“Consertos e fabricação de bolsas, mochilas e cintos de couro. Trazendo uma mala, ganhe uma consultoria sobre discos voadores na Bíblia”. O inusitado banner está amarrado em um portão branco no número 1437 da Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, em São Paulo. Nesse imóvel azul de dois andares vive Lourival Gomes Navarro, de 58 anos, cuja trajetória de vida soa bastante trivial: nascido em Paraguaçu Paulista, a 469 quilômetros da capital, morou em cidade próximas e se mudou para a capital em 1966. Vive desde 1992 nesse imóvel alugado.  Muita gente que passa em frente à casa dá risada ao ver o cartaz: “Uma vez escutei dois homens comentando a placa e debochando de mim. Abri a janelinha da porta e os chamei para conhecer. Eles deram um grito e saíram correndo de susto…”, diverte-se, embora admita que ele próprio sentiu um mal-estar na sua experiência com os discos voadores. A risada de quem acha tudo isso uma grande bobagem não o incomoda: “O que importa pra mim é a verdade”. Apesar de não se considerar um grande especialista, ele aceita a classificação de ufólogo e, de vez em quando, sai de casa para destrinchar o tema.

O interesse de Lourival pelos discos voadores, cuja data é comemorada em 24 de junho, começou no final de 1999. Ele foi à casa de um vizinho. Eram três pessoas no local e todos ouviram um barulho “como se fosse um chamado para a rua”. “Quem é do interior tem mania de olhar pro céu”, justifica de antemão, já imaginando que terá que explicar por que foi o único a observar uma “frota enorme” de discos voadores no céu à altura dos prédios: “Quando eu olhei para cima eu fiquei extasiado porque passavam várias naves. Eram tão rápidas que eu só via as fagulhas”, recorda. Ele chamou a atenção dos dois colegas, que confirmaram: de fato havia ali uma sequência impressionante de objetos voadores não identificados.

A descrição dos OVNIs que voavam à altura dos prédios é detalhada. A ausência de som impressionou. Passada a “sequência de fagulhas”, vieram outros um pouco mais lentos. O primeiro era um “charutão” prateado de mais ou menos 100 metros de comprimento. Depois vieram discos cinzas na parte de cima e pretos na parte de baixo, que mediam cerca de 50 metros de diâmetro – a descrição é a mesma relatada por alguns livros especializados: “Quando eu cheguei em casa e contei para minha esposa, primeiro ela perguntou o que eu tinha bebido”, brinca. Lourival é casado há 25 anos e tem dois filhos já adultos.

Tudo muito diferente do que se vê nos filmes de ficção científica, garante ele. Embora elogie as produções de Steven Spielberg, ele explica que ter vivido uma experiência real tira a graça dos devaneios hollywoodianos: “Gostaria de ver uma produção sobre os alienígenas e a relação com Jesus”, pede. Enquanto não é atendido, ele aprecia os documentários sobre ETs exibidos pelo History Channel.

Lourival guarda objetos relacionados à extraterrestres

Lourival já acreditava na existência de discos voadores, mas o episódio serviu como estopim para que ele se aproximasse muito mais do tema: “Comecei a estudar e percebi que onde mais havia referências era na Bíblia, só que chamados de “carros de fogo”. Eles estão na história desde o começo do mundo e em todos os países”, acredita. Depois de algum tempo de estudo, resolveu explanar o que aprendeu aos clientes de sua oficina de conserto de malas e bolsas e também a quem mais se interessar.

Um largo e perigoso vão separa a oficina de consertos de uma sala com centenas de revistas e livros sobre ufologia, misturados à fitas VHS de filmes e shows. O passaporte para as aulas sobre religião e ufologia é uma escada caracol laranja, que exige certa habilidade de quem desce por ela. Ao final dos seus degraus encontra-se, do lado esquerdo, a cozinha e a sala, que é onde toda a explicação acontece. Do lado direito, surge uma terceira atividade na vida de Lourival: um pequeno estúdio com instrumentos musicais: “Nada muito profissional, geralmente é só para fazer um ensaio”. Ali está o acervo de objetos relacionados à ufologia, inclusive as réplicas dos discos voadores vistos em 1999, feitas por ele próprio. Junto de recortes de jornais e revistas para os quais ele deu entrevista encontram-se quadros de Jimi Hendrix, que também teve suas experiências com extraterrestres.

Apesar do fascínio pela ufologia, Lourival trabalha consertando e fabricando bolsas e malas

Difícil dizer quantos clientes se interessam pelas aulas, que são dadas de maneira gratuita. O conserto de bolsas também não tem regularidade na clientela: “Ultimamente está meio fraco”, diz ele, que aproveita a fragilidade dos produtos chineses, febre nesse mercado, para aumentar a renda – um conserto relativamente simples, que lhe custe um dia de trabalho, sai por 150 reais. Conserta bolsas há tanto tempo que nem se lembra mais quando foi que começou a trabalhar no ramo em uma pequena loja na Rua São Bento, no centro da cidade. Dorme quase todos os dias a 1 hora da manhã para levantar da cama às 8.

O auge de sua “carreira adicional” aconteceu em 2010, quando Lourival deu uma entrevista para o Programa do Jô. “Foram dois blocos e foi hilário. O Jô tentou me pegar de todo jeito, mas não conseguiu”, gaba-se. “Eu fui bem municiado. O Jô quer levar para o lado do humor e fica legal porque aí o público se diverte e não fica com medo”, elogia. A participação no programa  lhe rendeu alguns telefonemas e a oportunidade de cantar “Prodígio Celeste”, composição feita por ele para relatar sua experiência com os discos voadores. Lourival toca guitarra e já fez parte de uma banda, a Válvula de Escape: “Ultimamente está difícil tocar porque estou com um probleminha na mão direita. Acho que tem a ver com a gota que tenho”, diz ele, que caminha com dificuldade. Ele também atuou na equipe técnica de uma banda que participou do filme “Os Trombadinhas” (1979), protagonizado pelo Rei Pelé.

Quanto à participação global, ele lamenta apenas a concorrência com a Copa do Mundo: naquele dia 28 de junho, o Brasil havia vencido o Chile por 3 x 0 pelas oitavas de final e o “Central da Copa”, programa no fim da noite que analisava as partidas disputadas na África do Sul, empurrou o “beijo do gordo” para as 3 horas da manhã: “Fiquei acordado e o negócio não entrava no ar… Pensei comigo: será que tem alguma conspiração, será que a Igreja Católica mandou tirar do ar?”, conta.

Lourival foi guitarrista de uma banda chamada “Válvula de Escape”

Quem quiser rebater as suas convicções precisa ir preparado à Vila Mariana. Apesar da ligeira gagueira e da fala sempre direcionada ao chão, e nunca aos olhos do interlocutor, o arsenal de argumentos é amparado por frases que vão desde o “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia” de William Shakespeare ao “Meu reino não é desse mundo” de Jesus, registrado no livro de João na Bíblia. O já citado banner no portão chama atenção para o Salmo 68, versículo 17, que diz: “Os carros de Deus são milhares de miríades”.

O ufólogo se declara cristão, mas rejeita seguir qualquer religião de maneira mais séria: “Igreja hoje em dia é centro de roubalheira. Jesus não deixou nenhuma religião. Claro que existem bons católicos, bons evangélicos, mas o centro é tudo roubalheira. E eu não tenho grandes posses, não tenho como ficar bancando esses caras. Todo mundo tem uma Bíblia em casa, pode ler e praticar o que está lá”. Segundo ele, o contato com naves espaciais e os estudos posteriores aumentaram sua fé.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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