Antes mesmo de o desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começar, já tinha gente comemorando título. No sábado, dia 18, durante um ensaio de quadra, a Estação Primeira de Mangueira anunciou aos presentes que, a partir de agora, conta com 20 estrelas em seu pavilhão: com 88 anos de atraso, a verde-e-rosa teria sido, enfim, declarada campeã do Carnaval de 1929. “Cheguei ao ensaio e o Chiquinho [Francisco Manoel de Carvalho, deputado estadual e presidente da Mangueira] comunicou que iria reivindicar esse título”, conta o jornalista Aydano André Motta, pesquisador de Carnaval. “Só que, logo depois, o locutor oficial da quadra anunciou que o título já estava homologado. Em nenhum momento citaram uma chancela oficial de quem quer que seja. Fui pego de surpresa”. Até uma bandeira foi desfraldada no teto da quadra. O presidente da escola também lançou uma camiseta comemorativa com alusão ao título de 1929.

Bandeira na quadra anuncia um novo título para a Mangueira no domingo passado (Foto: Reprodução)

A nova conquista da Estação Primeira é polêmica. É unânime no mundo do carnaval a ideia de que o primeiro desfile das escolas de samba aconteceu em 1932, quando o jornal Mundo Sportivo, dirigido por Mário Filho, promoveu um concurso com quatro agremiações – a campeã foi a própria Mangueira. Antes disso, no entanto, foram realizados outros eventos entre escolas de samba e é a partir de um deles que a Mangueira tenta o reconhecimento de um novo título. Em 1929, o pai de santo Zé Espinguela (que, um ano antes, havia sido um dos fundadores da Mangueira) promoveu um concurso de sambas em sua casa, no bairro do Engenho de Dentro, na zona norte do Rio. “Ele era um grande agitador cultural do Rio de Janeiro”, relata o jornalista e crítico de carnaval Fred Soares. “Tinha uma namorada no Morro da Mangueira e, dizem, criou esse concurso para agradá-la”,

Participaram, além da verde-e-rosa, a Deixa Falar (considerada a primeira escola de samba do país) e a Vai Como Pode (atual Portela). A Mangueira alega ter vencido com o samba “Chega de Demanda”, de autoria de Cartola. Alguns registros apontam que foi feito um pequeno cortejo na Praça Onze, o berço do samba, onde estava o terreiro de Tia Ciata. “Se você pensar que desfile de escolas de samba tem fantasias, enredo, sambas, fica claro que aquilo não foi um desfile. Foi apenas um concurso de sambas”, ensina o historiador Luiz Antônio Simas, autor de “Dicionário da História Social do Samba”. Todo o registro que se tem é oral. Não há nenhum documento. Não tem como criar uma interpretação positivista em torno de registros orais desencontrados”. Para ele, a argumentação da escola não se sustenta: “Eu só queria que a Mangueira apresentasse uma fonte”, sugere.

Imagem de Amostra do You Tube

Para Fred Soares, será muito difícil conseguir homologar oficialmente a conquista: “Só quem pode homologar é quem organizou. Os desfiles são de responsabilidade da Prefeitura e, em 1929, a Prefeitura nem sabia o que era uma escola de samba. A Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), que na prática é uma espécie de “concessionária” na organização, surgiu apenas em 1985. Não tem praticamente nenhum envolvido naquele concurso vivo, então eu acho praticamente impossível”, afirma. Estranhamente, apesar da festa na quadra, a escola não fez nenhum anúncio oficial em redes sociais. Ontem, uma pequena nota no site oficial, apontava erroneamente a Estácio (que só seria fundada em 1955 como Unidos de São Carlos e adotaria o nome atual em 1983) e uma desconhecida agremiação chamada Favela como oponentes. A atual Secretária de Cultura do Rio de Janeiro é Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, o que pode ajudar até mesmo no reconhecimento dos documentos dos quais a escola dispuser.

Além da contestação quanto ao valor da conquista, a própria versão de que a campeã foi a Mangueira é contraditória. O jornal Vanguarda informou à época que, para não se comprometer, Espinguela deu um troféu para cada uma. Em entrevista ao jornal A Nação no domingo de Carnaval de 1935, no entanto, o próprio Zé Espinguela narrou que a Vai Como Pode levou a melhor: “Eu fui o primeiro organizador de concursos entre as nossas escolas. Foi em 1929. Realizei no Engenho de Dentro. Sagrou-se vencedora a Portela, sabiamente dirigida pelo Paulo. Mangueira também apresentou-se pujante, tendo os seus sambistas Cartola e Arthurzinho apresentado dois sambas monumentais: “Foram Beijos” e “Eu Quero Nota””, afirmou. Eis aí outro problema na homologação do título de 1929: Espinguela cita dois sambas “monumentais”, mas nenhum deles é “Chega de Demanda”, que a Mangueira cita como o samba da conquista. “Existem vários registros de que esse sequer foi o primeiro concurso feito pelo Zé Espinguela. Há quem afirme que ele já havia feito um em 1928 e que a Vai Como Pode havia sido a vencedora”, conta Simas.

“Chega de Demanda”, de Cartola, teria dado a vitória à Mangueira em 1929

Em todo caso, não será a primeira polêmica envolvendo um título de campeã. A própria Mangueira tem outras quatro conquistas que, na prática, não são reconhecidas, apesar de serem “chanceladas” por todo o mundo do samba e pela imprensa. “Foram desfiles extra-oficiais, já que a imprensa fez o papel que hoje é da Prefeitura”, explica Fred Soares. Campeã em 1932, 1933 e 1934, a Mangueira “perderia” assim três títulos de maneira oficial. Dos 20 anunciados, sobrariam 16. Em 1984, na inauguração dos desfiles no Sambódromo, as escolas foram divididas pela primeira vez em duas noites. De maneira inédita, cada noite teve uma campeã: a Portela, na primeira, e a Mangueira na segunda. As três primeiras de cada noite e as duas primeiras do segundo grupo desfilaram no sábado seguinte em um “supercampeonato”, onde foram avaliados apenas alguns quesitos. Deu Mangueira. Por isso, a escola contabiliza dois títulos no mesmo ano. Excluindo o supercampeonato, restam 15 títulos oficiais, o que não só deixa a verde-e-rosa distante da Portela  (21 conquistas) como ainda promove uma aproximação da Beija-Flor, a terceira maior campeã com 13 vitórias.

A Mangueira será a última a desfilar na segunda-feira de Carnaval. Para encerrar os desfiles, a verde-e-rosa apresenta o enredo “Só com a Ajuda do Santo”, onde mostrará de maneira irreverente a fé do brasileiro para alcançar os seus objetivos. Se faturar a taça, a Mangueira, com a homologação do título de 1929 e considerados os extra-oficiais, empatará em títulos com a Portela, a maior campeã, que desde 1984 não leva a melhor.

O presidente Chiquinho (à esquerda) lança camiseta oficial do título contestado pelos historiadores (Foto: Divulgação)

Baseada na já citada declaração de Zé Espinguela, a Portela se declara a campeã do concurso de 1929 em seu site oficial: “A Mangueira forçou uma barra enorme, mas,se foi para acirrar a rivalidade entre as duas, eu achei demais!”, admite Fred Soares. Aydano André Motta, por outro lado, não vê possibilidade do assunto se estender depois da Quarta-Feira de Cinzas: “Ao contrário do futebol, no carnaval as escolas não se preocupam muito em contestar as conquistas das outras. No caso da possibilidade de empate em títulos pode haver uma polêmica, mas, conhecendo o perfil da diretoria da Portela, não acho que vão se preocupar com isso”, opina Aydano.

Procurada, a Riotur afirmou que não irá se manifestar antes do Carnaval porque está “no auge da operação” de preparação da folia carioca. A reportagem também não conseguiu conversar com Chiquinho da Mangueira e com o presidente da Liesa, Jorge Castanheira. Tanto a escola quanto a Liga apontaram seus respectivos presidentes como os únicos capazes de esclarecer a questão.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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