Hoje, 26 de abril, é o Dia do Goleiro. A mais ingrata das posições consagra heróis e cria vilões ao longo dos anos. Não dá pra negar que se trata de um jogador diferente. Além de ser o único que pode usar as mãos, tem toda uma vestimenta especial: a camisa, sempre de outra cor, costuma ter mangas longas, assim como as calças. Além disso, hoje em dia todo goleiro calça um par de luvas para entrar em campo.

Fiz um grande achado recentemente na internet. Comprei um exemplar do livro “Who Invented the Bicycle Kick?”, dos jornalistas Paul Simpson e Uli Hesse, lançado em 2013. Simpson é editor da Champions, revista oficial da UEFA Champions League, e Hesse escreveu também Tor!, livro que conta a história do futebol alemão. Entre as diversas histórias curiosas, destaco a do primeiro goleiro a usar luvas.  Os dois dão o crédito ao goleiro Heiner Stuhlfauth, que defendeu o Nuremberg e também a Seleção da Alemanha na década de 1920. O livro reproduz uma frase bem espirituosa de Heiner: “Quando estava chovendo, eu usava luvas de lã áspera e a bola molhada se prendia muito melhor nas minhas mãos. A vida me ensinou que não dá para pegar uma enguia com as mãos nuas”.

heiner stulhfauth

O alemão Heiner Stuhlfauth é considerado o primeiro goleiro a usar luvas. E elas eram de lã

Na mesma época, segue a obra, o espanhol Ricardo Zamora raramente entrava em campo sem luvas de lã, embora os autores acreditem que, no caso dele, se tratasse mais de uma vaidade. Zamora considerava as luvas parte de um modelo de etiqueta que deveria ser seguido pelos homens.

A história conta que o primeiro brasileiro a usar uma luva em campo foi Jaguaré Bezerra de Vasconcelos. Em 1931, ele foi vendido do Vasco para o Barcelona, da Espanha.  “Na sua estreia na Europa, Jaguaré usou luvas feitas de couro”, conta Paulo Guilherme, autor do livro “Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1”.  “Só que ele não estava preocupado com a melhora de seu rendimento, apenas não estava acostumado com o frio.”

Jaguaré, com o uniforme do Vasco da Gama.

Jaguaré, do Vasco: luvas para espantar o frio de Barcelona

Stulfahth e Zamora foram seguidos depois por dois goleiros que ficaram famosos por usar luvas, nos anos 1940: o inglês Charlton’s Sam Bartam e o argentino Amadeo Carrizo. No River Plate, Carrizo, de 1,90 metro, dizia que as luvas eram importantes para absorver calor. Seus lançamentos com as mãos tinham a força e a precisão daqueles que faziam isso com os pés, proclamavam os cronistas esportivos de então.

Amadeo Carrizo usando luvas para defender o ataque.

O argentino Amadeo Carrizo, do River Plate, usava luvas de algodão na década de 1940

Os dois não usavam o acessório o tempo todo. Há registros fotográficos de Bartam e Carrizzo com e sem as luvas. O goleiro soviético Lev Yashin, o “Aranha Negra”, trocou os modelos de lã pelos de couro. Depois da final do futebol nos Jogos Olímpicos de 1956, quando conquistou a medalha de ouro,  Yashin presenteou o goleiro Petar Radenkovic, da Iugoslávia, com um par de luvas usado.

Nenhum  modelo, porém, se espalhou com tamanha força como o usado pelo arqueiro alemão Sepp Maier nos anos 1970. Elas eram feitas de borracha e tinham um estofamento para proteger as mãos. Maier estava com uma toalha na mão e, ao tentar agarrar uma bola, percebeu que suas mãos tinham muito mais firmeza na ação. As luvas eram imensas. O goleiro colaborou com Gebhard Reusch, herdeiro da fábrica pioneira Reusch e, já em 1973, a empresa produziu uma luva própria para goleiros com o nome de Maier.

O Blog do Curioso aproveitou o tema para preparar uma linha do tempo contando um pouco mais dessa história:

Final do século XIX
De acordo com registros do Escritório de Patentes da Alemanha,  William Sykes, fabricante de artigos para futebol, registrou a primeira patente de luvas para goleiros. Segundo o projeto, elas seriam feitas de couro, com camadas de borracha indiana, para proteger as mãos do goleiro. A ideia nunca saiu do papel.

Década de 1920

Heiner Stuhlfauth, goleiro do Nuremberg e da Seleção Alemã, começa a usar um par de luvas de lã em dias de chuva.

1934
O primeiro modelo de luvas para esportes foi desenvolvido pelo alemão Karl Reusch para a marca que leva seu sobrenome. O par de luvas – cuja intensão era proteger as mãos das baixas temperaturas – foi costurado à  mão em sua casa, na cidade de Reutlingen. Reusch tinha grande amor pelos detalhes e  muita preocupação em desenvolver um produto inovador.

Karl Reusch, fundador da marca Reusch e criador da primeira luva de goleiro.

Karl Reusch, fundador da marca Reusch e criador da primeira luva esportiva

Década de 1960
Em 1966, as luvas Reusch estrearam num jogo oficial nas mãos do goleiro Wolfgang Fahrian, do 1860 Munique. Fahrian, que defendeu a Alemanha Ocidental na Copa de 1962, participou do projeto. Foi ele quem começou a cortar pedaços das borrachas das raquetes de tênis de mesa para colar  nas luvas. Fahrian foi o primeiro a testar a aderência da borracha. A palma de borracha era granulada, exatamente como uma raquete de tênis de mesa. Até o início da década de 1990 ainda era possível encontrar esse modelo no mercado.

Wol

Wolfgang Fahrian: testes com borrachas das raquetes de tênis de mesa

A Uhlsport, outra marca alemã de artigos esportivos, começou a produzir luvas específicas para goleiros em 1968. A indústria brasileira lançou seus primeiros modelos no final da década de 1960, mas ainda sofria resistência por parte dos goleiros.

Década de 1970
Na Copa do México, em 1970, o goleiro brasileiro Félix resolveu que não iria usar luvas. Os pares que levou estavam desgastados, as luvas vendidas no México tinham pouca flexibilidade e ele não estava tão adaptado assim ao novo acessório. Félix jogou as cinco primeiras partidas assim. “Na final, os jogadores queriam que ele mantivesse a tradição que vinha dando certo, mas Félix resolveu provar para o mundo que sabia jogar de luvas também”, narra o jornalista Paulo Guilherme.  As luvas eram de couro com tiras de látex ou borracha. Onde encontrar luvas para Félix? A resposta veio de Buenos Aires. Amadeo Carrizzo tinha uma fábrica de luvas na capital argentina. Um funcionário da embaixada brasileira comprou quatro pares e as enviou por avião ao México a tempo de Félix vesti-las na final.

Félix fazendo uma defesa na final da Copa de 1970, com luvas.

Félix fez um único jogo com luvas na Copa de 1970

Sepp Maier brilhou na Copa de 1974, jogando em casa, com uma luva de couro com tiras de látex nas palmas. “O material é mais resistente e dá mais estabilidade ao desempenho do goleiro”, aplaude Vander Bastitella, criador da Escola de Goleiros, em Americana (SP). Mesmo não sendo favorita, a Alemanha de Maier venceu a Holanda e ficou com o título.

Sepp Maier com luvas Reusch na Copa de 1974, jogando em casa.

Sepp Maier ganhou sua marca em parceria com a empresa alemã Reusch

Nas décadas seguintes, o mercado se especializou nas luvas de alto rendimento. “Ela se tornou um instrumento importantíssimo para que os goleiros consigam melhorar seu desempenho dentro das partidas”, afirma Paulo Guilherme. As principais tecnologias desenvolvidas foram a APG, Adesive Power Grip – que permite a sensação de cola na palma da mão, aumentando a aderência da luva com a bola – e a Fingersave – criada pela Adidas para proteger os dedos de machucados.

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