Se depender do nome, o Palmeiras precisa ficar atento com o jogo aéreo do seu adversário dessa noite pela segunda rodada da Libertadores: ao contrário da maioria dos times, que preferem homenagear os seus ídolos com o batismo de estádios ou centros de treinamento, o boliviano Jorge Wilstermann resolveu homenagear um ilustre habitante de seu departamento, Cochabamba, no nome. Ele sequer viu o time nascer, mas é lembrado até hoje como um pioneiro na aviação latino-americana.

Jorge Wilstermann Camacho nasceu em 23 de abril de 1910, quatro anos antes de ser fundado o Palestra Itália que mais tarde se tornaria Palmeiras. Na adolescência, viu seu pai se tornar mecânico da Lloyd Aéreo Boliviano. A LAB havia sido fundada em 1925 como primeira companhia aérea da Bolívia e segunda da América Latina, operando exclusivamente com pilotos estrangeiros. O fascínio pela aviação incentivou Jorge a entrar no programa de pilotos da companhia.

Jorge Wilstermann Camacho, o aviador que dá nome ao adversário de hoje do Palmeiras

Em 1930, ele se tornou o primeiro piloto civil boliviano. Reconhecido nacionalmente por sua habilidade e por suas missões militares, construiu uma relação de amizade com Walter Lehm, dono da LAB. Um acidente aéreo em 17 de janeiro de 1936, durante um voo entre Oruro e La Paz, provocou a morte prematura de Wilstermann aos 25 anos. Junto com ele perderam a vida outros três tripulantes e dez passageiros.

Após a sua morte, o amigo Walter Lehm solicitou que o aeroporto de Cochabamba, na cidade de mesmo nome, tivesse seu nome alterado para Aeroporto Internacional Jorge Wilstermann – e assim é até hoje. Alguns anos mais tarde, em 1949, funcionários da LAB se uniram para criar um time de futebol. Em 24 de novembro do mesmo ano nasceu o Club Deportivo LAB. Quatro anos depois, em 1953, Lehm, que era presidente de honra do Deportivo, solicitou que o nome fosse alterado para Club Deportivo Jorge Wilstermann. A relação com os aviões pode ser notada também pelo escudo, que têm asas de uma aeronave.

Jorge Wilstermann disputa a Libertadores pela 17ª vez

Com 13 títulos do Campeonato Boliviano, todos conquistados após a mudança do nome, o Jorge Wilstermann participa da Libertadores pela 17ª vez. Foi, inclusive, o primeiro time boliviano a disputar o torneio, na edição inaugural de 1960. O clube não resistiu ao primeiro adversário, o futuro campeão Peñarol (em quem já aplicou um 6 a 2 na semana passada), mas como eram apenas sete participantes, para efeitos de classificação o clube chegou às quartas de final, o que só se repetiu em outras duas oportunidades: em 1961, também com eliminação no primeiro confronto, e em 1981, quando o Jorge Wilstermann passou pela fase de grupos e parou somente na semifinal, em um grupo vencido pelo futuro campeão Flamengo. Em todas as outras edições, o time só passou da fase de grupos em uma – foi em 1999, quando caiu para o Corinthians nas oitavas de final. São Paulo, Santos, Internacional e o próprio Palmeiras foram os outros brasileiros a já medirem forças contra a equipe de Cochabamba pela Libertadores.

Ainda que a prática seja incomum, o aviador pioneiro não é a única personalidade a dar nome a um time sul-americano. Nessa edição da Libertadores, temos outros dois casos, ambos no grupo do Atlético Mineiro: um deles é o Club Deportivo Godoy Cruz Antonio Tomba. O nome Godoy Cruz é herdado da cidade da Argentina onde o clube está situado. Essa, por sua vez, foi assim batizada em homenagem ao quarto governador da província de Mendoza, Tomás Godoy Cruz. Já Antonio Tomba era um dono de um armazém que tinha também um time de futebol. Em 1930, o Club de la Bodega Antonio Tomba se fundiu ao Godoy Cruz, gerando assim o nome atual. O Sport Boys Warnes, outro boliviano, presta reverência a Ignacio Warnes, ícone da luta pela independência no país e um dos Libertadores da América que dão nome ao torneio.

Os libertadores, aliás, são os homenageados com maior frequência. O Bolívar (mais um boliviano), com 31 participações no torneio, eterniza em seu nome o maior de todos eles: o venezuelano Simon Bolívar. Entre os times de menor expressão, vale lembrar do chileno O’Higgins (referência à Bernardo O’Higgins), do venezuelano Deportivo Anzoátegui (o nome é herdado da cidade que homenageia Antônio Anzoátegui) e o peruano Universidad San Martín (homônimo à universidade que exalta José de San Martín), que enfrentou o Grêmio em 2009.

Bolívar, O’Higgins, Deportivo Anzoátegui e Universidad San Martin

Fora das batalhas pela liberdade na América do Sul, pipocam outras homenagens. Só no Peru são quatro. O Coronel Bolognesi, adversário do Flamengo em 2008, recorda o militar Francisco Bolognesi, que batalhou pelo país na Guerra do Pacífico no final do século XIX; do mesmo conflito surgiu a homenagem do León de Huánaco, rival do Grêmio em 2010, que nasceu no Colégio Nacional Leoncio Prado e levou adiante a homenagem ao marinheiro que perdeu a vida justamente nesta guerra. Juan Aurich era dono da Fazenda de Batangrande, na cidade de Chiclayo, e batizou o time que nasceu entre os funcionários do local (Santos e Internacional enfrentaram o Juan Aurich em 2012); já o Deportivo Universidad Cesar Vallejo herdou o nome da universidade de Trujillo. O nome é uma homenagem a César Abraham Vallejo Mendoza, um dos maiores poetas peruanos de todos os tempos –  o São Paulo venceu a disputa de uma vaga na fase de grupos contra “la UCV” no ano passado.

Os peruanos Coronel Bolognesi, León de Huánaco, Juan Aurich e Universidad Cesar Vallejo

No Brasil, nenhum clube que disputa essa edição da Libertadores faz uma homenagem assim. Batizar times com nomes de pessoas é algo raro por aqui. A homenagem mais famosa é a do Vasco da Gama a um dos mais célebres navegadores e exploradores portugueses do Século XV. O Vasco, aliás, é o único time batizado com um nome de uma personalidade a já ter vencido a Libertadores (foi o campeão de 1998). Entre os times de menor expressão, vale citar o Sampaio Corrêa que, assim como o Jorge Wilstermann, ganhou o nome graças à aviação. José Mattoso Sampaio Corrêa, senador da república, patrocinou e deu nome ao hidroavião que aportou em São Luís em 1922. O Sampaio surgiu três meses depois do Sampaio Corrêa II pousar na capital maranhense. Já o Corinthians até colocou em pauta o nome de Santos Dumont, inventor do avião, e do compositor Carlos Gomes, mas nenhum dos dois foi o escolhido.

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