Quantas vezes você ouviu dizer que “o futebol é uma caixinha de surpresas”? A expressão que virou clichê foi inventada pelo comentarista Benjamim Wright, pai do ex-árbitro José Roberto Wright. Essa é apenas uma das famosas expressões do jargão futebolístico que coloquei no livro “O Guia dos Curiosos – Língua Portuguesa”. Conheça algumas outras:

Benjamim Wright, criador da expressão que virou clichê

Cartola

Vicente Matheus, o mais folclórico dos cartolas

Antigamente, o futebol era um esporte aristocrático. Os uniformes dos jogadores tinham até gravata, e alguns dirigentes usavam cartola. Com o tempo, o termo ganhou conotação pejorativa, passando a classificar dirigentes de entidades esportivas que se aproveitam de sua posição em benefício próprio. O cartola mais folclórico talvez seja Vicente Matheus (foto), presidente do Corinthians durante 8 mandatos e autor de frases célebres como “Quem está na chuva é para se queimar” e “O Sócrates é invendável e imprestável”.

Chaleira

É um chute dado com o lado de fora do pé, estando a perna levantada e dobrada para trás. A jogada foi criada por Charles Miller (foto), que trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil. O lance chamava-se “charles”, mas com o tempo passou a ser “chaleira”.

Corneteiro

Torcedor ou dirigente que tenta influenciar na escalação ou na política do clube, espalhando boatos, comentários, principalmente críticas. O nome vem de “boi-corneta”, um boi que, com seus mugidos, consegue reunir parte do rebanho em volta de si. Quem teve uma conturbada relação com os corneteiros foi Luiz Felipe Scolari (foto) em sua primeira passagem pelo Palmeiras, que apelidou o grupo de “Turma do Amendoim”.

Craque

No turfe, os ingleses chamavam o melhor cavalo no páreo de crack horse. O futebol copiou o termo e passou a designar de crack os melhores jogadores de um time. A palavra foi aportuguesada para “craque”. Sem dúvida alguma, era o termo que melhor definia os jogadores da Seleção Brasileira tricampeã do mundo (foto) em 1970.

É marmelada

Argentina 6 x 0 Peru na Copa de 78: até hoje, desconfia-se que o placar tenha sido combinado

Essa expressão é utilizada por torcedores que se referem a resultados combinados em partidas de futebol ou a outros tipos de trapaça. Surgiu na culinária, quando doces industrializados eram caros e os adultos davam às crianças uma iguaria bastante popular e acessível , chamada marmelada. Dessa forma, ficou caracterizada uma espécie de enganação.

Frango

Cadê as penas?

A origem da palavra “frango” para se referir a uma falha do goleiro não está registrada, mas desconfia-se que a explicação mais coerente seja a de que, ao escapar das mãos do goleiro, a bola parece estar “viva”, como se imitasse o baile que um frango no galinheiro costuma dar em quem tenta capturá-lo.

Gol de placa

Placa recebida por Pelé em 1961

A famosa expressão, utilizada para se referir ao gol que encanta o público por sua plasticidade e beleza, é criação do jornalista Joelmir Beting, falecido em 2012. A invenção ocorreu depois de uma partida entre Santos e Fluminense, válida pelo torneio Roberto Gomes Pedrosa,  no dia 5 de março de 1961. Naquele jogo, Pelé recebeu a bola no campo de defesa e arrancou em direção ao gol, driblando seis adversários no caminho. Maravilhado com a cena, o repórter mandou fazer uma placa de bronze para colocar no saguão do estádio, com os dizeres “Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o gol mais bonito da História do Maracanã”. A partir daquele momento, a expressão passaria a ser cada vez mais utilizada por narradores e comentaristas, ficando eternizada no dicionário futebolístico.

Gol olímpico

Primeiro gol olímpico de que se tem registro

É o nome que se dá ao gol marcado diretamente na cobrança de um escanteio. O primeiro da história foi registrado em 1º de outubro de 1924, em Buenos Aires. A Argentina venceu o Uruguai por 2 a 1 e um de seus gols foi marcado dessa maneira pelo ponta-esquerda Onzari. A Seleção Uruguaia tinha acabado de vencer o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos e por isso era apelidada de “Celeste Olímpica”. Como o gol argentino foi marcado contra os uruguaios, acabou recebendo o nome até hoje utilizado.

Hooligan

Tumulto em Hillsborough que acabou em tragédia

Geralmente, são eles quem começam o “sururu”. Não há um consenso sobre a origem do termo, mas se acredita que tenha vindo de Patrick Hooligan, criminoso irlandês que atuava em Londres na década de 1890. Dizem que ele e sua família – cujo verdadeiro nome pode ter sido “Houlihan”- se instalaram na Lamb and Flag (Cordeiro e Bandeira), uma casa pública ao sul de Londres, atraindo muitos simpatizantes. A Inglaterra sofreu bastante com esses torcedores. O problema por lá só começou a ser resolvido depois de 1989, quando ocorreu a tragédia de Hillsborough, na qual morreram 96 torcedores do Liverpool.

Lanterna

Íbis: o pior time do mundo se acostumar a segurar a lanterna das competições que disputava

É tradição dizer que o último colocado de uma competição está na lanterna. Mas por que isso acontece? Porque o último da fila em expedições ou caminhadas noturnas é o responsável por carregar uma lanterna, a fim de iluminar o caminho para os colegas.

Mesa-redonda

O lendário rei Arthur, que viveu no século VI, não jogava futebol, até porque o esporte não havia sido inventado ainda. Mesmo assim, ele é o responsável pelo nome que se dá aos programas de debate sobre futebol que tomam conta das emissoras brasileiras de televisão nas noites de domingo. O termo é uma tradução do inglês “round table”. Arthur mandou construir para seus amigos e cavaleiros uma mesa redonda para mostrar que considerava todos iguais. Lá, os cavaleiros da Távola Redonda comiam juntos e se reuniam, sem que houvesse lugar de honra nem mesmo para o monarca. A expressão “mesa-redonda” pode ser usada para qualquer tipo de discussão, não apenas de futebol.

Olé

Garrincha dá um "olé" na marcação

Expressão com que a torcida comemora uma sequência de toques do seu time na bola sem que o adversário consiga recuperá-la. Típica das touradas, foi adaptada para o futebol no México, onde os torcedores a empregavam para ovacionar os dribles de Garrinha durante a temporada que o Botafogo fez no país em 1958. Já o ex-craque Zito garante que o termo foi lançado pela primeira vez por torcedores peruanos saudando os toques de bola do Santos numa excursão que o time de Pelé fez no Peru na década de 1960. Qualquer que seja a versão verdadeira, é inegável que as homenagens foram merecidas.

Perna de pau

Mário Filho, o autor da célebre expressão

A expressão surgiu por causa de uma crônica do homem que dá nome ao Maracanã e irmão de Nelson Rodrigues, o jornalista Mário Filho. No texto em questão, publicado em “O Globo” no dia 21 de julho de 1944, ele escreveu: “ A perna que não chutava dava uma impressão desagradável de coisa postiça. Para o homem da arquibancada, era de pau”.

Pó de arroz

Carlos Alberto, o autor da artimanha contra o preconceito

Em 1916, época em que os negros não eram bem aceitos pelos torcedores, um jogador mulato do Fluminense chamado Carlos Alberto tentou driblar o preconceito. Antes de cada partida, ele passava grandes quantidades de pó de arroz no rosto, a fim de esconder a cor de sua pele. Com o suor provocado pelo sol forte, a substância derretia , a verdade vinha à tona e a torcida começava a gritar : “Pó de arroz, pó de arroz”. Assim nasceu o apelido da torcida tricolor.

Polivalente

Jogador capaz de atuar em diversas posições. A palavra foi cunhada pelo ex-técnico da Seleção Brasileira Cláudio Coutinho (foto) (1939-81) para definir o tipo de jogador que lhe agradava.

Sururu

Confusão entre palmeirenses e corintianos em 1999

Essa é pouco conhecida atualmente, mas já foi bastante utilizada para fazer menção às brigas ocorridas nos estádios de futebol, tanto dentro quanto fora de campo. A palavra vem do tupi-guarani “suru’ru”, que significa “caranguejo”. Como vivem sempre juntos, os caranguejos dão a impressão de estar sempre brigando, o que não é totalmente verdade. Mesmo assim, foi daí que nasceu a metáfora para designar qualquer tumulto ou confusão. Na decisão do Campeonato Paulista de 1999, os jogadores do Palmeiras não reagiram bem quando o corintiano Edilson começou a bater embaixadinhas na lateral do campo. O tumulto foi tão grande que a partida teve de ser encerrada aos 30 minutos do segundo tempo, o que deu o título ao alvinegro.

Tomar um chocolate

Erro de conta: na verdade, a partida terminou 31 a 0

A expressão, tradicionalmente utilizada para se referir aos times que levaram uma goleada do adversário, surgiu depois de um 4 a 0 do Vasco sobre o Internacional, em 1981. Na ocasião, o narrador da Rádio Globo Washington Rodrigues, o “Apolinho”, colocou no ar El Bodeguero, canção do cubano Ricard Egües que tinha o seguinte refrão : “Toma chocolate/ Paga lo que debes”. Foi suficiente para que a expressão ficasse eternizada no jargão futebolístico. Em competições organizadas pela FIFA, o maior “chocolate” foi o aplicado pela Austrália em partida contra Samoa Americana, válida pelas eliminatórias da Oceania para a Copa de 2002. Na ocasião, os australianos venceram por 31 a 0. Foram tantos gols marcados que o responsável por controlar o placar eletrônico até perdeu a conta e se equivocou na hora de alterá-lo.

Virar a casaca

Figo "virou a casaca" ao trocar o Barcelona pelo arquirrival Real Madrid em 2000

Destinada a quem troca de time, sua origem está ligada a Carlos Manuel III de Savoia (1701-73), rei da Sardenha. Ameaçado ora pela Espanha, ora pela França, o monarca via-se obrigado a trocar as cores de sua casaca de acordo com as cores de seu aliado do momento. A estratégia deu certo e ele permaneceu 43 anos no poder, marca de fazer inveja a muito político por aí. No futebol, o mais famoso exemplo deste comportamento foi Luís Figo, que se transferiu do Barcelona para o arquirrival Real Madrid, em 2000.

Virar a mesa

Provavelmente, essa é uma das expressões mais ouvidas no futebol. Ela teve origem há cerca de 400 anos, com o jogo de gamão, que, no entanto, já era praticado bem antes disso; ele surgiu no século X e consta que tenha sido inventado a partir do Ludus duodecim scriptorium, ou “jogo de doze linhas”, jogado na Roma Antiga. Até o século XVII, o gamão era conhecido como “mesas” na Inglaterra, e mesmo hoje o tabuleiro é normalmente dividido em duas ou quatro “mesas” ou seções. Durante o jogo, há vários momentos dramáticos em que a sorte muda de lado não porque o tabuleiro muda de posição, mas devido a uma regra que permite ao jogador dobrar suas apostas sob certas circunstâncias e, literalmente, virar a mesa.

W.O

É uma abreviação da palavra em inglês “walkover”, que significa alguma coisa que foi conseguida fácil, sem nenhum esforço. Quando, numa partida esportiva, um dos times não aparece, ou não tem representantes suficientes para disputá-la, o adversário vence automaticamente. A vitória conseguida sem que os times tenham jogado é conhecida por esta sigla.

Zona do Agrião

Criada pelo jornalista e técnico de futebol João Saldanha (foto), refere-se ao espaço do campo próximo à grande área de gol, onde as disputas de bola são tão duras que, segundo se diz, lá a grama não cresce, mas apenas o resistente agrião.

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