Em 1980, a revista Placar lançou sua primeira Edição dos Campeões, especial com os pôsteres dos vencedores dos principais campeonatos do ano. Trabalhando em Placar (de 1984 a 1988 e depois de 1994 a 1998), participei do fechamento de muitas delas. Lembro a loucura que era conseguir as fotos de alguns campeões – e, mais complicado ainda, identificar corretamente todos os jogadores perfilados. Virar pôster de Placar era a glória para muitos times e jogadores. Continuei colecionando a edição esses anos todos. Soube recentemente, pela seção de cartas de Placar,  que a Edição dos Campeões deixou de existir. Pelo menos fisicamente. Agora os pôsteres serão publicados apenas no site da revista.

Esse momento nostalgia me fez lembrar de uma foto bastante curiosa da edição de 2001. O pôster do Juventude, campeão mato-grossense, teve um  “chifrinho” que deu muito o que falar. Na hora do click, o meia Washington fez o “V” na cabeça do massagista Jair Franzmann. Dentro do gramado do Estádio Asa Delta, sede do clube, foram tiradas duas fotos para o pôster oficial do título. Na primeira, todos comportados; na segunda, o insólito gesto de Washington. “Poderiam ter escolhido a outra foto, tomei um susto quando vi na Placar”, lembra o autor do “chifrinho”.

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Um chifrinho marcou a conquista do Campeonato Mato-Grossense de 2001 pelo Juventude

O massagista Jair Franzmann, então com 29 anos, havia chegado em 2001 ao Juventude, mas a amizade com Washington já era antiga. Em 1997, ambos trabalharam juntos no Ypiranga de Erechim (RS). “Eu senti na hora que haviam tocado na minha cabeça, mas só tive a certeza quando vi a foto publicada na revista”, revela Jair, que deixou o bigode para comemorar aquele título. “Quando soube, disse pro Washington: ‘Tá de sacanagem, né?!” Washington jura não ter planejado a trama. “Foi palhaçada, deu na cabeça ali no momento e fiz”, explica. “A amizade com o Jair era muito boa, a gente conversava bastante e tomava uma cervejinha juntos”. O massagista exalta os anos ao lado do brincalhão: “Nossa amizade era de irmão para irmão. O Washington fazia palhaçada 24 horas por dia. Na maioria das vezes, só ele achava graça. Para não perder a amizade, eu ria junto.” Dentro do time, porém, nem todos aprovaram a brincadeira. “Ele deveria ter pensando antes de fazer, porque não era uma foto que ficaria só dentro do clube”, reclamou o zagueiro e capitão Baggio. “Foi uma coisa chata, brincadeira de criança.” Para o treinador Edson Porto, não houve problemas: “Como o grupo era muito unido e brincalhão, aceitamos”. Se o Juventude não fosse campeão sem ter jogado a final, talvez o “chifrinho” nunca teria existido.

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O famoso chifrinho de Washington em Jair

Em 14 de julho, estava marcado o primeiro confronto da final, contra o Mixto, no Estádio José Fragelli, conhecido como “Verdão”. O Juventude ganhava por 3×1 quando o juiz Jamil Rodrigues de Souza marcou um pênalti para o Mixto. Toninho tentou bater para diminuir o placar, escorregou ao chutar e pegou com as duas pernas na bola. Antes de a bola sair, Odil completou para o gol. O juiz invalidou por dois toques. A confusão se armou em campo. “Até o Arnaldo [Cezar Coelho] comentou o lance no Globo Esporte”, lembra Fernando Vila Nova, o craque daquele Juventude. O Mixto entrou na Justiça pedindo anulação da partida pelo pênalti. O segundo confronto seria jogado em oito dias, em Primavera do Leste. Os jogadores do Juventude se trocaram, foram a campo e aguardaram 30 minutos  no estádio lotado para ver se o adversário aparecia. “De repente, surge um ônibus vindo de Rondonópolis, a torcida começou a vibrar achando que era o Mixto, mas era o reforço policial”, recorda Fernando Vila Nova, que jogou no clube de 1999 a 2007. Para o polêmico Washington, a ausência do Mixto deu-se “por medo, porque eles tomariam de cinco”. No fim das contas, não teve jogo e o Juventude sagrou-se bicampeão estadual. “Foi a primeira e única vez que levantei uma taça sem estar suado”, recorda o zagueiro e capitão Baggio. “A cidade parou para comemorar o título”.

Quase quinze anos se passaram. O Juventude fechou as portas e a cidade ganhou um novo time, o Primavera, em 2008. Atualmente, Washington, de 45 anos, trabalha na secretaria de esportes de Rondonópolis (MT) e disputa campeonatos de futebol master – atletas com mais de 40 anos – da região. Jair Franzmann é, desde janeiro de 2010, massagista da Chapecoense (SC), uma das surpresas do Brasileirão de 2014. A última vez que os dois personagens da foto do chifrinho se encontraram foi em 2007, na cidade onde Washington vive atualmente. “Saudades demais dele, temos que nos encontrar para darmos umas risadas”, pede Jair. Por outro lado, Washington já ofereceu o cardápio: “Uma bela buchada para lembrarmos os velhos tempos”. Dessa vez, sem chifres – nem do bode.

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