Uma construção antiga, com uma fachada mal cuidada e entrada estreita, pode despertar curiosidade em quem passa pela Rua Campo Alegre, ao lado do Largo da Batata, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Seus 10 andares, suficientes para colocarem o edifício como maior da rua, estão completamente pichados. Aí vem a pergunta: como é que o pichador conseguiu chegar em todos os andares? Por ser uma atividade ilegal, ainda mais agora com o prefeito João Dória, os bastidores ficam quase sempre ocultos, aumentando ainda mais a curiosidade em torno do assunto.

Prédio na Rua Campo Alegre, em Pinheiros: todos os andares pichados

Pichar o topo de um prédio já parece difícil, mas pelo menos se pode imaginar que o pichador escalou até a laje e, de lá, em terra firme, se inclinou para pichar. Mas as marcas bem trabalhadas, daquelas que não são feitas com pressa ou no improviso, deixadas nos andares intermediários são mais complexas. No caso do prédio de Pinheiros, que escolhemos como exemplo de ousadia, há quem diga que elas estão ali há dois anos, de modo que já fazem parte da paisagem e nem devem ser retiradas tão cedo. Uma invasão andar por andar, apesar de complexa, soa como hipótese mais provável para um leigo. Tudo indica que não foi bem assim: “Quem testemunhou a ação diz que eles estavam em quatro e foram um subindo no ombro do outro. Foram usando os parapeitos das janelas para escalar os andares. Quando a polícia chegou, o quarteto já estava no alto e se escondeu na cobertura. Não foram pegos”, relata Amaro Antero, que trabalha no prédio exclusivamente comercial.

Pichador usa cabo para atuar em passarela: imprimir marca em locais públicos aumenta a visibilidade

Osvaldo Júnior, o Juneca, foi um dos primeiros pichadores da cidade de São Paulo. Começou na década de 1980 e, depois de alguns poucos anos, trocou a adrenalina do picho pelas cores do grafite. Ainda assim, coleciona memórias e contatos que lhe dão experiência para falar sobre o assunto. “O pichador jamais tem a ajuda de ninguém que não seja da tribo”, revela. “No caso de um prédio, ele tem que tentar achar uma entrada de serviço ou ir escalando mesmo. Dependendo do local, dá para subir em algum muro um pouco mais baixo que esteja próximo e usar um cabo para chegar ao prédio”.

“A pichação mais difícil é também mais prazerosa”, confirma um pichador que prefere não se identificar. “Cada um trabalha de um jeito, não há uma regra. Cada um tem os seus artifícios. Escalar, encontrar uma entrada… Isso varia”, diz. Há 12 anos fazendo pichações, ele diz que é preciso ter muito cuidado para alcançar locais tão inacessíveis: “Qualquer erro pode ser fatal e te fazer perder a vida. Tem que calcular tudo muito bem. Por isso mesmo alguns gostam de observar o local que vão pichar antes de entrar em ação”, explica. Ele conta que já se machucou em menor gravidade enquanto pichava e que, nesses casos, é preciso saber criar histórias: “No hospital, tem que inventar alguma coisa. Dizer que caiu no trabalho ou em casa”, pontua.

Pichador atua no alto de um prédio em São Paulo: erro pode custar a vida

Para Juneca, alcançar um prédio alto ou um monumento público de grande visibilidade faz com que o pichador ganhe fama dentro da própria tribo: “Isso estimula muito”, acredita. O pichador não identificado faz coro: “Um monumento público pichado vai saltar aos olhos da sociedade. Por mais que ele seja apagado rapidamente, a arte daquele pichador ficará eternizada”, afirma. Um reconhecimento que não vem fácil. Além da própria dificuldade para chegar em um local de difícil acesso, o pichador precisa estar preparado para qualquer emergência. “Se você está lá no alto e aparece um policial ou um pedestre, precisa manter a calma”, diz.

O pichador revela que conhece amigos que passaram por maus bocados enquanto tentavam imprimir sua marca em prédios: “Às vezes, você está lá e um morador abre a janela. É preciso tentar explicar tudo porque a primeira reação da pessoa é achar que você quer roubá-la. Então você fala que só quer pichar. Alguns se acalmam, outros não. Conheço casos de moradores que pegaram uma vassoura para tentar derrubar o pichador de uma altura da qual ele certamente morreria”, relata. Quando tudo dá certo, é melhor registrar o feito, já que ele não deve durar muito tempo: “Alguém vai vir apagar algum tempo depois, então é melhor levar uma câmera para ter uma recordação”, sugere.

Vagão de trem é pichado durante a madrugada

Para este pichador, a política de tolerância zero imposta pela nova gestão do prefeito João Dória não muda muita coisa na vida do infrator: “Estamos vivendo isso desde a época do Juneca, há quase 40 anos. A única diferença é que agora teremos que tomar mais cuidado. Se formos apanhados, não teremos dinheiro para pagar a multa e seremos presos”, acredita. Ainda assim, o discurso veemente do Poder Público não intimida: “Isso nos estimula. Quem consegue furar esse sistema ganha todo o reconhecimento. Temos pichadores renomados como o que pichou a Ponte Estaiada ou o Conjunto Nacional. Esse inclusive conseguiu dar uma entrevista para um jornal se passando por morador. Ele conseguiu enganar a mídia dessa forma. Essa reportagem vira uma obra de arte maior do que a pichação”, comemora.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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