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O escritor Nelson Rodrigues escreveu em “A Pátria de Chuteiras” que “o Maracanã vaia até um minuto de silêncio”. E não é nenhum exagero. Apesar de todos os esforços para se esconder na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, sexta-feira passada, o presidente interino Michel Temer não escapou de uma sonora vaia. Bastou um discurso protocolar de apenas 12 segundos de duração para Temer engrossar a lista de autoridades, artistas e atletas que receberam vaias em grandes eventos.

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O Blog do Curioso fez uma lista com outras 11 grandes vaias da história. Se não gostar, pode nos vaiar no final… rs!

1. Em 19 de julho de 1967, Botafogo e América fizeram um jogo válido pelo Campeonato Carioca. Um dia antes, Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro presidente do Regime Militar (1964-66), havia morrido em um acidente aéreo. O locutor do estádio anunciou que seria respeitado um minuto de silêncio em homenagem ao general. A reação não foi a esperada: imediatamente a torcida vaiou o morto. A vaia só foi interrompida com o início da partida.

2. Em 13 de maio de 1959, a escalação da Seleção Brasileira campeã mundial de 1958 estava na ponta da língua de todo os brasileiros. Especialmente daqueles que foram ao mesmo Maracanã acompanhar o amistoso entre Brasil e Inglaterra. No anúncio da escalação, tudo corria dentro do esperado até o anúncio do camisa 6, Nilton Santos. Pois foi aí que o locutor Victorio Gutenberg fez uma longa pausa e disparou: “camisa 7… Julinho Botelho!”. A presença do jogador do Palmeiras no lugar de Garrincha foi recebida com uma quase unânime vaia que durou cerca de três minutos. Sacado do time pelo técnico Vicente Feola por ter se esbaldado na noite carioca no dia do jogo, Garrincha viu seu substituto ser vaiado a cada toque na bola. Mas, aos 7 minutos, Julinho deixou a marcação inglesa para trás e fez 1 a 0. Aos 30, deu o passe para o segundo, o gol que decretou a primeira vitória brasileira sobre os ingleses na história. Ao final do jogo, o Maracanã gritou o nome de Julinho e o palmeirense deixou o gramado sob os aplausos das mesmas 100 mil pessoas que o vaiaram no anúncio da escalação.

3. Em 2007, o Brasil iniciou sua jornada na busca por grandes eventos esportivos. Considerados a chance de ouro para o país impulsionar as candidaturas à Copa de 2014 (àquela altura já muito bem encaminhada) e, principalmente, aos Jogos Olímpicos de 2016 (cuja escolha da sede seria dois anos depois), os Jogos Pan-Americanos começaram com uma bela cerimônia de abertura no Maracanã. No momento mais aguardado da festa, porém, uma impressionante vaia. Reeleito presidente da República com a maior votação proporcional da história no ano anterior, Luiz Inácio Lula da Silva foi tão repreendido pelo público, que, no improviso, quebrou o protocolo e deixou de abrir oficialmente a competição. A honra acabou por cair nas mãos do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Em 2014, quatro meses antes de ser reeleita presidente, Dilma Rousseff também foi vaiada na abertura da Copa do Mundo, na Arena Corinthians.

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4. Outro chefe de Estado altamente popular que passou por maus bocados em um estádio de futebol foi Getúlio Vargas. Em 1940, ele participou da inauguração do Pacaembu, em São Paulo. À época o maior estádio da América do Sul, o Pacaembu estava lotado de paulistanos ainda engasgados com a subida de Getúlio ao poder após o golpe de estado contra o paulista Washington Luís em 1930. Além disso, Vargas ainda havia reprimido a Revolução que eclodiu em São Paulo em 1932. Com isso, a Terra da Garoa era um dos poucos lugares no país onde era possível que o Presidente, conhecido pela habilidade na hora de discursar, fosse implacavelmente vaiado. Curiosamente, quatro anos depois, ele transferiu os festejos do Dia do Trabalho do Rio de Janeiro para São Paulo como forma de exaltar a disciplina dos trabalhadores paulistas, que não aderiram greves como as que estavam ocorrendo na então capital federal. Com o Pacaembu mais vazio e a crise política no país menos intensa, foi recebido com aplausos e fez até desfile em carro aberto.

5. Em 1967, o músico Sérgio Ricardo iria se apresentar no palco do Festival da Música Popular Brasileira, então realizado anualmente pela TV Record. Porém, assim que começou a cantar a música “Beto Bom de Bola”, passou a receber uma impressionante vaia do público no Teatro Paramount, em São Paulo. Depois de alguns segundos tentando contornar a situação, o cantor se irritou. Quebrou o violão, atirou em direção a plateia e deixou o palco inconformado: “Vocês conseguiram! Esse é um país de animais!”. Essa é uma das cenas mais marcantes daquele que é considerado o maior dos festivais musicais do Brasil, vencido por Edu Lobo com “Ponteio”. O ocorrido passou a perseguir Sérgio, hoje com 84 anos. Em 2012, durante um show na capital paulista, ele riu quando um espectador pediu a música que não caiu nas graças do público em 1967 e ainda brincou: “Agora eu toco piano, não posso atirá-lo em vocês”.

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6. Aproveitando-se do sucesso dos festivais das TVs Record e Excelsior, a Globo realizou o I Festival Internacional da Canção em 1966. A terceira edição, realizada em 1968, entrou para a história pelas composições em protesto ao regime militar. Uma delas, “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, era nitidamente a escolhida pela imensa maioria dos 20 mil presentes no Maracanãzinho. O resultado, como de costume, era anunciado em ordem decrescente, ou seja, do último ao primeiro lugar. Quando a canção de Geraldo Vandré foi anunciada como segunda colocada, uma imediata vaia se estabeleceu e só se interrompeu quando Vandré veio ao palco e cantou acompanhado por todo o público. No entanto, bastou Cybele e Cynara entrarem no palco para cantar “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim, que o público voltou a vaiar, abafando a apresentação da música vencedora do festival. O quarteto – Cybele, Cynara, Tom e Chico – não era o alvo dos protestos, destinados aos juízes, mas acabou entrando para a história como o vencedor de pior repercussão na história de todos os festivais.

7. O cantor Wilson Simonal explodiu no final dos anos 1960. Dono de uma voz marcante e de um carisma inigualável, ele se tornou rapidamente um dos cantores mais famosos do país. Tudo mudou, no entanto, quando ele interrompeu a parceria de sucesso com César Camargo Mariano, perdeu tudo e, de quebra, passou a ser acusado de ser informante do DOPS, o órgão do Regime Militar responsável por perseguir e torturar opositores. Abandonado por boa parte da classe artística, que era o maior alvo dos militares, o cantor viu a opinião pública mudar. Um dos momentos mais emblemáticos de sua derrocada foi um show no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro. O público ficou bastante incomodado com a presença de um cantor de estilo alheio ao samba em uma segunda-feira, quando se apresentavam grandes nomes do gênero. As implacáveis vaias desconcertaram o sempre seguro Simonal, que cometeu diversos erro banais com o violão. Wilson foi salvo por Nelson Cavaquinho, que subiu ao palco e, assim, fez os apupos cessarem. Simonal, entretanto, jamais recuperou o prestígio e morreu no ostracismo em 2000.

8. Uma das grandes atrações do Rock in Rio em 2001 foi o show de Axl Rose. No mesmo dia, Carlinhos Brown foi escalado para se apresentar no palco principal do festival. A plateia, ávida pelo rock pesado das apresentações seguintes, não aceitou. Enquanto tentava cantar “A namorada”, o músico baiano foi vaiado e insultado pelo público. Como se não bastasse, ainda recebeu uma chuva de garrafas em sua direção. A resposta – “Não jogo garrafas, só jogo amor” – aumentou a ira do público e forçou o cantor a encerrar o show. Em 2015, Brown voltou ao Rock in Rio para se apresentar no Palco Sunset. Desta vez, sem vaias.

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9. O tricampeonato da Imperatriz Leopoldinense no Carnaval carioca entre 1999 e 2001 não foi bem aceito. Tanto o público quanto a imprensa contestaram os três títulos, especialmente os de 99 e 2001. A escola já tinha, antes mesmo desses títulos, a antipatia de parte do público por ser considerada “fria”, ou seja, muito preocupada em agradar os jurados e pouco preocupada em divertir o público. No desfile de 2002, a escola se armou na concentração para defender o seu tricampeonato sob a maior vaia da história da Marquês de Sapucaí. Os presentes no Setor 1, o mais popular e único composto quase que totalmente por cariocas, vaiaram e fizeram o gesto de “roubo”, girando a mão esquerda sob a palma da mão direita. Como se não bastasse, latinhas de cerveja e até as bandeirinhas distribuídas pela própria escola foram atiradas de volta à pista, obrigando a comissão de frente a se esconder atrás do abre-alas. O discurso do presidente Wagner Araújo, dedicando o desfile aos torcedores, aumentou a confusão. As vaias só terminaram quando o samba-enredo daquele ano (“Goytacazes: Tupi or not Tupi in a South American Way”) começou a tocar. A escola ficou em quarto lugar e  nunca mais venceu o Carnaval do Rio de Janeiro.

10. Um brasileiro esteve envolvido em uma das maiores vaias da história do esporte mundial. Em 2002, Rubens Barrichello fez um fim de semana brilhante no Grande Prêmio da Áustria. Mais rápido nos treinos de sexta, pole position no sábado e líder de ponta a ponta na corrida do domingo, ele caminhava com tranquilidade rumo à sua primeira vitória em uma temporada dominada por Michael Schumacher, companheiro de Ferrari, que havia vencido quatro das cinco primeiras corridas e já estava com o título encaminhado. Nos últimos metros da última reta, no entanto, Barrichello cumpriu as ordens da equipe italiana e diminuiu a velocidade para que Michael Schumacher o ultrapassasse e, assim, vencesse a prova no circuito de A1-Ring. Durante todo o percurso dos pilotos do final da prova até o pódio e também durante a própria premiação, o público presente vaiou de maneira implacável a Ferrari e o piloto alemão, que deu o troféu de primeiro colocado para o brasileiro e lhe cedeu o lugar mais alto do pódio. Já campeão, na penúltima corrida da temporada, Schumacher abriu caminho para Rubens fazer a ultrapassagem na volta final e vencer o Grande Prêmio dos Estados Unidos, em Indianápolis.

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11. Em julho deste ano, a youtuber brasileira Marcela Tavares se apresentou em um evento em Nova York. Conhecida na internet pelas posições críticas à situação política do Brasil, ela iniciou seu show ironizando o país para uma plateia formada em sua maioria por brasileiros que aguardavam um show da banda mineira Skank. Os comentários irritaram o público, que vaiou Marcela. Incomodada, ela deixou o palco e narrou a história em um vídeo no Facebook.

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