O cantor Evaldo Braga teve uma carreira daquelas chamadas meteóricas. Aos 25 anos e com apenas dois LPs gravados (ambos de estrondoso sucesso), o fluminense de Campos dos Goytacazes morreu em um acidente de carro na rodovia BR-3, na altura da cidade de Areal (RJ), no dia 31 de janeiro de 1973. Vivendo o auge da fama, perdeu a vida de maneira repentina. Canções como “Sorria, Sorria” se perpetuaram na história da Música Popular Brasileira, mas o nome de Evaldo caiu em progressivo esquecimento.

Imagem de Amostra do You Tube

Coube a Gonçalo Júnior, biógrafo baiano radicado há 20 anos em São Paulo, relembrar a rápida e marcante passagem do cantor pelo estrelato da música brasileira. O próprio título do livro – “Eu não sou lixo – A trágica vida do cantor Evaldo Braga” – é uma forma de definir o homenageado: “O “Eu não sou lixo” é uma referência a uma das músicas de maior sucesso dele. Também é uma resposta aos editores que não quiseram publicar a obra. Fui a 11 editoras e ouvi que ninguém se interessaria”, cutuca. Agora publicado pela Editora Noir, Gonçalo resume: “O livro não é um lixo, a música brega não é um lixo e o Evaldo não era um lixo. Muito pelo contrário, era um grande cantor”.

“Eu não sou lixo – A trágica vida de Evaldo Braga” foi lançado pela Editora Noir

A música “Eu não sou um lixo” não trata de nenhuma histórica específica vivida por Evaldo, mas o título faz referência à sua infância sofrida. Braga era órfão de pai e mãe e foi criado em um orfanato até os 18 anos. Depois que ficou famoso, saiu em busca de sua mãe biológica: “Essa era uma verdadeira obsessão dele”, conta Gonçalo. “Ele chegou a dizer que só queria o sucesso para encontrar a mãe”. Um morador de Campos dos Goytacazes afirmou ter conhecido uma prostituta cujas características “batiam” com as que o cantor sempre descrevia. Essa prostituta teria jogado um bebê (supostamente Evaldo) na lata do lixo. Foi aí, segundo o seu biógrafo, que ele teve o estalo de batizar a música dessa forma.

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A mãe nunca foi encontrada (concursos chegaram a ser realizados e várias “mães” apareceram, mas nenhuma foi convincente em sua narrativa) e Evaldo seguiu sua vida. O início de carreira não foi fácil. Ele começou como divulgador de artistas como Lindomar Castilho e Nilton César. Dessa forma, passou a percorrer redações de rádio, jornal e TV. “Ele se tornou amigo do Roberto Muniz, da Rádio Globo, e o Roberto o levava ao Programa do Chacrinha. Sempre que algum astro faltava, o Evaldo entrava para cantar as músicas dos artistas que ele divulgava. Assim, acabou ele próprio se promovendo também”, recorda Gonçalo.

No caminho até o primeiro LP, lançado em agosto de 1969, outros percalços apareceram. Um deles foi com “Última Canção”, o maior sucesso do cantor Paulo Sérgio. Pois quem estava com o gogó pronto para dar voz a esta música era justamente Evaldo Braga. “Paulo Sérgio e seu produtor viram o Evaldo gravando nos estúdios de uma gravadora chamada Caravelle e na hora perceberam que a música seria um sucesso”, narra o biógrafo. O produtor teria, então, oferecido ao autor da música, Carlos Roberto Nascimento, outras seis músicas no álbum de Paulo Sérgio desde que fosse ele, e não Evaldo o intérprete de “Última Canção”. “Muitos anos depois o Paulo Sérgio foi perguntado em uma entrevista se já havia pisado na cabeça de alguém. Ele disse que não, mas que outras pessoas haviam pisado por ele”, reforça Gonçalo.

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Uma curiosidade sobre a carreira de Braga envolve uma parceira de composição: Carmen Lúcia. Ao longo dos anos muitas teorias foram inventadas sobre quem era esta compositora, mas a história desvendada por Gonçalo Júnior é bem simples: Carmen era a filha de Roberto Muniz. Portadora de síndrome de down, ela perdeu o pai poucos meses antes de Evaldo gravar seu primeiro álbum. Como forma de gratidão ao amigo que tanto impulsionou a carreira, o intérprete colocou Lúcia como sua parceira.

Apesar do sucesso estrondoso na virada da década de 1960 para 1970, Evaldo praticamente não fazia shows: “Ele era um gênio do marketing pessoal. Dizia que iria focar na televisão porque era lá que se construía o sucesso”, aponta Gonçalo. “Só no ano de 1971 ele foi quase 40 vezes ao programa do Chacrinha e 30 no do Sílvio Santos”, prossegue. Nos últimos meses de vida, ele passou a subir aos palcos. Eram cerca de 70 apresentações por mês.

Evaldo Braga receberia um disco de ouro pelo álbum “O ídolo negro – Volume 2”

No dia de sua morte, Evaldo Braga vinha de dois shows em Belo Horizonte. Ele precisou cancelar uma apresentação em uma cidade próxima para ir ao Programa do Chacrinha mais uma vez. O motivo era especial: ele receberia um disco de ouro por ter vendido os primeiros 100 mil discos de “O ídolo negro – Volume 2”. No caminho para o Rio de Janeiro, ele, o motorista Arley Moreira e o empresário Paulo César Santoro pararam na cidade de Três Rios (RJ). Cerca de 40 minutos depois de voltarem para a estrada, o carro onde estavam perdeu o controle em uma curva e se chocou com uma carreta. Arley e Evaldo morreram assim que chegaram ao hospital, enquanto Santoro resistiu até o dia seguinte.

Sem filhos ou qualquer herdeiro, Evaldo vendeu entre 1 milhão e 2 milhões de discos e deixou uma quantidade considerável de dinheiro em direitos autorais. Carmen Lúcia naturalmente arrecadou uma parte como parceira, mas os fundos que diziam respeito a Evaldo tiveram paradeiro desconhecido. À época, a gravadora afirmou que doaria tudo a um orfanato que o cantor ajudava e para a Fenabem, depois Febem e hoje Fundação Casa. Se isso foi feito de fato, não se sabe. Tempos depois, surgiu um suposto irmão. Para Gonçalo Júnior, a história contada por este homem não bate com a realidade: “Ele diz ter conhecido o Evaldo, mas nasceu dois anos depois de sua morte”. O homem entrou na Justiça para tentar ser reconhecido como irmão do cantor.

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