“Como o senhor responde a crítica que o PRTB seria uma típica legenda de aluguel, que vive do dinheiro do fundo partidário, de negociar alianças pelo seu escasso tempo de TV e de negociar candidaturas que fazem ataques terceirizados nas eleições?” A pergunta do jornalista Kennedy Alencar deixou o presidenciável Levy Fidelix de bigode em pé. Acostumado a sempre atacar, o candidato não esperava por aquele golpe desferido no debate entre os candidatos à presidência, promovido por SBT, UOL e Rádio Jovem Pan.  O representante do PRBT (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro) ficou furioso ao ouvir a pergunta, mas a indagação de Kennedy Alencar suscitou um novo debate. O que exatamente um partido tido como “nanico” busca em uma eleição presidencial?

Na última pesquisa eleitoral, realizada pelo Ibope em 12 de setembro, somente quatro dos 11 candidatos apareciam com pelo menos 1% de intenção de votos: Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB), Aécio Neves (PSDB) e Pastor Everaldo (PSC). Os outros setes candidatos não atingiram esta marca, porém receberam, juntos, R$11.658.803 por meio do Fundo Partidário, dinheiro extraído dos cofres da União para ser dividido entre todos partidos, uma manobra para trazer competitividade às eleições. Entre janeiro e agosto de 2014, o Fundo Partidário distribuiu R$108.032.826,03 aos 32 partidos atualmente existentes no Brasil. A quantia destinada às legendas, assim como questionado por Kennedy Alencar, é o chamariz para atrair candidaturas que certamente não resultarão em vitórias. Neste período, só como exemplo, o PRTB recebeu R$ 109.522,57 por mês, o que já deu um total de R$ 882.724,93 em 2014.

De 1986 até 2012, houve 14 eleições, no Brasil, para todos cargos políticos. O mineiro José Levy Fidelix da Cruz, 62 anos, participou de onze delas – dez como candidato titular, e uma como candidato a vice-prefeito de São Paulo, em 2000. Ele era vice de Fernando Collor, que teve a candidatura cassada. Como se sabe, o fundador e dono do PRTB perdeu todas eleições que disputou  – na maioria delas, ficou nas últimas colocações. Aliás, só a título de curiosidade, se somados todos os votos válidos das 10 candidaturas de Levy Fidelix, o político conseguiu 120.753 votos – em 2010, Tiririca foi eleito deputado federal com 1,3 milhão de votos, ou seja, Fidelix necessitaria de outras 90 eleições para chegar aos números do palhaço. Este ano novamente postula ao cargo de presidente, assim como fez em 2010. “Mesmo sem chances reais de governo, eu me candidato para cutucar os ‘partidos gigantes’, entrando em temas importantes e deixando novas ideias no ar”, afirma o presidenciável do PRTB, ex-colunista do jornal Última Hora e fundador da agência Staff Publicidade. Nos últimos seis anos, o partido presidido por Fidelix recebeu R$10.459.526 entre Fundo Partidário e doações privadas.

levy fidelixx

Para o cientista político Aldo Fornazieri, há três motivos para partidos pequenos se candidatarem: interesse financeiro, contemplar mais cargos políticos por meio de alianças e manter a legenda viva, caso de Hernani Fortuna, o candidato menos votado nas eleições presidenciais de 1994. “O PSC (Partido Social Cristão) necessitava de um candidato para o partido não morrer, e aí me chamaram”, conta o então almirante da Escola Superior de Guerra. O dinheiro, para Fornazieri, é o principal elemento de uma candidatura. “Partidos maiores financiam as siglas que não têm projeção para falar mal dos candidatos rivais”, garante. Mesmo sem vitória nas urnas, o patrimônio dos presidenciáveis cresce. Em 8 anos, o patrimônio de José Maria Eymael (PSDC), presidenciável em 1998, 2006, 2010 e 2014, aumentou 520%, enquanto o de Levy Fidelix teve um acréscimo de 602%. O dono do PRTB chegou a declarar em 1998 que um apartamento no bairro paulistano do Campo Belo valia R$300.000. Mas, em 2006, mudou o valor declarado do imóvel para R$80.074, o que, na opinião de Carlos Alberto Sardenberg, é dificílimo de acontecer. “Só se tivessem levantado duas favelas ao redor, mas não foi o caso”, discorreu o jornalista econômico sobre o apartamento atualmente avaliado em 1,2 milhão de reais.

candidatos

Sobre as eternas candidaturas e os ganhos financeiros, os dois políticos se esquivam. “Busco a reinstituição da democracia cristã, mas nunca dinheiro”, afirma Eymael. “Não fazemos campanhas milionárias.” O PSDC, presidido pelo candidato, recebeu R$6.552.058 entre Fundo Partidário e doações, de 2008 a 2013. Levy Fidelix dá de ombros para os poucos votos e as 10 derrotas eleitorais. “Nunca perdi uma eleição. Vencer, para mim, é no campo das ideias”, vangloria-se. “Ridicularizavam-me com a ideia do aerotrem e do Rodoanel, mas depois fizeram”. Apesar da ascensão econômica, Fidelix nega que candidaturas resultam em dinheiro ao fim das eleições. “Não tem lucro, o político perde recursos e tempo nas campanhas, é muita falácia de quem não entende do ramo.” Levy está deixando um legado. Este ano, a filha Livia Fidelix é candidata a deputada estadual pelo partido do papai.

(com reportagem de Lucas Strabko)

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