Fundada como emissora de rádio em 1922 e como rede de televisão em 1936, a BBC logo se tornou símbolo de credibilidade no Reino Unido. Um dos exemplos de todo esse prestígio era o programa de notícias Panorama, que, além do noticiário cotidiano, trazia sempre novidades ao público. Há 60 anos, no dia 1º de abril de 1957, o Panorama deixou os britânicos boquiabertos com uma reportagem de três minutos sobre uma plantação de espaguete.

A notícia era falsa, mas a brincadeira foi profissional. Uma equipe do programa se deslocou até uma fazenda na Suíça onde estaria localizada a “plantação”. Tinha até uma história por trás: o inverno mais leve que o esperado e o extermínio da “temida praga do espaguete” permitiram que os produtores fizessem uma colheita proveitosa. Os camponeses foram filmados retirando pedaços inteiros de macarrão das árvores. A emissora recebeu centenas de telefonemas de telespectadores pedindo dicas de como plantar macarrão. A reportagem assegurava que era um tipo diferente daquele que se consome em casa.

A colheita dos pés de espaguete

E não é que o Panorama respondeu? “Coloque um raminho de espaguete dentro de uma lata de molho de tomate e aguarde”.  A ideia da piada foi do bem-humorado câmera austríaco Charles de Jaeger. Ele e sua equipe foram até um hotel na cidade de Castiglione, pegaram 9 quilos de macarrão cru e penduraram nos galhos, mas estes secavam rápido por causa do frio. Tentou cozinhá-los, mas aí eles escorregavam. Então, o representante turístico da equipe deu a ideia de colocar o produto entre pequenos panos úmidos. Funcionou.

A produção do Panorama fez tudo isso sem comunicar a direção da emissora, temendo que a ideia fosse rejeitada. A cúpula da BBC só ficou sabendo da pegadinha um minuto antes de o programa ir ao ar. No final, o apresentador se despediu: “Agora nós vamos dizer boa noite neste dia primeiro de abril”, dando ênfase à data e confessando, ainda que indiretamente, a brincadeira. No dia seguinte, alguns jornais criticaram a ação, mas a repercussão em geral foi altamente positiva, configurando o primeiro “hoax” (termo em inglês para boatos como esse) exibido em uma grande rede de TV. Dez anos depois, uma rede de TV da Austrália fez uma reportagem muito parecida. Já a BBC fez disso uma tradição e continuou aprontando pegadinhas no Dia da Mentira. Veja algumas das mais curiosas.

Lirpa Loof (1961 e 1984)
Em 1961, a BBC anunciou a transmissão de um show do “renomado pianista europeu Lirpa Loof” no dia primeiro de abril. Parece normal, certo? Pois leia a “Lirpa” ao contrário: “April”. Invertendo “Loof”, temos “fool”. “April fool” é o termo pelo qual são conhecidas as brincadeiras de primeiro de abril. Em 1984, Lirpa Loof ressurgiu como um bípede peludo em extinção vindo do Himalaia para o zoológico de Londres.

Smell-o-vision (1965 e 2007)
Em 1965, a BBC entrevistou um professor da Universidade de Londres que revelou a criação da “smell-o-vision”. O nome já diz tudo: “smell”, em inglês, significa “cheiro”. A criação, então, era a de uma televisão capaz de transmitir o cheiro para os telespectadores. O professor explicou que as moléculas olfativas foram quebradas a ponto de poderem ser transmitidas pelas ondas da televisão. Para comprovar, uma demonstração colocou na tela da smell-o-vision alguns feijões e cebolas. Do outro lado do país, as “cobaias” confirmavam a transmissão do cheiro. Alguns diziam que ficaram com os olhos lacrimejantes por causa da cebola. Até um cartaz foi feito para anunciar a novidade, que depois foi desmentida. O hoax foi adaptado em 1º de abril de 2007.

O anúncio da smell-o-vision

Efeito colateral (1973)
Em tom alarmista, a BBC Rádio entrevistou em 1º de abril de 1973 o Dr. Clothier para informar o seu público sobre uma praga que poderia se espalhar pela Europa. Tudo teria começado na Holanda, quando um laboratório tentou criar um remédio contra a gripe. Deu certo, mas ele provocou um efeito colateral: transformava os ruivos em loiros. A praga estaria se espalhando pelo continente. A explicação científica envolvia a semelhança entre o sangue dos ruivos e as condições de solo na qual as árvores cresciam e que seriam apropriadas para a manifestação da doença. Por isso mesmo, as pessoas de cabelos vermelhos foram orientadas a não andarem perto de florestas. O Dr. Clothier, na verdade, era o comediante Spike Milligan.

Realinhamento de planetas (1976)
A mentira de 1976 também foi bastante criativa. Na BBC Rádio 3, noticiou-se que Plutão iria “ultrapassar” Júpiter às 9h47 da manhã. Segundo os estudiosos ouvidos, isso provocaria um efeito na Terra: as pessoas ficariam mais leves. O locutor Patrick Moore prometeu que isso seria comprovado na prática com um pequeno salto exatamente às 9h47, que faria as pessoas flutuarem. Na hora marcada,  ele ordenou: “Pulem agora!”. Um minuto depois, 12 pessoas entraram no ar pelo telefone “relatando” o sucesso da experiência. Moore inspirou-se numa tese furada do livro “Efeito Júpiter”, dos pseudocientistas John Gribben e Stephen Plagemenn.

Livro inspirou hoax da BBC

Mudanças no Big Ben (1980)
O relógio-símbolo de Londres irá se tornar digital, anunciou a BBC Rádio Internacional. Muitos ouvintes ficaram chocados, outros até gostaram da ideia. Mas a notícia mais estapafúrdia e que mais provocou alvoroço foi outra: as quatro primeiras pessoas que ligassem para a emissora simplesmente se tornariam donas do Big Ben. Teve até um marinheiro japonês no meio do Oceano Atlântico ligando para tentar a sorte.

Pancadaria na redação (1989)
Desmond Lyner apresentava normalmente o Grandstam, programa da BBC Sports, quando uma pancadaria entre os jornalistas começou a acontecer ao fundo na redação. Lyner não perdeu a pose e chamou uma reportagem sobre o time britânico de hóquei. Na volta, pediu desculpas pela briga para, em seguida, revelar que tudo não passou de uma brincadeira de 1º de abril.

O hoax que enganou a Família Real (1999)
Em 1º de abril de 1999, The Today, programa da BBC Rádio 4, comunicou que o hino do Reino Unido iria mudar. No lugar do God Save The Queen, um hino universal para toda a Europa composto por estudantes de música alemães a partir da obra de Beethoven. O hino foi, inclusive, tocado no ar. Na sequência, o escritório do Príncipe Charles pediu imediatamente a cópia da fita. Depois, o St. James Palace comunicou que em momento algum acreditou na veracidade da notícia e apenas quis ajudar na brincadeira.

O fim da batata frita (2003)
A piada de 1º abril de 2003 desesperou as crianças do Reino Unido: as batatas fritas estariam proibidas nas cantinas de todo o país a partir daquela data. A determinação tinha como intuito melhorar a alimentação das crianças. O líder da UK Chip Authority (Autoridade Britânica de Batatas) acreditou e fez duras críticas ao movimento. Ele não entendia porque as batatas fritas foram o único alvo.

Novo batismo para os planetas do Sistema Solar (2004)
O hoax de 1º de abril de 2004 é daqueles que na hora se percebe que é piada, mas também foi bastante criativo: todos os planetas do Sistema Solar, anunciou o site infantil da BBC, seriam rebatizados. Mais: os novos nomes seriam tirados das personagens de “Senhor dos Anéis”. A Terra, por exemplo, passaria a se chamar Gandalf; Júpiter viraria Legolas, Mercúrio, Merry; e Marte se tornaria Frodo. O novo planeta, Sedna, ganharia o nome de Shadowfax. A professora Lia Polorf, “fonte” da reportagem, comunicou as intenções do Comitê de Nomes de batizar a Lua como Gollum.

Terra rebatizada como Gandalf

Os pinguins voadores (2008)
No trote de 2008, um vídeo com a descoberta de pinguins voadores na América do Sul viralizou na internet. Depois, outro vídeo publicado pela BBC explicou como foram realizados os efeitos especiais que alimentaram a “notícia”.

Francês ou inglês, eis a questão (2010)
Um dilema existencial para o escritor Willian Shakespeare. O hoax não foi exatamente inédito, já que existe uma teoria antiga de que ele na verdade nasceu na Itália. Mas a BBC 4 noticiou uma descoberta arqueológica de que ele na verdade nasceu na França. A reportagem contou até com um antigo Ministro da Cultura da França se dizendo honrado por ver Shakespeare ao lado de Molière e Racine no panteão da literatura local.

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