Grande parte da história da música norte-americana está intimamente ligada aos tempos da escravidão. Os negros vindos da África encontraram em seus batuques uma forma de resistência. Vendo os tambores como potenciais catalisadores de revoltas entre seus dominados, a elite branca dos Estados Unidos resolveu proibir os instrumentos musicais entre os negros no fim do século XIX. Não foi o suficiente. Os escravos passaram a usar até washboards, as antigas tábuas de lavar roupa, para fazer música.

Hoje em dia ninguém mais usa essas tábuas para lavar roupa, mas a utilidade musical segue em alta no mundo todo. “É parecido com o reco-reco porque você pode tanto bater quanto raspar”, compara Lumineiro Salve Salve, nome artístico do músico de 32 anos, nascido em Belo Horizonte (ele não revela seu verdadeiro nome), grande divulgador do instrumento.

Lumineiro Salve Salve: artista circense e tocador de washboard

Em 2009, Lumineiro chegou a São Paulo e dividiu uma casa com amigos, todos do meio artístico: “Fazíamos muitas coisas lá. Eu sou malabarista, os outros eram artistas plásticos, músicos… Foi ali que eu descobri a washboard“, recorda ele. Em 2010, os amigos fundaram uma banda chamada Mustache & Os Apaches e coube a Lumineiro Salve Salve tocar o instrumento. “Nós nos apresentamos somente na rua. Até 2013 fazíamos shows de quarta a domingo, mas agora temos feito apenas esporadicamente, quando todo mundo está livre no domingo de amanhã”, explica ele, que ainda é artista circense.

Mustache & Os Apaches, a banda de Lumineiro Salve Salve: apresentações na rua desde 2010

Ele lembra bem do choque que causou nas primeiras vezes que foi para as ruas com a novidade: “Algumas pessoas conheciam, mas muitas achavam que era uma invenção minha”, recorda. Definitivamente não foi. No Brasil, os primeiros registros de apresentações com as washboards vêm de 1962, quando o músico Tito Martino, da Tradictional Jazz Band, fabricou a primeira delas. “Conheci a washboard como um instrumento exclusivamente de jazz porque estudo e ouço gravações originais do ritmo há 60 anos”, recorda Tito. Coube ao músico Sasha Kliass tirar o som dessa novidade: “Nos primeiros ensaios da banda, ele se revelou um fracasso porque só tocava samba e ritmos populares. Então eu ofereci a ele tocar a washboard porque é um instrumento que, se mal tocado, interfere menos do que a bateria. Ele estudou, se especializou e tocou muito bem”, elogia. Tito Martino recorda que a Tradictional Jazz Band usou Sacha Kliass como washboardista de 1964 e 1974 e a resposta foi bastante positiva: “O público se encantou com essa novidade que nunca havia sido vista no Brasil”, lembra.

Apesar da história de mais de 50 anos, as washboards passam longe de ser populares no país: “Ainda é muito difícil encontrar”, lamenta Lumineiro. Em média, elas custam de 400 a 500 reais, mas ainda não há no Brasil uma produção em larga escala. Aprender a tocar com um professor, então, é impossível. “Eu fui auto-didata. Meu caminho foi mais difícil porque eu aprendi a tocar antes de aprender percussão ou bateria”, conta o músico. Ele recomenda justamente estudos de percussão para entender melhor o instrumento: “Cada músico pode incrementar como quiser. Já vi washboards com latas, buzinas, campainhas”, prossegue Lumineiro.

A Tradictional Jazz Band: Sacha Kliass é o primeiro sentado da esquerda para a direita

O grupo de entusiastas do instrumento pode ser pequeno, mas Lumineiro Salve Salve vê um movimento crescente no país – e especialmente em São Paulo. Em janeiro, ele promoveu o 1º Encontro de Washboards. Foram 11 músicos recrutados, o que o incentivou a repetir a dose em fevereiro: “Como foi bem no meio do Carnaval, tivemos menor adesão. Foram sete, mas recebemos gente de Campinas, o que foi bem legal”, comemora. A ideia é fazer uma terceira edição ainda este ano.

(Fotos: Acervo pessoal de Lumineiro Salve Salve e Tito Martino)

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