O cantor Ronnie Von estava em alta no final da década de 1960. Se Roberto Carlos era o “rei”, o fluminense de Niterói ganhou o apelido de “príncipe”, ideia da apresentadora Hebe Camargo ainda no início de sua carreira musical. Ele enlouquecia as fãs com os cabelos lisos e os olhos verdes. Parecia mesmo “O Pequeno Príncipe”, personagem criado pelo escritor francês Antoine de Saint-Exupéry. O sucesso musical aliado à estética apreciada pela maior parte do público só poderiam mesmo colocar Ronnie no caminho de Carlos Imperial. O produtor artístico estava entre os compositores mais aclamados da Jovem Guarda. Diretor do programa “O Bom”, na TV Excelsior, ele compôs para Erasmo Carlos, Wilson Simonal e muitos outros, figurando sempre nas paradas de sucesso.

LP de “A praça” está completando 50 anos

Além de compositor, Imperial era antes de tudo um grande promotor de seus trabalhos. Para catapultar as vendas dos LPs, ele inventava histórias, forjava brigas e alimentava a imprensa com boatos que sempre envolviam suas composições. Foi justamente por causa desse tino comercial que ele escolheu o cantor da moda para gravar sua nova música: “A Praça”. Ele apostou nos apelos estéticos de Ronnie Von para emplacar mais um sucesso.  “Por mais que ele sempre quisesse o Ronnie, ele soltou na imprensa que havia uma fila de cantores querendo gravar”, conta Denilson Monteiro, autor de “Dez! Nota Dez! Eu sou Carlos Imperial”, biografia lançada pelo Editora Planeta.

A música narrava o discurso de um apaixonado na praça onde se encontrava com a amada que lhe havia escapado. O refrão se tornaria conhecido por quase todo o Brasil nas décadas seguintes: “A mesma praça, o mesmo banco / As mesmas flores, o mesmo jardim / Tudo é igual, mas estou triste / Porque não tenho você / Perto de mim…”. Dizia Imperial que a inspiração havia sido a Praça Jerônimo Monteiro, em Cachoeiro do Itapemirim (ES), cidade onde ele nasceu (Roberto Carlos também, por sinal).

Praça Jerônimo Monteiro, em Cachoeiro do Itapemirim (ES), teria servido de inspiração para Carlos Imperial

A letra original, aliás, foi alterada por sugestão da cunhada de Imperial. Ele levou o trabalho para a família analisar e Maria, mulher do irmão Francisco, reparou que havia um pleonasmo no verso “A gente vai crescendo, fica grande e o tempo passa”. Ela sugeriu que o “vai crescendo” fosse repetido e Imperial aceitou. Assim, o verso se transformou em “A gente vai crescendo, vai crescendo, e o tempo passa”.

O encontro de Ronnie Von com “A Praça” foi de responsabilidade do apresentador José Paulo de Andrade, que o entrevistaria em seu programa na Rádio Bandeirantes: “O Imperial veio para São Paulo e deixou aqui uma fita com a música”, contou José Paulo ao programa “Você é Curioso?”. “Era uma pessoa cativante, o típico “milongueiro”, tinha aquela conversa na qual o carioca é mestre e pediu a mim e ao Fernando Solera que mostrássemos a ele”.

A princípio, não deu certo. “Eu era mais rock’n roll, Beatles… O José Paulo me levou para o departamento de jornalismo da emissora e mostrou. Era bonitinha, mas achei que não era pra mim”, afirma Ronnie Von. Para sorte de Carlos Imperial, José Paulo de Andrade não aceitou o “não” com tanta facilidade: “Eu disse que não gostei e ele me disse que seria um sucesso. Acabei gravando muito pela pressão do José Paulo. Ele tinha o programa de maior audiência da Bandeirantes e eu já saí dali mais ou menos convencido”, admite o cantor. Assim foi feito e em 20 de abril de 1967 o disco com a nova música foi lançado pela gravadora Pollydor.

Imagem de Amostra do You Tube

Ainda que a simples presença do “príncipe” já fosse suficiente para impulsionar “A Praça” – a ponto de vender 40 mil LPs em apenas 15 dias -, Imperial não estava satisfeito e decidiu aprontar mais uma das suas. O produtor apelou para um amigo do Morro do Pavãozinho, colado na praia de Copacabana. Aroldo Santos compunha sambas e sempre pedia a ajuda de Imperial para emplacar alguma coisa. Dessa vez, ele estava disposto a ajudar, desde que Aroldo fizesse parte de sua nova armação.

A ideia era simples: os dois iriam juntos a programas de TV de sucesso, como o “Programa Flávio Cavalcanti” da TV Tupi, onde o desconhecido sambista denunciaria que o compositor famoso roubou “A Praça”. Reivindicando o posto de verdadeiro autor da música, Santos virou tema nas rodas de conversa em todo o Brasil. Imperial aceitou pagar o preço de ser considerado um ladrão para ver a composição sendo discutida (e consequentemente consumida) em proporções fantásticas para a época. “O número de vinis vendidos superou o número de vitrolas que existiam na época. Foi o meu maior sucesso comercial”, orgulha-se Ronnie.

Carlos Imperial inventou armação para promover “A praça”

O alvoroço foi tão grande que apareceram outros dois músicos (um do subúrbio do Rio de Janeiro e outro de Arcos, em Minas Gerais) contando cada um uma história à revista “O Cruzeiro”, a principal revista brasileira da época. Cada um reivindicava a si, e não a Carlos Imperial ou Aroldo Santos, a autoria do sucesso. O responsável por toda essa confusão brincou: “Comecei pagando um cara para ser dono da minha música, mas agora estão aparecendo outros para fazer isso de graça. Vou parar de pagar o cara”.

As polêmicas não pararam por aí. Em 1966, a TV Record realizou o II Festival Nacional da Canção, um sucesso da época. Venceu Chico Buarque com “A Banda”, e Geraldo Vandré, com “Disparada”. “A Banda” havia caído nas graças do país inteiro e até de intelectuais como Carlos Drummond de Andrade. A canção narrava a história de um casal que via uma banda passar por uma cidade toda enfeitada e dizia que “o que era doce acabou / tudo tomou seu lugar / depois que a banda passou”.

Imagem de Amostra do You Tube

Parece familiar? Lançada depois de “A Banda”, “A Praça” foi acusada de ser uma versão menos inspirada da música de Chico. E mais: Frank Sinatra cantou no LP “Songs for Swingin’Lovers” uma música chamada “Makin’ Whopee”, que dizia: “Another bride, another june / Another sunny honeymoon / Another season, another reason / For makin’whoopee”. Em tradução literal: “Outra noiva, outro junho / Outra lua de mel ensolarada / Outra estação, outro motivo / Para fazer uma folia”. Para alguns críticos, a construção da letra e da melodia tinham muitas características semelhantes com as de “A Praça”.

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Acusado de plágio e roubo, Imperial não ligava. “Ele sempre falava que preferia ser vaiado em um carro chique do que aplaudido em um ônibus lotado”, diverte-se Ronnie. O “Impera” rejeitava as acusações dizendo que era tudo coincidência e seguia fazendo a venda dos LPs dispararem. Wilson Simonal, Francisco Petrônio e muitos outros gravaram a música também.

Imagem de Amostra do You Tube

Em 7 de maio de 1987, o SBT levou ao ar pela primeira vez o novo  programa humorístico “A Praça é Nossa”, adaptação da “Praça da Alegria”, criada por Manoel de Nóbrega e comandada pelo filho dele, Carlos Alberto de Nóbrega. O tema de abertura escolhido foi justamente “A Praça” e assim é até hoje, garantindo à música que Ronnie Von em um primeiro momento não quis gravar uma longa vida na memória dos brasileiros. O que se conta é que Imperial cedeu os direitos da canção gratuitamente para a emissora de Silvio Santos.

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