A preocupação com o desenvolvimento saudável das crianças passa naturalmente pela escola. Enquanto nos países do primeiro mundo existem projetos para uma alimentação balanceada, que estimule o aprendizado e o próprio crescimento, em outra parte do planeta muitos estudantes mal têm o que comer para suportar uma jornada de estudos. Foi buscando essas contradições que as canadenses Andrea Curtis, escritora, e Yvonne Duivenvoorden, fotógrafa, percorreram 13 países para documentar o que se come em colégios. Desse trabalho saiu o livro “Hora do Lanche – O que as crianças comem nas escolas em diferentes países”, lançado no Brasil pela Panda Books.

“Hora do lanche – O que as crianças comem nas escolas em diferentes países” foi lançado no Brasil pela Panda Books

Andrea e Yvonne usaram as experiências colhidas em todo o percurso para promover uma reflexão sobre a desigualdade social no planeta e a preocupação com o meio-ambiente. Nas mais modernas escolas do Japão ou até mesmo num pobre vilarejo de refugiados no Quênia, a necessidade de se alimentar é a mesma, mas a oferta é bem diferente. Na França, por exemplo, chefs especializados elaboram um cardápio balanceado: na hora do almoço, os alunos têm direito a uma salada, um grelhado (em geral, peixe ou frango) com legumes, pão com queijo e uma sobremesa. No México, porém, o governo sequer se dispõe a oferecer comida para suas crianças e elas devem levar o lanche de casa. Se nem o governo se preocupa com o equilíbrio do cardápio, não é de se espantar que os pais recorram a sanduíches e petiscos rápidos e gordurosos. Uma realidade que vai de encontro ao alarmante dado de que mais da metade dos adolescentes mexicanos estão acima do peso.

Em Dubna, na Rússia, as crianças comem a “borsch”, a famosa sopa de beterraba

Região pobre de Cusco, no Peru, tem merenda com carne de roedores, como préas e cobaias

A situação é ainda mais alarmante quando se fala de países  pobres do planeta. Num campo de refugiados do Quênia, quase na fronteira com a Somália, as crianças recebem apenas o mínimo para conseguirem se sustentar em pé. O mingau misturado ao leite, enviado pela Organização das Nações Unidas,  é insuficiente para um crescimento saudável. Sem ele, no entanto, é provável que todas elas morressem de fome. Se o estado lamentável da merenda nos remete a todo o sofrimento pelo qual passam os refugiados de todas as idades, a hora do almoço no Japão também faz jus à famosa preocupação dos japoneses com a higiene e as regras. Em alguns colégios de lá, são os próprios alunos quem preparam a comida. Feitas as refeições, eles vão para a pia lavar a louça. Já na Índia, os padrões de limpeza são mais frouxos: todos comem com as mãos, hábito que vem da crença de que, assim, a comida fica mais saborosa.

Andrea Curtis visitou escolas de 13 países

O livro destaca ainda iniciativas de estudantes norte-americanos e italianos para melhorar a merenda em suas escolas. A flagrante má qualidade nutricional da merenda americana é explorada a partir de uma visita a uma escola de baixa renda na cidade de Roswell, no Estado do Novo México. Comidas congeladas e enlatadas, como pizzas e tacos, são servidas junto com leite ou achocolatado e uma pequena porção de frutas e legumes. Uma situação que se repete em mais de um terço dos colégios públicos do país, colaborando com a epidemia de obesidade entre adolescentes na maior potência mundial.

A cidade de Belo Horizonte foi a escolhida para representar o Brasil. O livro elogia a política governamental em relação à merenda, classificando o almoço gratuito como “muito bem-sucedido” na luta pela erradicação da fome. Os pratos em geral contam com uma porção de arroz e feijão, mais carne ou frango, acompanhados por uma porção de legumes e uma fruta. Os sucos feitos a partir de frutas nativas são elogiados em encontro e combinam com a propagada política de proibição de máquinas de refrigerantes.

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