No dia 5 de junho de 1938, o povo brasileiro viveu um momento histórico. Teve a chance de ouvir, pela primeira vez, uma partida de Copa do Mundo ao vivo. O Brasil venceu a Polônia na prorrogação por 6 x 5 naquela que seria a primeira transmissão do rádio brasileiro realizada de outro continente. A missão de narrar as jogadas de Leônidas e companhia em solo francês coube ao pernambucano Leonardo Gagliano Neto.  Locutor – ou, como se dizia à época, “speaker” esportivo – da Rádio Clube do Brasil, localizada no Rio de Janeiro, ele já havia sido pioneiro um ano antes, quando, trabalhando na Rádio Cruzeiro do Sul, realizou a primeira transmissão de um jogo da Seleção Brasileira, durante o Sul-Americano de 1937, na Argentina. Na ocasião do jogo contra a Polônia, o presidente Getúlio Vargas, que considerava o rádio um instrumento fundamental no processo de transformação do futebol em símbolo de sucesso de seu governo, decretou feriado nacional e ordenou que fossem instalados alto-falantes nas praças e locais públicos para que os brasileiros pudessem contemplar a inédita transmissão.

Gagliano Neto, speaker brasileiro na Copa de 1938

Recorte de jornal presente no material guardado pela família de Gagliano

Gagliano viajou para a França a bordo do navio Arlanza, o mesmo que levou a Seleção Brasileira, em viagem que durou 18 dias. Ele estava em companhia da mulher, Lygia Caldeira, com quem havia se casado um ano antes.  Como a emissora não dispunha de verba para enviar comentaristas ou repórteres de campo, ele era obrigado a falar durante os 90 minutos e, por falta de infraestrutura adequada, chegou a narrar as partidas de dentro do campo, no meio da torcida ou, até mesmo, de cima do telhado do estádio. Outra dificuldade encontrada foi o que ele chamou de “censura imposta pelo regime de Getúlio Vargas”. No decorrer da competição, Gagliano recebeu três telegramas do Ministro das Relações Exteriores do Brasil Osvaldo Aranha. Nos dois primeiros, o Itamaraty pedia ao narrador que evitasse comentários exaltados na semifinal, contra a Itália. Na época, Vargas demonstrava certa simpatia em relação ao regime fascista italiano, comandado por Mussolini. De fato, depois da derrota brasileira, por causa de um pênalti suspeito cometido pelo zagueiro Domingos da Guia sobre o atacante Piola, a imprensa brasileira chegou a afirmar que Gagliano havia se exaltado em suas críticas ao árbitro. No entanto, o periódico Cine-Radio Jornal, em sua edição de 8 de setembro de 1938, fez justiça ao narrador divulgando o terceiro telegrama por ele recebido:

“Rogo procurar Gagliano Neto – speaker – da delegação esportiva brasileira atualmente nessa cidade para significar-lhe a nossa satisfação pela maneira pela qual atendeu o apelo que lhe havíamos dirigido por ocasião da irradiação do jogo Brasil – Italia”. (a.) Exteriores.

Edição do Cine-Radio Jornal, de 8 de setembro de 1938, na qual Gagliano conta sobre a censura imposta pelo Governo Vargas

De acordo com o artista Zilando Freitas, neto de Gagliano e responsável pelo acervo, o avô deu importantes contribuições para a transmissão esportiva no rádio brasileiro, como o grito de “gol, gol, gol”, a criação de apelidos que ficaram famosos e a tradução de termos futebolísticos para o português. “Foi meu avô quem chamou o Leônidas de “Diamante Negro” e de “Homem de Borracha” pela primeira vez, assim como foi ele que transformou “corner” em escanteio, “foul” em falta, entre outras palavras que só existiam em inglês”, afirma Zilando, que está procurando patrocinador para publicar essas histórias em livro. Ao fim da Copa, Gagliano viajou durante 4 meses pela Europa, período que aproveitou para observar como funcionavam as emissoras de rádio do Velho Mundo. Em sua volta ao Brasil, concluiu que os europeus possuíam mais infraestrutura, mas que não chegavam aos pés dos locutores brasileiros no quesito emoção.

Zilando Freitas e Lígia Maria Gagliano Freitas: mãe e filho unidos na preservação da memória de Gagliano Neto

Quem ouvia a desenvoltura de Gagliano nos microfones não imaginava qual havia sido sua verdadeira formação. Nascido em Recife, no dia 24 de dezembro de 1911, ele se formou em Ciências Econômicas pela Faculdade de Contabilidade de Recife. Só migrou para São Paulo em 1935, quando narrou, em março daquele ano, sua primeira partida de futebol na Rádio Cruzeiro do Sul – um duelo entre o Palestra Itália e o Botafogo-RJ, que, segreda Zilando, eram seus dois times do coração. Não demorou para que chamasse a atenção da Rádio Club do Rio de Janeiro, que o contratou por sugestão do presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antecessor da CBF), o cartola Luiz Aranha, para quem faltava uma voz que defendesse a Seleção Brasileira nas transmissões.

Carteira de trabalho tirada por Gagliano em sua chegada a São Paulo

De lá saiu em 1939, iniciando uma trajetória que incluiu a Rádio Mayrink Veiga (1939 a 1941) e a Rádio Nacional (1941-1943), até ser contratado por Roberto Marinho para comandar a implantação da Rádio Globo. Foi ele quem anunciou, em 1° de dezembro de 1944, o início da nova emissora, ao lado de Marinho e do também locutor Rubens Amaral. Depois, em 1949, fundou a Rádio Continental e, no mesmo ano, foi mais uma vez pioneiro, ao organizar a primeira transmissão externa do Carnaval carioca. Em 1954, voltou à Rádio Continental, participando da reformulação da emissora e da consequente transformação dela em Rádio Mundial. Ao mesmo tempo, atuou como diretor do jornal O Campeão. Permaneceu no Rio de Janeiro até 1961, quando foi contratado para trabalhar nas Organizações Victor Costa e na TV Globo em São Paulo. Nesta época, fazia também a narração de corridas de cavalo no Jockey Club de São Paulo, esporte pelo qual era apaixonado.

De volta à capital paulista, aliou o trabalho como narrador à empresa de publicidade Vox, fundada por ele. Em 1967, no entanto, Gagliano abandonaria a locução esportiva. Segundo sua filha, Lígia Maria Gagliano de Freitas, ele teria entrado em conflito com alguns diretores globais e a sua saída da emissora nunca foi totalmente esclarecida. Como tinha certa experiência no meio publicitário, assumiu, em fevereiro do mesmo ano, o cargo de diretor de Relações Públicas e Publicidade do Hotel Horsa Nacional em São Paulo, de propriedade de seu amigo pessoal, o empresário José Tjurs, e onde trabalharia até o seu falecimento, em 5 de março de 1974, vítima de um ataque cardíaco. Para Lígia, o maior orgulho da carreira do pai foi o pioneirismo no rádio brasileiro durante a Copa de 1938. “Aquela Copa ficou marcada para sempre na memória dele”, garante ela.

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