“Eu posso construir um disco voador sozinho”, garantiu o alemão Jacob Johannes Starzicny, preso na Penitenciária do Distrito Federal, no Rio de Janeiro. Ele chegou ao Brasil em 1941 com um registro dinamarquês e o nome de Niels Christensen. Tratava-se de um espião nazista que, depois de capturado, tentou convencer as autoridades de que poderia construir discos voadores.

O interesse pela ufologia estava em alta, mas ninguém deu bola: “Os brasileiros sabiam que era impossível alguém fazer isso sozinho. Na época, acreditava-se que só as grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, poderiam desenvolver um projeto como esse”, explica Rodolpho Gautier, que contou essa história em sua tese de mestrado em história cultural pela Unicamp. “A invenção dos discos voadores” se transformou em livro lançado pela Alameda Editora e revela essa e várias outras histórias envolvendo o interesse histórico de autoridades, opinião pública e imprensa na ufologia, especialmente nas décadas de 1940 e 1950.

A história de Starzicny no Brasil começa em abril de 1941. Ele foi enviado para cá pelos nazistas com o codinome de “Lucas” ou eventualmente de “Lukassen”. Disfarçado de dinamarquês, ele se instalou na cidade de Santos (SP) e seguiu a vida como Niels Christensen: “Não se sabe se o nome real dele era de fato Jacob Johannes Stazicny. Isso é o que ele alegava, mas uma característica desses espiões era criar vários nomes diferentes”, conta Gautier. O alemão tinha larga experiência como engenheiro eletrônico e veio com a missão montar estações de rádio que interceptassem as conversas dos navios estrangeiros que aportavam na cidade. “Ele montou uma grande rede de rádio e, com os sinais emitidos para a Alemanha, várias embarcações estrangeiras e brasileiras foram atacadas e afundaram”, recorda Rodolpho.

Porto de Santos era alvo dos nazistas

Com o número de ocorrências acima do normal, as autoridades passaram a investigar os naufrágios e descobriram que havia uma rede emitindo sinais de rádio diretamente para Hamburgo. Christensen, no entanto, seguia fora de qualquer suspeita. O “espião apaixonado”, como era conhecido, vivia muito bem com uma namorada gaúcha, Ondina Baptista Peixoto de Oliveira, e tinha uma vida razoavelmente confortável.

A história mudou de vez quando Niels foi até uma loja de artigos para rádio: “Ele pediu uma peça muito específica e o dono, desconfiado, perguntou de onde ele era. Ele disse que era português, mas o sotaque alemão era muito carregado e o dono da loja comunicou a Polícia”, explica Gautier. Descoberto, Starzicny foi condenado a 30 anos de prisão em março de 1942. Documentos descobertos em sua casa ajudaram as autoridades brasileiras a prender outros espiões nazistas. Algum tempo depois esses detentos começaram a ser liberados. Os advogados baseavam a argumentação no fato de que a lei anti-nazista havia sido decretada depois das prisões. Starzicny, no entanto, continuava lá, preso.

Espião alemão prometeu construir disco voador em 90 dias

Segundo Rodolpho Gautier, “ele dizia que o processo estava guardado na gaveta do Superior Tribunal Federal”. Com isso e com o projeto da construção do disco voador, ele chamou a atenção da imprensa e deu várias entrevistas onde explicava todo o plano. Segundo ele, que alegava ter se alistado voluntariamente aos nazistas, uma miniatura havia sido testada com sucesso três meses antes de sua vinda ao Brasil. Em apenas 90 dias, prometia, um disco voador de 20 ou 30 metros de diâmetro poderia ser construído a um custo de 400 mil cruzeiros (cerca de 550 mil reais corrigidos pela inflação em valores de hoje).

Nos documentos enviados para o Exército, ele dizia inclusive que não teve a ajuda de ninguém para desenvolver a ideia. Prometia um veículo silencioso, movido a petróleo e capaz de armazenar bombas poderosas, além de fotografar veículos inimigos. Não houve, no entanto, qualquer interesse e apenas uma declaração oficial: a do chefe do Estado-Maior do Exército, Fiúza de Castro, em 1950, garantindo que tudo não passou de fantasia. Starzicny foi libertado em 15 de agosto de 1952 e seus últimos registros o revelam como dono de uma loja de consertos de rádio em Niterói (RJ).

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