, Messina pesquisava algo sobre a cultura ou a história daquele país que lhe servissem de gancho. Foi assim que a lenda de Urashima Taro, uma tartaruga salva por um pescador, se tornou a base para outro sucesso: o pescador trouxe a tartaruga para o Brasil e ela voltou a sua terra natal, o Japão, em um jatinho da Varig. A música foi gravada por Rosa Miyake, apresentadora do programa “Imagens do Japão”. “Ele me convidou para gravar e eu achei o máximo!”, recorda Miyake. “No dia da gravação eu estava muito nervosa. Ele me chamou no estúdio e disse: ‘Rosinha, esse pedaço do estúdio é todinho seu, cante como se estivesse no palco’. Eu estava suando! Foi uma experiência que eu nunca vou esquecer. Ele era querido por todos por sua lealdade e sensibilidade”, diz ela.

Foram 12 músicas para a companhia aérea, cada uma sobre um Estado brasileiro ou país. Em alguns casos, Archimedes viajou com custos cobertos pela Varig para conhecer melhor a história do lugar e assim criar uma história que cativasse o público. Outro de seus sucessos foi o jingle do Café Seleto, composto em 1974 sem que Messina recebesse qualquer informação sobre o produto. E não precisou. Assim mesmo a música caiu nas graças do povo e de Manoel da Silva, o Maneco, dono da marca: “Ao receber a gravação finalizada, seus olhos encheram de lágrimas”, aponta Fábio Barbosa Dias.

Archimedes trabalhou até o final de sua vida. Embora raramente compusesse jingles, dedicou seus últimos anos a colocar melodia nas letras que havia composto ao longo de sua carreira, mas que não teve tempo de musicar por causa do volume de trabalho. O processo de composição seguiu o mesmo: batucando em uma caixinha de fósforo para encontrar a melodia correta para “grudar” nos ouvidos do público.

Messina faleceu ontem deixando dois filhos, três netos e a mulher, Inajá, companheira desde 1962 e com quem era casado desde 1965. Na última sexta-feira, Messina sofreu um aneurisma no fígado em casa e foi internado no hospital Santa Maggiore, na região central de São Paulo. Uma cirurgia estava marcada para esta quarta-feira, mas ele não resistiu. O velório será justamente nessa quarta-feira, na Vila Mariana, em São Paulo.

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