O fim da Copa vai chegar mais cedo para o delegado Fábio Barucke: a decisão judicial de julgar o cambismo como associação criminosa será feita ainda hoje, a três dias da disputa final entre Alemanha e Argentina. Enquanto torcedores curtiam a Copa do Mundo e Lamine Fofana comandava uma máfia da revenda ilegal de ingressos, Barucke escutava mais de 900 ligações que comprovariam o envolvimento de dirigentes da FIFA com uma quadrilha que atua há 16 anos revendendo entradas em torneios organizados pela entidade. Barucke, de 41 anos, inicialmente motivado pela impunidade dos cambistas, percebeu que havia um grande caso em mãos quando ouviu declarações de Ray Whelan, executivo da Match, empresa contratada pela FIFA para fiscalização de ingressos, ao telefone com Fofana, o maior cambista da Copa do Mundo de 2014. Foi aí que o delegado deixou o “sonho de ver uma Copa no Brasil” para se dedicar ao caso que marcaria o auge de sua carreira.

Fábio Barucke, do 18º DP, descobriu o comandante da máfia dos ingressos

Fábio Barucke, o delegado que desvendou a máfia dos ingressos da FIFA

Fábio Oliveira Barucke nasceu em 9 de setembro de 1972, no Rio de Janeiro. Desde pequeno, o garoto tinha uma certeza: queria ser advogado. O pai dizia que era “coisa de criança”, e a mãe ficava preocupada com os perigos da profissão – temor que se concretizaria mais tarde. O sonho da profissão virou realidade quando, em 1996, Fábio recebeu o diploma do curso de Direito da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Com seis meses de formado, tornou-se oficial de justiça. Advogou durante dois anos, até perceber que não tinha perfil para o cargo. Em 2001, depois de conquistar uma vaga por meio de concurso público, descobriu sua vocação no Direito: ser delegado de polícia.

Até 2012, a 18ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, localizada na Praça da Bandeira, a 2 km do Maracanã, não havia desvendado um caso de grandes proporções. Nos arredores do estádio, cambistas praticavam sua atividade descaradamente. Quando presos, não demoravam em ser liberados ou, no máximo, eram condenados a pagar uma cesta básica. Certo dia de jogo no Maracanã, um cambista, impune, despediu-se de Fábio Barucke com uma frase que ficou na cabeça do delegado: “Se o senhor quiser, eu tenho ingressos para todos os jogos.” Sabendo que a Copa do Mundo movimentaria o setor, Barucke traçou um objetivo: além de prender cambistas, iria imputá-los no crime de formação de quadrilha.

Antes de começar a fase de grupos, dois policiais foram plantados perto do Maracanã e abordaram um cambista, pedindo ingressos para todos os jogos. “Ele indicou um tal de Henrique”, contou Barucke. O vendedor, diretamente ligado a Lamine Fofana, não trabalhava na porta dos estádios, mas comandando a distribuição de ingressos para os cambistas que iriam às ruas. “Não o prendemos àquela hora porque sabíamos que ele seria uma porta para desvendarmos outras conexões”. Foi aí que o grupo descobriu que uma fonte de ingressos estava dentro do Copacabana Palace.

Barucke no apartamento de Fofana (no fundo), o líder dos cambistas

Barucke no apartamento de Fofana (ao fundo), o líder dos cambistas

A fonte, hospedada junto com a cúpula da FIFA no hotel mais caro e famoso do Rio de Janeiro, era Ray Whelan, executivo da Match, empresa contratada para fiscalizar os ingressos da Copa. Em 7 de julho, Barucke, dando continuidade à Operação Jules Rimet, foi ao hotel com o objetivo de prendê-lo. “Whelan foi arrogante, xingou policias e apresentou uma versão própria, dizendo que não tinha ligações com o Fofana, apesar de isso ter sido comprovado com inúmeras ligações”, conta o delegado. O executivo da Match acabou sendo liberado e o delegado, chateado com o ocorrido, desabafou: “Se ele não for julgado por formação de quadrilha, eu saio do caso. Whelan pagou apenas 5 mil reais de fiança, o que não compra sequer um ingresso de cambista”.

Ray Whelan, saindo da delegacia: "Se ele não for julgado, eu saio do caso", revelou o delegado

Ray Whelan, saindo da delegacia: “Se ele não for julgado, eu saio do caso”, revelou o delegado

A rotina de investigações afastou o delegado, pai de Laura (2 anos) e marido de Ana Luisa, de sua vida pessoal. Apesar de não conseguir treinar a corrida há 10 dias, Barucke garante que percorrerá, em 27 de julho deste ano, os 42 km da Maratona do Rio de Janeiro. Ele, que já participou das corridas de Nova York (EUA) e Buenos Aires (Argentina), tem planos de correr as maratonas de Paris (França) e de Berlim (Alemanha), para, finalmente, concluir a meta de 10 competições internacionais. O futebol, outra paixão esportiva, Fábio também não conseguiu aproveitar enquanto corriam as investigações. “Eu estava credenciado para ver todos os jogos, porém não fui em nenhum”, contou o flamenguista fanático. Depois da derrota da Seleção Brasileira, revelou que torcerá pela Alemanha, que exibe as mesmas cores de seu clube de coração. “Torcer contra a Argentina vai ser a mesma coisa que torcer contra o Vasco”. Para disfarçar a dificuldade de socialização, recusa convites a mesas de bar. Caseiro, gosta de curtir a mulher e a filha e prefere um suco à cerveja.

O desmantelamento da quadrilha da venda ilegal de ingressos da FIFA não foi o único caso de cinema protagonizado por Fábio Barucke. O delegado já sentiu na pele a adrenalina dos filmes de ação que gosta de assistir em seu tempo livre. Conhecido como “Mota da Coopasa”, o operador da máfia das vans de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, encomendou a morte de Fábio Barucke, que na época atuava na 74ª DP, por R$ 40 mil. Para tranquilizar a mãe, cuja preocupação se tornava uma realidade, Barucke passou a usar somente carros blindados e morar em um apartamento alugado no Rio de Janeiro em detrimento ao oficial, que ficava em Niterói. O delegado não se intimidou. No mesmo ano, denunciou e prendeu os integrantes da milícia “Liga da Justiça” – incluindo o líder “Batman” -, que aterrorizava São Gonçalo na época. Ainda assim, Barucke considera o caso dos ingressos da FIFA o auge de sua carreira. “Se o resultado da decisão judicial por positivo, será o maior legado profissional de minha vida”.

(Com reportagem de Lucas Strabko)

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