Para comemorar seus 80 anos, agora em 2017, a Estrela anuncia que irá relançar alguns de seus maiores sucessos. O grande nome das comemorações será o boneco Falcon, que surgiu no final dos anos 1970, apresentado como um “super-herói de verdade”. Ele era uma adaptação do boneco norte-americano G.I. Joe, que pertencia à Hasbro. A empresa se viu obrigada a vender algumas de licenças para superar a crise do petróleo nos Estados Unidos. Falcon fazia parte de um conjunto chamado “Comandos em Ação” – baseado no “Adventure Team”, da Hasbro, que já havia chegado ao país em sua última versão.

Falcon era chamado de “herói de verdade”

O Falcon era produzido em duas versões: em uma delas, chamada de “ação camuflada”, ele tinha barba; na outra, chamada de “contra-ataque”, não. O rosto sisudo e a cara de mau ajudaram a quebrar o estigma de que só as meninas podiam brincar com bonecas e bonecos. O bombardeio publicitário deu certo e o Falcon foi um campeão de vendas. “Era uma época sem videogame e ele tinha esse espírito aventureiro”, explica o colecionador João Carlos Brasiliense. “Foi o primeiro boneco destinado aos meninos”. Segundo ele, algumas das características da versão mais tradicional são impossíveis de serem relançadas atualmente: “As historinhas que vinham com ele sempre falavam em prender um gorila na jaula, atacar um tubarão, essas coisas. Hoje em dia isso esbarraria no “politicamente correto”. Tanto que uma das últimas versões do G.I. Joe lançada nos Estados Unidos colocava o boneco lutando contra a extinção de um determinado animal”, explica.

Em tempos com menor preocupação com a preservação animal, as batalhas de Falcon fizeram sucesso. Tanto que, logo em seguida, a Estrela ampliou a linha relacionada ao personagem: versões loira e ruiva (o original era moreno), acessórios para o seu famoso jipe e um helicóptero amarelo estiveram entre as novidades. Com o “Comandos em Ação” ficando cada vez mais escanteado diante do fenômeno Falcon, a trupe foi logo extinta em 1980, ano em que uma versão mais poderosa do boneco surgiu. O Falcon80 ganhou seu primeiro inimigo, “Torak”, e um aliado biônico chamado “Condor” – eram tempos em que a série Star Wars fazia sucesso absoluto no país e o universo espacial estava em alta.

Durante a primeira metade da década de 1980, a fase “futurista” foi intensificada com um lança-míssil acompanhando o tradicional jipe, um buggy bem moderno e um robô chamado Robby. A febre de novos super-heróis, como He-Man e Sector, fez a popularidade do Falcon cair. Ele seria relançado em 1994 na linha “Clássicos Falcon”. O mesmo aconteceria em 2000, mas os bonecos irritaram os colecionadores pela má qualidade. Além disso, por uma questão de direitos autorais, o boneco não carregava o nome Falcon; “Comandos em Ação” virou “Força de Ataque”; e Torak passou a ser chamado de “Inimigo”: “A versão de 1977 tinha roupas mais bem feitas que a dos americanos”, diz Brasiliense. “O de 1994 já tinha uma qualidade ruim e o de 2000 era pior ainda. Tentou-se atingir a criançada que gosta dessas cores fortes e Torak veio com cabeça verde-limão. Para mim, era ridículo. Não agradou nenhum dos lados”.

O modelo mergulhador

Agora, Brasiliense está na expectativa pelo retorno do boneco. “Se for algo retrô, resgatando o Falcon antigo, eu certamente vou querer um”, afirma. Não só ele. Há 20 anos o arquiteto Marcelo Peron coleciona bonecos Falcon. Hoje, com 46 anos, ele conta que tudo começou quase que por acidente: “Fui comprar camisetas para fazer a decoração de um bar e veio um boneco na sacola. O pessoal do bar tinha a minha idade e quando viram o meu desconhecimento do personagem me prometeram dar uma cabeça, uma perna. Foi assim que eu comecei e hoje até parei de contar”, recorda.

Ele compara o trabalho de um colecionador ao de um piloto de um rali: “Não adianta ser só piloto, tem que ser mecânico também. Tem gente que me pede conserto e eu recuso. Ensino a consertar. Colecionador tem que saber arrumar”, ensina. Ele já perdeu a conta de quantos bonecos tem, mas revela dificuldades para manter o trabalho: “Não é como uma velhinha que coleciona corujas de madeira, que onde ela vai ela compra uma corujinha. Não se acha em lugar nenhum. Ou você vai pro semáforo distribuir panfletinho como eu faço, ou não tem”, define.

Marcelo Peron já não sabe mais quantos bonecos Falcon tem: “Parei de contar”

Diante da dificuldade em se encontrar os bonecos, pegar um pedaço em cada lugar já ajuda. “Pego cabeça de um, perna de outro, e vou juntando. Aliás, na época dos relançamentos de 1994 e 2000, eu e outros colecionadores comprávamos vários só para usar os corpos. Era muito barato”, relembra. A propósito, a ausência dos brinquedos no mercado faz com que os detentores elevem muito o preço: “Uma vez uma mulher tentou trocar um Falcon todo destroçado por um piano de cauda”, diverte-se.

O grupo de colecionadores é reduzido: “O grupo mais popular que temos no Facebook reúne 341 pessoas. Mas é claro que muito mais gente gosta do boneco. Tenho uma página com quase 10 mil curtidas”. Ele está animado com a possibilidade de rever o Falcon nas prateleiras: “Para quem é colecionador, rever essa cena é muito bacana”, emociona-se Marcelo. “Vai nos fazer lembrar de quando andávamos nas lojas de mãos dadas com nossas mães. Saber que vamos poder comprar 10, 15, 20 de uma vez já é demais”.

Marcelo e o filho Raul, de 1 ano: “Ele já é fã do Falcon”

Ele está ciente que a penetração no mercado será difícil, mas aposta em uma propaganda forte de sua geração: “O Falcon durou pouco porque vieram muitos outros brinquedos. O próprio boneco enquanto brinquedo está em baixa. Hoje o menino mata o presidente dos Estados Unidos no videogame. Mas a minha geração está na idade de presentear filhos pequenos e acho que muitos vão acabar gostando do Falcon assim”. A aposta tem uma base bem consistente: o próprio filho Raul, de 1 ano, já é fã da personagem que está voltando às lojas.

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