A história de Toby Little lembra uma passagem muito divertida de minha infância. Por isso, vou contar a história dele primeiro e depois conto a minha.

Era 16 de junho de 2013. Toby tinha apenas 5 anos e estava no fim do primeiro ano escolar quando leu o livro A Letter to New Zeland. A publicação mostrava a trajetória de uma carta saída da Inglaterra, país de Toby, até a Nova Zelândia. Quando viu no mapa a distância entre os dois lugares, perguntou para a mãe, Sabine, se poderia escrever uma carta para algum neo-zelandês. Diante da resposta positiva, ousou: posso escrever uma carta para cada país do mundo?

Toby Little posa com a versão original de “Querido mundo, como vai você?”

Nascia assim o livro Querido mundo, como vai você?, publicado no Brasil no início deste ano pela Editora Fontanar. Diante da lista de 193 países filiados à ONU, Toby colocou a mão na massa. À mãe, coube apelar para as redes sociais na tentativa de encontrar contatos em cada um dos países. Para facilitar, ela criou um site onde publicava as cartas e recrutava novos destinatários. Depois, veio uma página no Facebook. Em pouco tempo, o projeto explodiu em popularidade e os interessados chegaram aos montes.

A primeira carta, ainda na etapa mais difícil do processo, foi enviada para o Havaí, um dos 50 Estados que compõem os Estados Unidos, e endereçada a uma garota chamada Patrícia, encontrada por meio de amigos em comum de Sabine. “Oi, Patricia, Como vai? É verdade que você mora numa cidade chamada Volcano? Bem que eu gostaria de morar aí. Tchau, Toby”, escreveu ele em cerca de meia hora. A resposta não demorou: “Querido Toby, eu moro na ilha grande do Havaí, no Estado do Havaí. Temos aqui um vulcão ativo e uma montanha que fica nevada no inverno. Obrigada por sua linda carta. Aloha, Patricia”.

De lá pra cá, foram outras 1.162 cartas, sendo que 485 já foram respondidas. A missão, no entanto, foi cumprida faz tempo. Em outubro de 2013, ele enviou uma carta para San Marino, o país que faltava para completar a lista. A “viagem sem sair de casa”, como define a mãe no prefácio da obra, levou Toby a conhecer diferentes culturas, hábitos e costumes, mas também trouxe “efeitos colaterais”: desde que o projeto começou, qualquer tragédia natural ou guerra no mundo causa um sofrimento maior ao garoto, já que ele conhece pelo menos uma pessoa em cada país eventualmente atingido.

Outra grande personalidade que recebeu atenção de Toby foi o Papa Francisco. “Sua Santidade, Como vai? Eu me chamo Toby e tenho cinco anos. Estou escrevendo para uma pessoa em cada país do mundo para aprender coisas sobre o mundo, ajudar as pessoas a se entenderem e fazer do mundo um lugar melhor. Como é ser papa? Como o senhor sabe que Deus existe? Tudo bem se a gente não acredita em Deus, mas é uma boa pessoa? O senhor sente saudade da Argentina? Tchau, Toby”.

As perguntas para o Papa saíram com a maior naturalidade e, apesar de não respondidas, receberam um retorno: “Sua Santidade, o papa Francisco, ficou contente de receber sua amável carta e me pediu para lhe agradecer. O Santo Padre rezará por você e sua família. Ele roga a Deus que o cubra de abundantes bênçãos. Monsenhor Peter B. Wells Assessor”.

No Brasil, as curiosidades de Toby envolvem um dos cantores símbolo da cidade de São Paulo: Adoniran Barbosa. “Querida Luna, Como vai? Você se chama Luna por causa da Luna Lovegood (de Harry Potter)? Qual é o seu lugar favorito em São Paulo? Qual é a sua profissão? O que é a Festa do Figo? Você já foi? Você escuta Adoniran Barbosa? Eu gosto dele. Tchau, Toby”.

Luna respondeu: “Oi, Toby! Como vai? Estou muito feliz de ser uma das muitas pessoas do mundo inteiro que se correspondem com você. Eu não me chamo Luna por causa da Luna Lovegood. Nasci alguns anos antes de serem escritos os livros da série Harry Potter (…) Acho que o meu lugar favorito em São Paulo é o Parque do Ibirapuera. Você já viu fotos desse parque? Ele é muito grande e fica bem no meio da cidade, mais ou menos como o Central Park, em Nova York (…) Sou farmacêutica e trabalho com cosméticos (…) A Festa do Figo faz parte do “Circuito das Frutas”, que é formado por dez cidades, cada uma delas famosa pela produção de determinada fruta. Valinhos é a cidade do figo! Assim, em janeiro, temos a Festa do Figo (…) Fico contente em saber que você gosta do Adoniran Barbosa. Ele foi um grande cantor e compositor. Todo mundo aqui no Brasil sabe cantar pelo menos uma canção dele (…) Acho que “Trem das onze” é a mais famosa. Espero que um dia você tenha a oportunidade de vir ao Brasil! Do Brasil com carinho, Luna”.

Toby posa com as lembranças do Brasil: foram 26 cartas

Toby continua escrevendo suas cartas. Só para o Brasil vieram outras 25. A próxima terá como destino a cidade de Morgane, na Bulgária.

Ah, fiquei devendo a minha história. Aos 10 anos, eu me tornei filatelista e tinha o sonho de ter ao menos um selo de cada país do mundo. Frequentava as lojas filatélicas do centro de São Paulo e também a Feira da Praça da República (aos domingos), mas faltavam muitos. Foi aí que tive a ideia de escrever para o Itamaraty, em Brasília, e pedi os endereços das embaixadas do Brasil no exterior. Recebi um caderninho com todas as informações, incluindo os nomes dos embaixadores e dos adidos culturais, que viraram meu alvo. Escrevi para quase 50 delas. Menos da metade me respondeu, é verdade. Mas era uma grande alegria quando as cartas chegavam com selos – tanto dentro quanto fora do envelope. Todos me ajudaram muito na minha coleção.

(Fotos: Divulgação)

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