Imagine a seguinte manchete na capa em um jornal brasileiro: “Escândalo! Deputado é visto indo para o Congresso de táxi!”. Esquisito, não? Pois agora pense nos parlamentares brasileiros morando em apartamentos de 18 metros quadrados e precisando lavar e passar a própria roupa na lavanderia comunitária do prédio. Tudo isso enquanto o país pressiona um ministro para que renuncie após comprovada a compra de uma barra de chocolate Toblerone com o cartão corporativo.

A jornalista Cláudia Wallin é a autora de "Um país sem excelências e mordomias" (Foto: Divulgação)

A jornalista Cláudia Wallin é a autora de “Um país sem excelências e mordomias” (Foto: Divulgação)

As histórias que parecem absolutamente surreais para os brasileiros são normais na Suécia. No pequeno país escandinavo, o termo “excelência” foi abolido e os representantes do povo nos três poderes não possuem nenhuma regalia. Eles andam de ônibus, circulam normalmente entre a população e ocupam os cargos unicamente pelo desejo de exercer a cidadania. Um sistema que levou a jornalista brasileira Cláudia Wallin a escrever o livro “Um país sem excelências e mordomias”, lançado pela Geração Editorial.

Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela passou pela TV Bandeirantes, pelo jornal O Globo e pela Rede Globo, onde se tornou chefe do escritório da emissora em Londres. Na Europa, também trabalhou na BBC e na Herald Tribune TV. Em 2003, mudou-se para a Suécia e começou a observar a curiosa simplicidade da vida dos políticos locais. Dessa observação surgiu uma série de reportagens para o Jornal da Band chamada “Suécia – Um país sem mordomias”. Depois, veio o livro. Hoje, ela conversou comigo e com Thays Freitas no Manhã Bandeirantes, da Rádio Bandeirantes. Confira trechos da entrevista:

Tem algum político preso na Suécia?
Essa foi a primeira pergunta que eu me fiz quando comecei a fazer o livro. O último caso havia sido em 1995, mas a nível municipal. A nível federal, não há nenhum caso. Os escândalos aqui são incomparáveis. Um dos casos famosos de corrupção, também na década de 1990, foi o da então vice-primeira ministra, Mona Sahlin, que teve que renunciar depois que descobriram que ela comprou uma barra de chocolates Toblerone e outros objetos pessoais com o cartão do governo. Não dá para comparar o nível dos escândalos, mas é claro que eles acontecem de vez em quando. Na maior parte das vezes é a nível municipal. A chave é o sistema de transparência e vigilância constantes. A cultura de honestidade é produto de um movimento da sociedade em relação ao respeito ao dinheiro público. São conquistas que resultam do amadurecimento da sociedade, da participação dos cidadãos na política.

Quem é o sujeito que aparece na capa do livro andando de bicicleta?
É o ex-ministro das Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. Foi a partir dele que comecei a compreender a cultura política do país. Eu tinha me mudado para cá e estava andando por um supermercado de Estocolmo quando vi este senhor com o carrinho na mão escolhendo os próprios tomates. Para nós, brasileiros, isso é quase sobrenatural.

Carl Bildt, o político que inspirou a obra.

Carl Bildt, o político que inspirou a obra.

Aqui no Brasil também tem muito político andando de bicicleta. De vez em quando, eles colocam o capacete, convocam a imprensa, e andam alguns poucos metros cercados de assessores… Não é o que acontece na Suécia, certo?
É bem diferente. A Suécia não oferece nenhum luxo ou privilégio para os políticos. Eles vão para o trabalho de ônibus. Nenhum parlamentar tem direito a imunidade, ou a um plano de saúde privado, ou mesmo aposentadoria vitalícia. Os vereadores sequer possuem salário ou gabinete, e trabalham em casa. Quando algum político quer gastar demais e resolve ir de táxi para o trabalho, ele vira manchete de jornal. Os parlamentares vivem em apartamentos funcionais de no máximo 18 metros quadrados e sem nenhuma comodidade. Para se ter uma ideia, nem mesmo máquina de lavar os políticos possuem. A lavanderia é comunitária, fica no subsolo, e é lá que os deputados lavam e passam.

Se não há privilégios, por que alguns suecos resolvem seguir a carreira política?
Os suecos não entram na política para enriquecer, mas sim para representar a sociedade como um todo. O interesse é exercer a cidadania.

Mas sempre foi desse jeito? Há a perspectiva de que o Brasil possa trilhar um caminho semelhante?
Antes de mais nada, acho importante esclarecer que não fiz o livro para mostrar como os suecos são maravilhosos. Eles não são melhores que ninguém. É claro que uma democracia sólida como a da Suécia não nasce pronta. Ela se transforma. O livro mostra que a Suécia já foi um país muito corrupto e que há 100 anos era também um dos países mais pobres da Europa. O que eles fizeram foi fortalecer as instituições com reformas amplas nas áreas tributária e política. O caminho para o Brasil, a exemplo do que outras democracias fizeram, é garantir o acesso de qualidade dos cidadãos à educação. Com uma maior conscientização da população sobre a importância da cidadania e das reformas que eu citei, o Brasil pode sim alcançar esse patamar.

Mona Sahlin esteve envolvida em um dos últimos escândalos de corrupção da Suécia

Mona Sahlin esteve envolvida em um dos últimos escândalos de corrupção da Suécia

Como a população sueca recebe as notícias da situação política brasileira?
Eles não entendem muito da política brasileira. Recebem as notícias pontuais, mas sem um conhecimento muito profundo. O que eu posso dizer é que eles se espantam quando eu conto alguns privilégios que os políticos brasileiros possuem. Até mesmo os políticos, os juízes e os cientistas sociais daqui ficaram assustados com alguns casos de corrupção que eu relatei em nossas conversas. Na visão deles, é um desrespeito usar o dinheiro dos impostos dos contribuintes para dar privilégios aos políticos. Segundo a linha de raciocínio dos suecos, isso é algo perigoso porque faz dos representantes uma espécie de “classe superior” e cria uma distância entre eles e o povo. A consequência é que eles passam a se afastar dos problemas da população e a população passa a nutrir um sentimento de descrença em relação aos representantes. Um exemplo atual no caso brasileiro é essa distância entre a austeridade que os políticos exigem da população e os privilégios que eles possuem, como se fossem “intocáveis”.

Tudo o que estamos falando do legislativo vale também para o poder judiciário sueco?
Com certeza. Acompanhei um dia de trabalho de um dos 16 ministros da Suprema Corte do país. Ele pega a bicicleta, vai pedalando até a estação de trem e pega o trem para chegar ao trabalho. Os juízes daqui não recebem nenhum tipo de auxílio moradia ou coisa similar.

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