Carioca de nascimento, Daniel Azulay estudou em colégios britânicos no Rio de Janeiro, foi alfabetizado em dois idiomas (português e inglês) e descobriu desde cedo a paixão pelos desenhos. Mas foi intimado por um pai rigoroso a cursar cinco “intermináveis” anos de um curso de Direito: “Ele dizia que, depois de terminar a faculdade, eu poderia o que quisesse”, recorda. Para que os cinco anos passassem mais depressa ele fez incontáveis desenhos durante as aulas e, apesar das consequências que o hobby trazia nas notas, concluiu o curso para “nunca mais deixar de fazer o que gosta”.

Com 70 anos completados no último dia 30 de maio, Azulay ainda colhe os frutos e recebe o reconhecimento do público que o acompanhou nos 10 anos em que esteve no ar com a Turma do Lambe-Lambe, exibida nas TVs Educativa e Bandeirantes. Volta e meia ele é abordado na rua por fãs que o acompanharam na infância. Rua, aliás, que ele não dispensa: para se manter em forma, ele caminha, joga tênis e anda de bicicleta. “Não faço mais esporte porque tenho medo de lesões”, confessa. Os exercícios são mais que suficientes para permitir que ele continue bebendo vinho ou cerveja acompanhada de alguns petiscos, sempre com moderação. Com 34 anos de casamento com a esposa Beth, que cuida de sua carreira, ele se prepara ainda para receber o segundo neto de sua única filha, Paloma, que mora em Viena, na Áustria – o primogênito, Baruch Davi, tem 4 anos.

Turma do Lambe-Lambe ficou no ar por 10 anos

Azulay segue desenhando e trabalhando com crianças. Há 15 anos, comanda o projeto social “Crescer com Arte”, que atende comunidades carentes, e realiza oficinas de desenhos. Aos adultos, ele reserva trabalhos de arte contemporânea. Ainda em plena atividade, Azulay não esconde o orgulho do pioneirismo de sua Turma do Lambe-Lambe, uma ideia que surgiu no final de 1975 após um ano desenhando de graça as aulas de história do professor Renato Azevedo no projeto Universidade Sem Paredes, que viria a ser o embrião do Telecurso. No início de 1976 entrou no ar na TV Educativa com uma proposta arrojada de interatividade na tela. Além dos 10 anos no ar, ele retornou outras vezes às telas com sua turma e também em trabalhos humorísticos. Longe da telinha, Azulay completou seus 70 anos impressionado com a repercussão que o próprio nome causou nas redes sociais: “Tenho duas páginas no Facebook e fizeram até uma outra com meu nome e minha foto, mas nem imagino de quem foi a homenagem”, diverte-se ele na entrevista que concedeu ao repórter Leonardo Dahi, do Blog do Curioso.

Você celebrou os seus 70 anos com uma frase do dramaturgo George Bernard Shaw: “Você não para de brincar porque fica velho; você fica velho porque para de brincar”. Qual é o segredo para continuar brincando?
É a curiosidade. Sempre fui curioso e estou sempre descobrindo coisas novas. É viver numa busca infinita por coisas novas, todos os dias. É a vontade de aprender. O meu conselho é que as pessoas façam o que gostam, realizem seus sonhos, mesmo que elas precisem passar um tempo fazendo o que não gostam.

Fizemos uma homenagem ao seus 70 anos em nossa página no Facebook e ficamos impressionados com o tamanho da repercussão causada pelo seu nome. Você também sente esse carinho nas redes sociais?
Essa coisa da rede social… Eu nunca vi nada igual na minha vida. Semana passada, eu estava na rua e as pessoas me davam parabéns, me desejavam muitas felicidades. E eu pensava: “Mas eu não falei para ele que é meu aniversário…”. Claro, as pessoas me conhecem, mas graças à rede social elas sabem que é meu aniversário. Tem histórias divertidas… Eu estava andando pela Quinta Avenida, em Nova York, quando tomei uma gravata no meio da rua… Levei um susto, mas era só um camarada querendo uma selfie: “Daniel, eu te assistia quando eu era pequeno!”. Num restaurante, também nos Estados Unidos, a cozinha era toda de brasileiros e eles vieram tirar foto comigo. Fiquei emocionado! É formidável. Até em cemitério eu já dei autógrafo: fiz um desenho da galinha Chicória apoiado em uma lápide.

Você transitou entre algumas gerações de crianças. Você precisou mudar o seu jeito de trabalhar para atrair a atenção dessa geração mais nova e tão afeita aos celulares e tablets?
Eu olho para o meu neto e para as crianças da idade dele e fico extasiado de observar a naturalidade com a qual eles se vestem, expressam suas ideias e até ensinam os pais a fazerem algumas coisas, principalmente quanto a essas tecnologias. A televisão mudou muito e hoje eu não imagino um programa como o que eu fazia. O YouTube dá de mil a zero! Há uma convergência de mídias e muitas opções. Às vezes nem elas sabem o que querem porque podem passar de um canal para o outro toda hora. Tive que mudar, claro. Quem trabalha com criança precisa entender que cada uma reage de uma forma a todas essas mídias.

Daniel Azulay completou 70 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Nós tivemos nos primeiros anos da TV por assinatura o sucesso muito grande de programas como Mister MakerArt Attack, que tinham uma proposta muito parecida com a que você apresentou lá atrás. Esse sucesso fez com que você se sentisse um pioneiro?
Fui a primeira pessoa no Brasil a fazer um jogo de raciocínio interativo na televisão. A criança com o dedo seguia alguma coisa na tela. Tinha a preocupação de não deixar a criança grudada na tela o tempo todo, então eu fazia essas coisas de tocar na tela eventualmente. Em geral bastava seguir com o olho. O garoto ficava alucinado tentando descobrir onde ia parar minha gravatinha. Criança adora disputas, competições de raciocínio. Era só ligar a televisão, não tinha que pagar nada.

Apesar do sucesso dos canais infantis na TV fechada, os programas para esse público perderam espaço na TV aberta. Por quê?
O que eu ouço é que as emissoras estavam perdendo audiência para a TV a cabo e os games. Então eles acharam muito mais cômodo transportar esse tipo de programação para a TV a cabo e tirar da rede aberta. As emissoras se desinteressaram. A Globo, por exemplo, ficou mais à vontade criando o Gloob e podendo explorar os seus produtos mais comerciais no seu canal. Havia um contraste dentro da programação… Perdeu-se também a sensibilidade de fidelizar o telespectador desde o começo, como se fazia antigamente. As emissoras sempre olharam pelo lado comercial. O que ninguém esperava é que o celular viria ocupar a criança com tanta informação lúdica e tantos joguinhos.

As produções brasileiras também estão perdendo muito espaço para os “enlatados” estrangeiros. Esses programas que vêm de fora cumprem com essa missão de fortalecer o aprendizado da criança ou é preciso criar algo mais brasileiro?
Essa sempre foi a maior pedra no sapato de quem fazia produção autoral. Concorrer com as produções internacionais era um pesadelo. Às vezes, você faz algo de qualidade, mas colocá-la no circuito pode ser tão difícil quanto criá-la. Graças à televisão eu nunca tive essa dificuldade para lançar os meus gibis [A revista “Turma do Lambe-Lambe” foi publicada pela Editora Abril entre 1982 e 1984]. E isso ficou na memória afetiva das pessoas. É algo que você não fabrica, você constrói todos os dias. Eu concorria com Power Rangers, produtos, brinquedos… Mas são personagens efêmeros. Eles causam impacto, mas o tempo de vida é curta. Eu estou aqui, mas ninguém fala mais do He-Man ou dos Power Rangers. A vida de super-herói é cruel! [risos]

Você sente falta de estar no ar e viver o dia-a-dia da TV?
Não sinto, não. Tem tantas outras coisas… O que eu sinto falta é de tirar as crianças da passividade. O programa era incompleto porque ele se completava com a interação da criança. Aquilo entrava no desenvolvimento do raciocínio dela e ia revelando a certeza de que ela era capaz. É por isso que muitas vezes eu escuto: “Descobri que tinha potencial vendo o seu programa”. Isso é emocionante.

Gibis da Turma do Lambe-Lambe foram publicados entre 1982 e 1984

Você já encontrou algum desenhista profissional que tenha começado a desenhar assistindo aos seus programas?
Vários. O Cléberson Sarema, que trabalhou com o Maurício de Sousa, por exemplo. Fiz um desenho animado, um vídeo educativo e um gibi para a campanha da Lei Seca e, depois que o trabalho ficou pronto, descobri que a maior parte da equipe começou a desenhar assistindo ao meu programa.

Além de desenhista, você desempenhou um papel de educador e acompanhou o processo que transformou um país mais alfabetizado, mas que ainda está longe do ideal quando se fala de educação. Qual a sua avaliação sobre a situação do país na educação?
Eu acompanhei, por exemplo, a criação do MOBRAL, projeto do professor Paulo Freire. O Brasil já foi muito menos alfabetizado, o que não significa que esteja bom. A crise econômica afetou essa área, como afetou a saúde, a segurança… Você vê: o Brasil está sem ministro da Cultura! Sai um, não tem quem entre no lugar. Na época da presidente Dilma Rousseff, tivemos o “Pátria Educadora”, que foi uma falácia, porque não houve nenhum investimento. O Brasil não tem uma política de desenvolvimento sustentável em área nenhuma. Há uma ironia: vivemos num país que pode ser considerado bem informado, onde a informação chega para todos, mas com uma desigualdade social tremenda. Na minha época de televisão, eu brincava: a gente contava com satélites e antenas retransmissoras, mas não tinha uma vassoura para varrer o estúdio. O Brasil tem esse contraste. O Brasil cresceu, se desenvolveu, mas talvez a gravidade da falta de investimentos na área de educação tenha aumentado. É importante também lembrar aos pais que eles são insubstituíveis nesse processo de formação das crianças.

 

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