Amanhã, dia 19 de maio, o Museu do Futebol passa por uma grande repaginação e abrirá espaço para o futebol das mulheres. O projeto se chama “Visibilidade para o Futebol Feminino” e inicia a contagem regressiva para a sétima edição da Copa do Mundo Feminina, que será disputada no Canadá, entre 6 de junho e 5 de julho. A fachada e todas as salas do museu receberão histórias da modalidade, que ficou proibida no país por 40 anos. Muitas mulheres chegaram a jogar na clandestinidade.

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Fachada do Museu do Futebol recebe decoração com as principais jogadoras da história da modalidade

Claudete Troiano foi convidada para fazer a narração de três vídeos que ilustram essa história: as pioneiras, os primeiros clubes e a plasticidade do jogo. Claudete é uma dessas pioneiras. No final da década de 1960,  os campos de futebol só contavam com a presença de homens: de jogadores, passando por torcedores, à jornalistas. Pelas mãos do araraquarense Roberto Montoro, hoje com 86 anos, o estigma começou a mudar. Em 1969, Montoro comprou a rádio Santo Amaro AM e a transformou, no ano seguinte, em Rádio Mulher. Se os estádios eram para homens, o 930 AM era feito inteiramente por mulheres para mulheres. “Tratava-se de uma rádio muito à frente de seu tempo”, lembra Claudete Troiano, hoje apresentadora do programa Santa Receita, da TV Aparecida, de Aparecida (SP). “Até  a técnica de som era mulher, inclusive ela puxava metros de fio no gramado como os homens”.

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Os rostos de Rádio Mulher: Claudete Troiano, Germana Garilli, Jurema Yara e Leilah Silveira

Diariamente, a Rádio Mulher transmitia programas com conteúdos totalmente voltados para as necessidades e gostos femininos. Aos finais de semana, a grade da programação era voltada principalmente para o futebol – e sem pitaco de qualquer homem. De microfone rosa nos gramados paulistas, a repórter Germana Garilli corria atrás dos jogadores. Nas cabines, Claudete Troiano e Zuleide Ranieri se revezavam na narração de jogos, enquanto Jurema Yara e Leilah Silveira eram as comentaristas. “Fizemos curso de futebol para nos aprofundar mais no assunto”, lembra Germana Garilli. “Não queríamos errar de jeito nenhum, porque éramos muito cobradas.”

As análises de arbitragem eram feitas por Léa Campos, a primeira árbitra profissional no futebol brasileiro. Léa mora atualmente nos Estados Unidos e virá especialmente para a cerimônia de abertura do projeto do Museu do Futebol.

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Léa Campos: primeira árbitra do mundo também fez parte da equipe

Para essas mulheres, o futebol esteve presente desde quando eram pequenas. Discutiam o esporte com amigos, pais e irmãos, porém os jornalistas homens não acreditavam que elas estavam capacitadas para discutir o esporte. “O problema maior era com os cronistas esportivos, eles tinham muito ciúme”, recorda Claudete Troiano, que começou como repórter e depois se tornou narradora. “Tinham mulheres melhor preparadas que alguns homens”. Germana Garilli também sentiu o preconceito masculino, porém alguns jornalistas se sobressaíram e a ajudaram. “Fiori Gigliotti, Geraldo Bretas, Mauro Pinheiro, David Reis, Roberto Silva eram verdadeiros cavalheiros, atenciosos, queriam nos auxiliar sempre”, lembra.

Se fora de campo os jornalistas não ajudavam, dentro dos gramados alguns jogadores queriam ir além de entrevistas com as garotas da Rádio Mulher. “Eles nos paqueravam muito”, lembra Claudete. “Cheguei até a namorar um jogador da Portuguesa”. Se os flertes não surtiam efeito, ao menos, ficavam as amizades. “Os jogadores tinham dificuldade em escrever cartas para as mulheres, então eles perguntavam pra mim o que deveriam escrever”, conta Germana. Já com Claudete, eles não queriam auxílio na escrita, mas na aparência. “Cansei de levar jogadores escondidos em salão de cabeleireiro de amigas para fazer permanente no cabelo, já que naquela época usava muito o black power”, revela a narradora. “Leivinha, do Palmeiras, pedia para uma amiga passar chá de camomila no cabelo dele para ficar mais loiro.”

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Germana Garilli entrevista o lateral Everaldo, do Grêmio, no Pacaembu

Enquanto alguns atletas tinham carinho, outros eram cercados de preconceito e desrespeito. O time do Palmeiras estava saindo do gramado quando Germana Garilli chamou Emerson Leão para uma entrevista. O goleiro virou e disse: “Eu não falo com mulher dentro de campo”. Germana prometeu nunca mais entrevista-lo e cumpriu. As jornalistas de Rádio Mulher não aliviavam para ninguém. “Quando eu falei que o Rivellino era o canelinha de vidro, porque nunca o vi entrar numa dividida, o Roberto Montoro ficou horrorizado, mas quando eu expliquei e ele entendeu, me deu forças”, relembra a comentarista Jurema Yara.

A Rádio Mulher acabou em 1976 pela falta de patrocínios. Roberto Montoro resolveu alugá-la para programação evangélica e excluir os bons conteúdos para mulher. Ao menos, o slogan “um palavrão a menos, uma mulher a mais nos estádios” deixou um grande legado. “Noto que a importância da Rádio Mulher foi bem maior do que na época eu atribuí, sei que abrimos portas”, diz Claudete. “Eu sempre disse pra Renata Fan não ficar de enfeite, não ser usada como objeto de decoração do estúdio, e hoje ela está aí como uma das melhores jornalistas esportivas do Brasil”.

(As três lamentam ter perdido contato com Leilah Silveira e Zuleide Ranieri, que não foram localizadas pela reportagem).

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