A ornitologia é o ramo da biologia dedicado ao estudo dos pássaros. O futebol é o esporte mais popular do mundo. E o que esses dois temas poderiam ter em comum? Para o paranaense Fernando Straube, de 51 anos, tudo. Torcedor fanático do Coritiba, ele frequenta o Couto Pereira desde 1972, quando o estádio ainda era chamado de Belfort Duarte: “Sempre fui perna-de-pau”, confessa. Longe de poder fazer do futebol sua profissão, ele resolveu se especializar em outra paixão de infância: os pássaros. Oficialmente ornitólogo desde 1982, Straube foi o responsável, em 2009, pelo casamento a princípio estranho entre as aves e a bola.

Na verdade, o ornitólogo gosta mesmo é de associar o seu campo de estudo a outras áreas: “Já misturei ornitologia com simbologia, linguística, museologia, sociologia, etnografia e principalmente com história. As aves são muito queridas pelas pessoas e estão cercadas de lendas e superstições”, empolga-se. Foi então que apareceu a ideia de pesquisar símbolos de times de futebol que contenham aves. Durante cerca de um ano ele desbravou sites de clubes e federações, enviou e-mails e, principalmente, checou fontes para realizar o trabalho: “A internet é muito rica nesse tipo de informação, mas tive que filtrar muita coisa”, diz ele.

Depois dessa filtragem, o trabalho foi mais fácil, mas não menos surpreendente. O resultado da pesquisa impressionou o próprio Straube, já que dos 644 times (de todos os 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal) analisados, 51 (aproximadamente 8%) possui uma ave em seu escudo. Não foi o suficiente para agradar o especialista: “A maior parte mostra a águia americana, que não existe no Brasil e não tem nada a ver com a gente”, lamenta.

Exemplos negativos não faltam. Um deles é o União São João, da cidade paulista de Araras: desde 2015 inativo, o clube é conhecido por ter revelado o lateral Roberto Carlos e por ter jogado a primeira divisão do Campeonato Brasileiro quatro vezes na década de 1990. Para Fernando, no entanto, o destaque é outro: a arara vermelha, verde e amarela, que serve de mascote para a equipe. “Uma pesquisa simples mostra milhares de espécies de araras, mas o desenhista não teve interesse em retratar nenhuma delas. Estilizou demais e acabou ficando uma ‘papagaiada’, com o perdão do trocadilho”. Como contraponto, ele elogia o Chapada dos Guimarães Esporte Clube (MT), também licenciado, cujo escudo traz araras vermelha e azul muito fiéis à fauna brasileira.

União São João e a ave mais “estranha” da pesquisa

A preocupação com a fidelidade dos desenhos, aliás, é outra marca da pesquisa. Fernando procurou descobrir todas as espécies retratadas e aí acabou sobrando também para o Paraná Clube, rival do Coritiba: “O escudo tenta mostrar uma gralha-azul, mas traz um pássaro totalmente azul quando se sabe que a cabeça dele é preta. Mandei um artigo sobre isso para a diretoria do clube e fui ignorado. Não houve qualquer interesse em tornar o escudo mais real”, lamenta. Por essas e outras, no trabalho publicado pela revista on-line Atualidades Ornitológicas, ele sugere: “Se o formato e apresentação dos escudos geralmente não se submete a normas fixas e inflexíveis, acredito que algumas alterações, em certos casos, poderiam ser realizadas pelos clubes, resultando em uma indicação muito mais fiel e precisa dos elementos que compõe esses símbolos”.

O rival Paraná Clube não escapou das críticas

Bons exemplos também fazem parte do resultado final. Em Pernambuco, por exemplo, quem voa alto é o carcará do Salgueiro. O clube, que representa a cidade homônima, traz em seu escudo a ave de rapina cujo desenho, nas palavras de Fernando, é “bem razoável”, apesar de ser apenas uma silhueta: “A alusão ao animal é antiga e também está no hino. É uma referência à seca do sertão nordestino, já que o carcará é resistente ao clima semiárido”, explica.

Simbologia do carcará é elogiada pelo ornitólogo

O escudo mais bonito, para o pesquisador, é o do Pantanal Futebol Clube da cidade de Ladário (MS), que traz um tuiuiú estilizado. O posto pertencia ao Esporte Clube Ipitanga, da cidade de Senhor do Bonfim (BA), outro do grupo dos licenciados: “Eles tinham um lindo tucano de bico preto muito bem desenhado e atualmente mudaram para um formato exagerado, comum, chutando uma bola”, lamenta. Ele ainda faz um apelo: “Sinceramente cansa a repetitividade das águias e outras aves de rapina. Sei que elas têm um simbolismo importante, mas esperava-se mais criatividade quando se trata de Brasil, um dos países mais ricos em espécies de aves em todo o mundo”.

Pantanal Futebol Clube: “eleito” o escudo com a ave mais bonita

A mistura entre futebol e ornitologia parece perseguir Fernando Straube. Em 2009, ele foi para Itabaiana (SE) pesquisar as aves da região. Acabou conhecendo o Coritiba Futebol Clube, um “xará” sergipano do seu time de coração. Poucas viagens poderiam representar melhor um encontro de paixões tão inusitado.

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